O auge de Lola

ATO II

Jamais imaginei passar meu aniversário de 50 anos desse jeito. Sempre imaginei este dia rodeada de amigos, marido, filhos, familiares, a casa lotada ou um restaurante ajeitado, faixas de “Parabéns Lola”, bexigas e balões e muitas flores – imaginei orquídeas ou girassóis ou bromélias – um bolo enorme. Com 50 velinhas? Não tinha pensado neste DETALHE. Mas o bolo seria, obrigatoriamente, o de mousse de chocolate da Dona Darcy. Certamente o melhor de todos.  Cremoso e saboroso, nem doce, nem sonso, nem mole ou duro demais. Na medida. Brigadeiros e branquinhos cercando os pratos de docinhos acompanhando beijinhos e cajuzinhos. Só não queria olho de sogra. Ameixa preta e coco amarelo não descem, assim como a dita cuja. Quanto aos salgados nunca imaginei nada. Talvez um churrasco, pizzas, coxinhas ou rissoles. Qualquer coisa. Ou então, me imaginava numa viagem: Sempre sonhei estar em Paris nos meus 50, ou então em Machu Pichu, talvez Foz do Iguaçu. Mas Gramado já seria inesquecível, com seus “fondues, sopa no pão, javali com suflê de espinafre ou uma massa quatro queijos e um bom vinho. Qualquer coisa numa taça pra brindar. Vinho, champagne, licor, conhaque ou um cappuccino com torta de bombom, sentada numa alameda com aquecedor e pelego de ovelha. Imaginava apenas um dia diferente pra marcar a data e não deixá-la passar em branco. Sonhei muito com este dia e trabalhei muito pra que ele fosse especial. E agora, ISSO. Nenhuma ligação. Nenhum aperto de mão. Nenhum brigadeiro, nem mesmo UM olho de sogra. Onde estarão todos? Nunca esqueci de nenhum aniversário ou outras datas festivas, mesmo sendo um pouco enrolada e confusa e não saber exatamente o que quero e gosto. Será que estão querendo fazer uma festa surpresa? Mas, que estranho. Está tão claro aqui. Que barulho irritante é esse bip-bip-bip? Onde é que estou exatamente? E como fui parar aqui? Onde está todo mundo? Da última vez que me lembro eu saí pra comprar refrigerantes. Era só o que faltava pra festa.  Lembro de sair de casa pra pegar as Coca-colas, do sinal vermelho que ficou amarelo que ficou verde, de descer do meio fio, tropeçar, cair, um estouro na cabeça, um molhado quente e viscoso, gente gritando à minha volta, uma sirene se aproximando, e depois, pura escuridão. Meu Deus!!! Será que eu morri nos meus 50?

Projeto 5.0

Poderia ser 10.0, Nota mil, Iso 900000000. Tanto faz o número associado. O importante é a ideia. Anos atrás, trabalhando em uma escola, entrei para o universo dos projetos. Havia projetos específicos para pais, alunos, professores. Escola de Pais, Curtindo a Adolescência, Até Logo, Acompanhamento ao professor. Eram trabalhos especificados com tarjas, objetivos, cronogramas, atividades propostas e tudo que se lê em qualquer projeto escrito só que colocado em prática diariamente e avaliado semanalmente e semestralmente. Adorei meus projetos e meu trabalho, mas acima de tudo, amei a metodologia usada para terminar o ano letivo com objetivos alcançados.
Costumo iniciar o ano com metas a serem atingidas nos próximos 365 dias. Divido até por categorias: familiar, conjugal, pessoal, saúde, profissional, acadêmico, lazer. Subdivido as categorias por atividades propostas: perder peso, viajar para determinados países, fazer check up, cursos, finalizar trabalhos manuais, ir mais ao cinema, mudar de visual, trocar as cortinas, etcetcetcetc. Ano após ano, fico feliz com meus avanços e sucessos e desapontada com meus fracassos. Onde eu mais costumo trancar é na parte do “emagrecer X quilos, atividades físicas regulares e alimentação mais saudável”. Vira e mexe, como mais doces do que deveria e caminho muito menos do que precisaria. A conta é fácil de fazer. Continuo fofinha, muitas roupas que adoro não passam dos joelhos, a balança continua hedionda e cruel, e eu me sentindo A Fracassada.
Assim surgiu a ideia do Projeto 5.0. Às vésperas de fazer 50 anos, decidi entrar na metade do meu século de vida com tudo em cima. Depois do check up total, procurei um endócrino e uma academia. Gastei uma pequena fortuna em medicamentos e academia. Agendei consulta com cirurgião plástico e reservei um mês para intervenções e recuperações. Acho que agora não tenho mais volta.
Mas acima de tudo, escolhi que precisava mudar e me adequar a minha nova vida. Escolhi cuidar do meu corpo como cuido da minha mente, cultura, casamento, família, filhos e projetos profissionais/ acadêmicos e de lazer. Decidi que ficar bonita e atraente é um projeto que vale à pena. Cansei do eterno discurso fracassado e engraçadinho do “de novo”, “de novo”, “de novo”. É hora de mudar de discurso e de resultados.
Assim sendo, hoje foi meu primeiro dia de academia. Em plena segunda-feira chuvosa. Nove horas da manhã. Uma hora de esteira e bicicleta + uma hora de exercícios localizados com peso. Se esperasse mais uma hora, faria a aula de hidroginástica. Se fizesse isso, possivelmente amanhã eu não sairia da cama. Amanhã a proposta é esteira e bicicleta + yoga + hidroginástica. Se conseguir sair da cama.