Pra fazer constar

Só pra fazer constar.

E jamais esquecer.

Quer avaliar a resistência do seu casamento? Construa uma casa.

Quer avaliar sua capacidade emocional? Construa uma casa.

Nestes 22 meses de obra (+ 10 meses de projeto) meu elástico emocional chegou no ponto de lacear e ter quase um colapso nervoso:

Passei pelo animada – apreensiva – assustada – insegura – amedrontada – irritada – nervosa – indignada – estressada – rabugenta – psicótica – depressiva – cansada – exausta – exaurida – conformada – desolada – esgotada – vazia.

Passei pelo engordar, falar e dormir demais e de menos, pela hiper e hipoatividade intelectual e criativa, pelo cansaço físico e mental generalizado …

Pensei em me mudar ou vender a casa, passar um ano sozinha viajando ao redor do planeta de mochila nas costas, me separar, calar pra sempre, fugir, desistir de tudo.

Só pra fazer constar: sobrevivemos todos. Em frangalhos ainda, mas vivos e unidos.

A casa. O casamento. E, eu.

Casa nova

Vulnerável e exposta. Quase transparente. É assim que me sinto nesta casa de vidro sem verdes, sem cortinas, sem muros. O mundo espia a vida dentro de paredes econômicas, corajosas e verdadeiras, onde a privacidade é o maior luxo. Casa nova tem este sentimento de não pertencimento, de exposição e falta de limites. Durante meses – ou anos, às vezes – o entra e sai do pessoal da obra, visitantes e curiosos retira o senso de propriedade e intimidade familiar. A casa parece ser de todos. O infame acabamento trucida a paciência e a perseverança, e o pós-obra coloca a última pá. O entra e sai e o eterno revezamento profissional acabam com o pouco que resta do privado. Quem sobrevive a esta maratona torna-se o feliz proprietário de uma casa zerada. Ando exausta de tudo isso. Queria paredes e azulejos, pias e armários velhos para restaurar. O novo exige escolha e compra de absolutamente tudo. O novo cansa: quando comparo a casa nova com a antiga penso num sapato de salto alto e bico fino com uma pantufa fofa e confortável. A pantufa anda fazendo muita falta.

Gestora

Cá estou eu, no meio da casa inacabada com minha mudança embalada. Já mudei muitas vezes, nas mais diversas situações, mas desta forma, foi a primeira vez, e quero acreditar, a primeira neste estado e a peúltima de todas. A última vem do RS jájá.

DSC08465Para meu marido engenheiro da obra, mudar neste momento, tem a ver com uma questão de orgulho e honra, já que ele garantiu à equipe de construtores que mudaria na primeira semana de outubro/2014. Pra mim, pura teimosia e birra de marido mimado. Independente do motivo, a realidade é que começo a conviver, em tempo integral, com pintores, pedreiros, marceneiros, instaladores de mármore, ar condicionado, gesseiros. Serão poucos dias, duas semanas, se tudo correr como o esperado. Como já convivi com uma reforma em outra casa durante 5 meses, resolvi que não adianta me estressar, pois a sujeira será diária e o prazo pode extrapolar. O jeito é fazer do limão uma limonada. Como disse a meu marido, a mudança precipitada, lhe custaria caro: pelo preço do aluguel economizado, incrementei a cozinha antecipando a compra dos fornos embutidos. Assim, ambos ficamos satisfeitos e a estabilidade conjugal, equacionada.

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Iniciamos a construção de nossa casa em 21.10.2013. Como esquecer aquela manhã ensolarada: vestida para malhar, com bota camuflada de borracha e viseira , cheguei ao terreno e me deparei com a Kombi branca do seu Luís, o construtor. Nos apresentamos e conheci o Nei (que ficou conosco até o final da obra) e o Nazareno (que ficou apenas os primeiros meses). Por onde a gente começa? perguntei animada e ansiosa. Precisamos comprar o material para o barraco, respondeu um Luís – mais assustado que eu – é, eu não fazia a menor ideia do que seria gerenciar a construção de uma casa. Quando concordei em ser a gestora da obra, não imaginava que seria eu a pesquisar, orçar e comprar tudo que uma casa precisa pra sair do chão, se erguer, e chegar ao telhado. Do concreto às cortinas de crepe, do rebaixamento do lençol freático à iluminação, da escavação ao closet tipo loja, estive sempre presente e ativa. Foram quase doze meses – antecedidos por 8 meses de análise do projeto arquitetônico – totalizando 20 meses de envolvimento com a construção. Foram meses de sentimentos bipolares, ansiedade e preocupação. Além dos problemas e dificuldades próprias de qualquer construção (contratação de serviços e profissionais, questões técnicas de engenharia e arquitetura, felizmente sempre resolvidas por meu marido) a escolha de materiais é um capítulo à parte. A infinidade de possibilidades é impressionante. Ótimo, não? Nem sempre. Escolher é um trabalho de luto diário. Por mais que a arquiteta tivesse dado uma orientação de estilo, na hora de fazer acontecer, resolvemos imprimir nossa personalidade em cada detalhe da casa. Da pedra palito ferrugem à miracema branca passando pela pedra palito são tomé. Do piso York, Sahara ao mármore travertino. Das esquadrias em PVC, madeira, alumínio, ACM. Louças e metais em contraste com as bancadas de mármore, granito e silestone. Escuros ou claros, pretos, marrons. Brancos. Coloridos. Textura ou liso. Sem contar o preço! Felizmente, os reais ajudam muito na hora de escolher: para os itens amor à primeira vista, um mero detalhe. Para os itens duvidosos, uma definição.

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Arrependimentos? Alguns.

Haverá tempo para refazer.

Agora é hora de finalizar e viver a casa nova.