Novembro

Quando novembro chegou

chegou também o cansaço.

Ele se entranhou na carne, nos ossos, nas vísceras.

Dominou meus pensamentos, minha alma. Meu coração.

O sono era digno de um recém nascido, de um adolescente afogado em hormônios,

de qualquer ser vivente que extrapolou e exagerou na dose de viver.

Normal. É assim que sou: Sem medidas.

Desabei pelos sofás e camas, cadeiras e redes,

absorvi a brisa do mar,

me entreguei ao edredon de penas de ganso, bebendo chá, leite quente, vinho tinto.

Descansei lendo e escrevendo bocadinhos. Tudo de pouquinho.

Estava no pó. Num fiapo de vida. Exaurida.

Guardei os crochês e tricôs.

A poeira amontoou. A casa ficou fora de lugar.

Abandonei a domesticidade.

Me resguardei.

Enfim, me recompus. Que assim seja.

É mais um ano finda.

 

Bipolaridade ocupacional

Ando cansada, muuuuito cansada, terrivelmente cansada.

Cansada mesmo.

Decidi tirar uma semaninha de férias, do tipo, não fazer absolutamente nada. Nadismo puro. Nem me preocupar com mãe, marido, filhos, casa, trabalho. Nada. Nadica de nada. Só comer, dormir, assistir televisão, ler, escrever. E tudo, sem compromisso, sem prazo, sem um quê de preocupação.

Não me considero bipolar quanto a meu humor.

No máximo, uma ciclotímica ajustada, convivendo com hormônios cambaleantes.

Mas quanto a meu fazer, percebo sim, doses cavalares de bipolaridade. Períodos ansiosamente preenchidos de afazeres, noites em claro com trabalhos, hobbies e leituras, listas intermináveis de providências e lembretes. São compras demais a fazer, armários e gavetas por arrumar ou restaurar, jardim por melhorar, casa pra organizar, decoração pra trocar, receitas novas pra testar, scraps pra terminar, velas e textos pra finalizar, blog pra atualizar, livros, mensagens e e-mails pra ler e responder, ligações e visitas por fazer. Uma verdadeira overdose de vida, uma orgia ocupacional que me engole e me absorve até o limite do bom senso.

É quando os dias e semanas ficam pequenos e curtos pra tanta determinação e ocupação.

O tempo se encurta e perde-se em si mesmo. As semanas parecem anos.

Os dias, semanas.

De repente, percebo meus exageros. Termino tudo que comecei (pouca coisa é descansada num canto qualquer), mesmo que me arraste. Sinto o cansaço subindo pelas pernas, adentrando braços, possuindo cérebro e espírito. Meu todo. Sugada até a essência, é hora de parar. Literalmente, parar. A fase maníaca, enfim, cede lugar à fase depressiva.

Da ação desenfreada, à freada brutal.

Não fico deprimida. Meu corpo, sim. Ele dói, quer cama e repouso. Minha cabeça pede trégua pra descansar, minha criatividade pede água. Meu todo impõe uma parada geral. Respeito isso, entendo e atendo. Fico em OFF o tempo que for.

Me restabeleço.

Uma nova fase maníaca despontará. Sei disso.

Provavelmente eu deveria me organizar, organizar minha agenda e distribuir de forma harmônica meus compromissos e loucuradas. Não consigo fazer acontecer desse jeito.

Já tentei.

É como pedir a alguém acostumado a correr maratonas, que deixe de correr e se contente com serenas caminhadas. Não dá. Perde-se o foco.

Por isso, estou aqui, de pernas pro ar, olhando o horizonte, perdendo-me de mim mesma. Descansando.

Sendo apenas, eu mesma.

descansando