Morsas

A temporada está no olhar:

Morsas peludas e peladas,

brancas e rosadas espraiam-se na areia.

Olho-as com aquele olhar de quem entende:

o inverno foi frio e longo.

Vinhos, pastas e “fondues” aqueceram o corpo,

agasalharam a alma e saciaram o apetite por calor e amor.

E aí a primavera chegou, tá passando

e o verão acena sem meias verdades.

A verdade inteira é:

Dieta à vista.

A repor

Hoje era dia de reposição de duas aulas de cerâmica que perdi no último mês. Poderia participar com a turma da manhã e da tarde. Duas aulas de três perdidas. Amanhã, vou perder a quarta aula do mês. Serão dois dias inteiros pra recuperar quatro tardes de aulas perdidas. Eu bem que poderia ter ido hoje. Preferi colocar o sono, a solidão e a leitura em dia. Verdade, verdade é que eu havia programado perder todas a aulas de cerâmica do mês de outubro – pois estaria no RS – e repô-las em novembro. Ir hoje era ir contra minha programação. Além do mais, não estava com vontade alguma. É como faltar na academia. Pra manter o hábito tem que ir sempre. Mas, voltando à cerâmica. Nas próximas duas semanas preciso recuperar aulas perdidas e colocar em dia todo meu trabalho e peças. Estranho pensar, mas esta conclusão já faz parte do processo de finalização de 2018.

Além da cerâmica, outros temas e metas aguardam suas próprias conclusões.

O ano está acabando. Releio na minha agenda o que havia programado para 2018. Hoje, aquela lista irrealizada não me entristece mais. Sei que ela serve apenas como direção, o norte a seguir. A vida nos coloca frente à tantas questões imprevistas, que o previsto muitas vezes padece em segundo plano e o simples findar do ano, já me alegra. Com o passar dos anos a gente aprende que não pode tudo. A gente aprende que nem tudo depende apenas do querer da gente. As coisas acontecem ou não acontecem. E sim, a gente pode brigar, insistir, persistir. Ou pode simplesmente, aceitar que não era mais aquilo ou aquele não era mais o momento. Aprendi a desistir. Aprendi a esperar. Aprendi que tudo e todos tem seu tempo. Em parte, devo à cerâmica este aprendizado. Assim como ela, eu também tenho meu tempo e meus momentos.

Por isso, cá estou eu, terminando de ler o livro de crônicas de Miriam Leitão, “Refúgio no Sábado”. Aliás, naquela lista da agenda 2018, um dos itens era escrever no mínimo uma crônica por mês. Pelo que pesquisei no blog, atendi a contento este item. Já, o item escrever pelo menos um conto por mês, fracassou completamente. Quem sabe em 2019.

A vida segue em frente

Segue mesmo. E por mais que tentemos resgatar algo que ficou pra trás, resgatamos apenas pedaços de um todo que já não existe mais. Esse algo completo, esse todo, faz parte do passado. Compreendi enfim, que é lá que deve ficar. Qualquer resgate será sempre parcial. A completude daquilo que vivemos no passado, só é completo lá. No passado. Decidi seguir em frente e só olhar pra trás por precaução. Não quero ser atropelada por lembranças perdidas num outro tempo. Decidi viver o aqui e o agora, atenta ao que a vida apresenta. Tem coisa boa? Tem. Tem coisa ruim? Também tem. Sou eu quem escolho. Aqui e agora é meu presente. Sou eu que escolho gostar ou não gostar. Decidi que gostar ajuda a superar o passado, o presente e o futuro, e seguir em frente.

“timming”

caminhando pela orla de jurerê

eis que encontro na areia, baiacus, tartarugas e pinguins.

mortos.

o mar os expulsou, ou simplesmente,

perderam o “timming”.

a onda voltou e eles ficaram a mercê.

gaivotas, urubus, caranguejos e fragatas

lembraram-me:

a cadeia alimentar é implacável.

sigo meu caminho.

A sobrevivência não admite vacilos.

Eldorado Destruído

Éramos um jovem casal com uma filha de 4 anos. Estudantes universitários engolidos por estágios, trabalho, aulas, estudos, o serviço de uma casa, a educação de uma filha, a manutenção de um casamento cheio de sonhos, planos e projetos. E muito amor. Os tempos eram de vacas magras, muito trabalho e economia doméstica ao extremo.

Em meio a tudo isso, fui convencida a comprar uma chácara em Eldorado do Sul, próximo à Guaíba, do ladinho de Porto Alegre/RS, a meia hora de Chevette usado, em sociedade com uma tia-avó entendida em abelhas. Minha concordância tinha resquícios do sonho adolescente hippie de plantar, colher e alimentar minha filha com frutas, hortaliças e mel 100% orgânicos. Na hora de escolher o lote, o laguinho de desenho animado sinalizou onde fincaríamos nosso sonho, nosso suor e nossos finais de semana.

