O vento

Da sala que vive em mim

vejo o capim elefante se agitando.

Nina adorava comer do pasto que nasce solto e esvoaça ao vento.

Vento que leva e traz.

Que açoita e tanto faz.

Seria este agito um convite?

O vento que me guie num adeus pra não mais voltar.

Da sala que vive em mim uma visita inesperada.

Outros gatos se avizinham.

Avizinharei com eles.

Mulheres

Todo ano acontece a mesma coisa. Hoje é o Dia Internacional da Mulher e não produzi nenhum texto para o dia. Todo mundo escreve, e eu, escritora de araque, não pensei em nada, nem escrevi nada.

Andei ocupada demais. Como em todos os anos dos últimos anos da minha vida.

Não estou reclamando. Nem me justificando. Apenas constatando.

Quando acordei, vi na agenda, um compromisso agendado para hoje: Mulheres que transformam/2019, às 19:30h. Dias atrás, fui convidada a participar. Aceitei. Depois vou ver do que se trata. Aliás, stop, vou me informar.

Voltei. Depois de esclarecer as dúvidas sobre o evento, pulverizei uma mensagem legal para o dia internacional da mulher – como quase todo mundo faz – para minha lista de Whatsapp e Facebook. Acho que tudo que precisa e pode ser dito rola solto nas mídias sociais. Todo mundo fala bonito. Nada mais me ocorre.

Por acaso, estou sozinha. A casa está arrumada. A roupa lavada. As contas pagas. Os filhos encaminhados, trabalhando e tocando a vida. O marido foi tirar mel das abelhas. O máximo que me atrevo é falar um zilhão de vezes que tome cuidado e que o amo demais. Verdade. Morro de medo de abelhas. E o amo demais. Passei os últimos dias ajudando minha mãe e ontem bati o maior papo cabeça com uma grande amiga eternamente deprimida. Ela escolheu ser assim. A respeito porque as dores são dela e ela não se importa de sofrer. Pelo menos assim me parece. Se eu fosse ela – coisa que não sou – já teria chutado o balde há séculos. Ela prefere encher ainda mais o balde. Torço para que o balde entorne. Para o bem dela.

Tô me estendendo, eu sei.

Coisa de mulher conversar, oferecer ombro e colo e ajudar amigos. Cuidar e amparar os pais. Preparar e proteger os filhos e manter a chama piloto do amor acesa para todo o sempre e ainda estimular explosões e labaredas. Transformar casas em lar. Providenciar comida e carinho e roupa lavada. Ganhar e economizar um dinheirinho. Ajeitar o jardim e lembrar de comprar presentes, cantar parabéns e festejar quem amamos … levar ao médico, dentista, fazer massagem, sair de mãos dadas … A gente nem percebe o quanto faz. Só quando não faz.

E aí todo mundo percebe.

Por isso hoje, decidi comemorar o Dia Internacional da Mulher, mesmo sendo avessa a este tipo de comemoração. Os Dias de alguma coisa, esparramados estrategicamente no calendário, me soam comerciais demais. Reconheço o valor da luta feminina por igualdade e agradeço a todas as mulheres que fizeram e ainda fazem sua parte neste eterno e constante processo de evolução humana.

Parabéns a todas nós!!!!!! Eu, você, nossas mães, avós, bisavós, amigas, conhecidas, mulheres do mundo todo. Cada uma, do seu jeito e no seu tempo fazem a diferença.

Por isso, tin tin. Um brinde a todas.

 

As Aventuras de Pi

“Preciso dizer uma coisa sobre o medo. Ele é o único adversário efetivo da vida. Só o medo pode derrotá-la. É um adversário traiçoeiro, esperto … Como eu sei disso! Não tem nenhuma decência, não respeita leis nem convenções, não tem dó nem piedade. Procura o nosso ponto mais fraco e o encontra com a maior facilidade. Começa pela mente, sempre. Num momento, estamos nos sentindo calmos, confiantes, contentes. Aí o medo, disfarçado sob a capa de uma ligeira dúvida, se infiltra na nossa mente como um espião. A dúvida vai ao encontro do descrédito e o descrédito tenta expulsá-la dali. Mas ele não passa de um soldado de infantaria com armamento deplorável. Sem maiores problemas, a dúvida consegue vencê-lo. Começamos a ficar ansiosos. A razão entra em cena para lutar por nós. Ficamos mais tranquilos. Afinal, ela está inteiramente equipada com armamentos da mais avançada tecnologia. Mas, para nossa surpresa, apesar da superioridade das suas táticas e de uma quantidade inegável de vitórias, a razão é derrotada. Nós nos sentimos enfraquecidos, hesitantes. A nossa ansiedade se transforma em pavor.

O medo, então, se concentra inteiramente no nosso corpo, que já está sabendo que algo terrível vai acontecer. Os nossos pulmões já bateram asas como um pássaro e as nossas entranhas foram embora se esgueirando como uma cobra. Agora, a nossa língua cai morta como um gambá, enquanto as nossas mandíbulas começam a galopar sem sair do lugar. Os nossos ouvidos ficam surdos. Os nossos músculos começam a estremecer como num ataque de malária e os nossos joelhos chocalham como se estivessem dançando. O nosso coração fica apertadíssimo ao passo que o nosso esfíncter relaxa demais. E assim por diante, com todo resto do nosso corpo. Cada parte de nós, a seu modo, entra em colapso. Só os nossos olhos continuam funcionando bem. Eles sempre dão a devida atenção ao medo.

