Presépio andante

presépio 1Tenho uma amiga que, diariamente, vai aproximando reis, pastores e animais da manjedoura onde está o menino Jesus Cristo, Maria e José. Segundo ela, uma tradição familiar de origem alemã. Aqui em casa, quem faz esta aproximação é minha ajudante Viviane. Ela desvirtua todos do caminho: alguns nem chegaram e já estão voltando, outros dão as costas ao menino … a cada dois dias, o cenário muda. Sempre analiso a cena que ela cria. Tudo isso pq ela tira o pó do antigo presépio da minha mãe. Por enquanto, estou deixando por conta dela, mesmo rearrumando os personagens mais tarde. Até o dia 25 todos estarão onde devem estar. Inclusive o rebanho de ovelhas e camelo, que passaram o advento inteiro, assistindo o teatro natalino de longe.

Fotos que contam filmes

Janeiro acabou de terminar, fevereiro mergulha com Iemanjá em pleno dia dois, eu ainda estou às voltas com a faxina de final de ano (o que passou), a lista de metas e providências para 2018 continua se debatendo perdida entre desejos e necessidades, meu tarô embaralhado e posto, com o Diabo apontando como a carta Essência do ano, aguardando interpretação, a agenda com apenas os dados de identificação assinalados … O ano mal começou e já me sinto atropelada. Cantando pneus e levantando a poeira, me convenci de que é verão, o calor baixa minha pressão arterial (e minha energia), 2017 me exauriu com muitas viagens, compromissos, preocupações, decisões e sustos. 2018 que sossegue um pouco. Tudo tem seu tempo e seu jeito. Também eu. Decidi fazer de fevereiro o mês de descanso, férias e organização. Por algum motivo – entre o consciente e o inconsciente – pedi que Carla colocasse todos os álbuns de fotos de toda a vida sobre a enorme mesa da churrasqueira.

img-1193.jpgFui pegando um a um, e aos poucos, observei o amarelado das páginas, o mofo esbranquiçado em capas e contracapas de álbuns de scrap, fotos arrancadas e misturadas, caixas com postais, pequenos e antigos mini-álbuns gratuitos de papelão, uma infinidade de fotos fora de foco, imprecisas e descoloridas, com uma nitidez sofrível de momentos, lugares e pessoas, algumas ainda presentes, outras distantes e agora desconhecidas, perdidas pela vida ou sugadas pela morte.

IMG-1198Rever fotos é rever a própria vida. O tempo que as consome, também nos consome. A vida que se vê nas fotos se desenrola como num filme. A dimensão do tempo que passou redimensiona a própria vida vivida e sentida. De repente, percebo que nunca fui tão gorda como sempre me lembro de ter sido, que meus filhos sempre foram lindos e queridos demais (apesar das incomodações e preocupações), alguns lugares nem eram tão bonitos, algumas pessoas tiveram vidas incompatíveis com aqueles olhares, poses e histórias que sabíamos até então. Muitos morreram, outros tantos sumiram do mapa. Eram amigos de outros tempos. Assim como muitos sonhos e projetos que se perderam pelos mais diversos motivos. A família cresceu. O jeito de viver mudou. Todos mudamos e nos transformamos. A vida apenas seguiu seu rumo e se perdeu em algumas encruzilhadas. Hoje, consigo ver por onde andei, onde me perdi, a que ponto cheguei. Também sei que nem tudo que acontece – ou deixa de acontecer – depende do meu querer ou fazer. Tem coisas que simplesmente acontecem. Simples assim.

img-1196.jpgAos poucos, separo álbuns que precisam de consertos, algum tipo de limpeza ou acréscimo de fotos e informações.

img-1197.jpgMe encanto com antigos álbuns de scrap produzidos com capricho e amor. Preciso voltar a fazê-los e contar a vida através de fotos. Daqui a 10, 15, 20 anos, sei que vou adorar ver pra onde e como a vida me levou.

IMG-1195Por isso, mãos à obra.

Loucas e bisbilhoteiras

Casas são tagarelas

– já falei sobre isso –

Assim como coisas são bisbilhoteiras.

Elas nem sempre se contentam em ficar onde as colocamos.

Às vezes – raramente – elas concordam.

Insistem em conhecer a casa

  • – de ponta à ponta, de cima a baixo, de canto a canto –

bibelôs, quadros, abajures, porta-retratos, cadeiras, sofás, poltronas, tapetes, plantas, velas, almofadas, bandejas, vasos, esculturas,

excursionam pela casa, bisbilhotam espaços, escolhem e sacramentam:

aqui é o meu lugar.

E a gente, que carrega a casa

  • de ponta à ponta, de cima a baixo, de canto a canto –

É chamada de louca-inconstante- não tem o que fazer-nem sabe o que quer.

Mal desconfiam estes, do poder da bisbilhotice da matéria.

Quando a excursão termina e a bisbilhotice é saciada,

Vivemos todos, felizes para sempre, por algum tempo.

Sabe como é:

De tempos em tempos a matéria quer se certificar dos espaços.

Talvez tenha chegado a hora de trocar de vista.

E assim, mantemos a fama de loucas e bisbilhoteiras.