A primeira árvore plantada foi uma figueira, na entrada da chácara. Se tivesse sobrevivido teria hoje uns 34 anos e todo o esplendor das barbas-de-pau agasalhando uma imensa copa e longos galhos abraçando e sombreando o que seria hoje um refúgio de final de semana. Além da figueira, foram plantados mais de 30 tipos diferentes de árvores frutíferas, canteiros de hortaliças, temperos e chás e 36 caixas de abelhas. Minha responsabilidade eram os canteiros, que aos poucos, recebiam gérberas e rosas. Meu marido ficava com o trabalho pesado de cavar buracos e transportar caixas de abelhas. Nossa tia-avó recolhia tortas de cocô de vaca usadas como adubo orgânico. E nossa filha, além de esvoaçar os cabelos loiros correndo pra cima e pra baixo entre os canteiros, observava sorridente as rosinhas e gaitinhas da água do laguinho de desenho animado, expressando da forma mais alegre, nosso sonho de ter a nossa própria terra.

Até que um dia, recebemos a notícia de que nossa chácara havia sido invadida pelos “Colonos sem Terra” hoje MST.

Da noite para o dia, nosso sonho foi destruído por um trator. E tudo, absolutamente tudo, jogado no poço artesiano e enterrado com a terra que era a promessa de fartura na mesa de nossa casa. Nossa chácara foi arrasada para parecer terra improdutiva.

Chorei a tristeza do olhar do meu marido, o choro inconsolável de nossa tia-avó. Chorei minhas mãos calejadas pelo trato da terra, pela pele esturricada ao sol. Chorei pelos fins de semana acampada numa barraca, pela figueira despedaçada, pelos limoeiros, laranjeiras, bergamoteiras, bananeiras … pelos canteiros de cenouras e beterrabas … pelas abelhas perdidas voando sem casa, sem caixa, sem teto.

Chorei a maldade humana em destruir o trabalho, os sonhos e os projetos de tanta gente. As chácaras dos meus vizinhos também foram varridas pelo trator dos ditos “colonos sem terra”.

Quem ama e quer terra não a destrói.

Não arrasa o solo onde sonhos e planos são plantados.

Ao longo dos anos acompanhei outras invasões, e o descaso certo do então INCRA e de governos que fizeram da reforma agrária uma grande palhaçada nacional. Basta olhar o que aconteceu com tantas áreas produtivas tomadas à força, por puro interesse político. Sei que existem pessoas decentes que realmente precisam de terra e de ajuda governamental. Uma grande minoria. Infelizmente o projeto de Reforma Agrária perdeu seu foco, faliu e se tornou um movimento político, quase um exército vermelho, que faz mais mal do que bem ao nosso país. Favelas de lonas pretas e campos empobrecidos surgiram por toda a parte.

sem terra

São terras arrasadas, consumidas por gafanhotos humanos.

Dias atrás troquei mensagens via Facebook com a filha da nossa tia-avó, hoje com 91 anos. Disse-me que ela ainda tem esperança de reaver aquele pedaço de terra.

E porque não?

Fomos roubadas e saqueadas. Roubaram nossa terra. Destruíram nosso sonho de uma chácara em Eldorado do Sul, onde uma figueira nos receberia de braços abertos; onde colheríamos frutas do próprio pé; onde apreciaríamos o por do sol por trás daquele laguinho encantador.

Tão bom resgatar sonhos.

E, sentir que enquanto houver esperança, tudo pode acontecer …

Getúlio

Ontem, uma hora antes do debate entre os presidenciáveis na Globo e a entrevista do Bolsonaro na Record, assisti ao filme “Getúlio”, na Netflix. Política é bicho esquisito desde sempre. E quanto mais vemos e lemos, menos entendemos; mais nos assustamos, mais nos decepcionamos.

O filme, continua … muda o cenário, os protagonistas, as artimanhas, as maquinações. Mas o apetite pelo poder continua o mesmo, ou até pior. Devastador e aniquilador. O país e o povo, que se fodam. Importa a soberania sobre a riqueza deste país. Da carta testamento – recomendo a leitura do texto completo – escrita horas antes do suicídio de Getúlio Vargas, reverberam ainda suas últimas palavras: “Serenamente dou o primeiro passo no caminho da eternidade e saio da vida para entrar na história.”

Terminado o filme – que também recomendo -, assisto o final da entrevista de Bolsonaro na Record. Depois, assisto alguns minutos do debate na Globo. Desligo a televisão. Desligo meu desejo de entender.

Quem sabe um dia, a História explique. Ou justifique.

Pit Pots Prontos

Enfim, meus primeiros pit pots … prontos para receberem patês, geléias, frutas secas, clips, botões e tudo mais que couber nestes potinhos feitos com restos de argila.

Pit pot 1

Da bola de barro ao pote cerâmico.

Pit pot 1A

Ficou perfeito? Não. Quando esmaltamos é recomendado colocar uma quantidade razoável de esmalte para que o resultado fique bom. O interior do pit pot até que ficou aceitável.

Pit Pot 2A

Mas as bordas … Por esquecimento, as bordas receberam apenas uma camada de esmalte, quando o correto seriam quatro camadas. E a cor, que deveria ficar igual ao fundo do pote, ficou apagada, cor de gato molhado. Já a base, mostra a fusão de restos de argila tom tabaco misturado com tom creme.

Mas é assim que, muitas vezes, se aprende: errando. Da próxima vez que for esmaltar, ficarei mais atenta e detalhista.