Bem depressa, tomamos decisões precipitadas. Abandonamos nossos últimos aliados: a esperança e a confiança. E pronto! Nós mesmos nos derrotamos. O medo, que não passa de uma impressão, acabou de nos vencer.”

(As Aventuras de Pi – Yann Martel p.194/195)

Livro e filme recomendadíssimos. Pra ler, reler e ver de tempos em tempos. E a eterna dúvida: foi tudo imaginação? A zebra, o orangotango, a hiena e o tigre de bengala são metáforas de outros personagens? Leia e tire sua dúvidas.

 

Submersa

O dia foi de sol e mar. Plácidos e serenos.

Maré baixa.

Nela, redescobri a cidade das conchas.

Uma cidade posta na orla exposta feito xadrez no tabuleiro.

Atlântida à beira mar a um braço do olhar,

fora do alcance da ligeireza do mar.

A cidade embaralhada. Meu olhar ali se perdeu:

Entre o ir e o vir das ondinhas;

Entre o ir e o vir das conchas.

Grandes e pequenas,

argonautas, conchas-lua/pera/aurora. Um banco de ostras.

Provisórias e passageiras, despedaçam-se. Acabrunham-se. Esparramam-se.

Se perdem e se reencontram na imensidão das águas.

Estou aqui por elas. Sedutoras,

me convidam a caminhar; me convencem a ficar.

Levo-as para casa, essas casas abandonadas.

Compomos um lar à beira mar.

 

Making Off DI em Lajeado – RS

Quando liguei pra Claudine – do SESC – oferecendo levar a exposição Diálogos do Inconsciente pra Lajeado, não imaginei que em 37 dias estaria expondo no Shopping de Lajeado. Trazer pra cá os Diálogos do Inconsciente é tipo “Se Maomé não vai à montanha então a montanha vai à Maomé.” Mesmo pronta, a exposição exige ações do porte da mesma. As telas são grandes. A quantidade também (e isso que várias telas não viajaram pra Lajeado).

Decidi não pensar nestes detalhes e viver o momento. Fiquei felicíssima.

Lajeado me viu crescer e florescer como psicóloga e mulher independente. Foi onde vivi momentos inesquecíveis e fiz incontáveis amigos. Expor em Lajeado tem a ver com um projeto e processo pessoal e como disse minha amiga Jussara “O bom filho à casa torna! E quando retorna com uma obra grandiosa, a Terra o aplaude!” Palavras inspiradoras. Que assim seja!

Passado o momento feliz, hora de cair na realidade: definir quais telas levar; como transportar; burocracia … Apesar de noites mal dormidas, momentos de ansiedade, no final, sei que tudo se ajeita e acontece.

convite DI

E assim, no dia 22/02 iniciei os preparativos para a exposição: depois de definidas quais obras levar, hora de preparar “as meninas” (como chamo carinhosamente minhas telas) para o passeio, embrulhá-las em plástico bolha, acomodá-las na camionete (Obrigada maridão pela força!!!!), viajar 600Km a 80-100Km/h, chegar em Lajeado com 37o C, descarregar, recolher outras telas na casa da mãe e de Lajeado e integrá-las à exposição. Dia 25 é dia de preparar os totens/biombos e os cavaletes e pensar na apresentação.

E aí amanhece o dia 26, o grande dia. É hora dos ajustes finais. Posicionar os totens e cavaletes. Prender as telas maiores. Organizar o espaço para projeção de vídeos e o coquetel. A exposição está preparada.

 

8 anos de BySuzete

Oito anos de BySuzete.com. Oito anos escrevendo, lendo, pesquisando, fotografando, postando. Pelo menos uma vez por semana, normalmente nas segundas-feiras, escrevo posts e os agendo para divulgação. Tem semanas com mais assunto. Aí escrevo mais. Às vezes, raramente, reservo dois, três dias na semana para escrever. É então que percebo que quanto mais leio, mais escrevo. E quanto mais escrevo, mais vontade de escrever eu tenho. É assim que funciona. E por funcionar assim, sobrevivemos: eu e o bySuzete. São quase 950 posts escritos. Mais de 100 seguidores. E uma vontade enorme de continuar escrevendo. Do blog está saindo o livro de poesia “Os elefantes voam – poesia, amor e arte” a ser publicado durante o ano. Assim espero. Porque escrever é fácil – apesar de difícil – como me disse uma vez o professor Gilson de poesia, no Museu Lasar Segal, em São Paulo. Difícil é publicar. E é mesmo.

Dias atrás assisti um vídeo intitulado “O blog morreu?” de Tiago Novaes, professor de Escrita Criativa. Entre dicas e comentários, ele cita o exemplo do escritor Andy Weir, que escreveu o livro “The Martian”(O marciano), traduzido no Brasil como Perdido em Marte. O livro virou o filme estrelado por Matt Damon. Mas antes de se tornar um filme baseado num livro, o escritor Andy postava os capítulos do seu livro aos poucos, em seu site, de forma gratuita. Ou seja, num blog. Com o sucesso, seus leitores pediram que ele liberasse todo o texto agrupado. Ele publicou o e-book na Amazon, por US$ 0,99. Sem nenhuma pretensão, o livro foi um dos mais vendidos do Kindle na categoria de ficção científica, passando de 35.000 unidades vendidas em apenas 3 meses.

Me animei. Quem sabe mais adiante eu comece a postar, capítulo por capítulo, o romance “Longe de tudo e de todos”. Quem sabe.