Como eu amo este lugar

Amo a tranquilidade deste lugar,

dos gorjeios dos pássaros, de todos os tipos, 

que circundam e invadem a casa por todos os cantos;

dos gatos, senhores de si, donos desta casa sem dono presente.

São eles que fazem a ronda e descansam debaixo das cicas, das fênix, 

em meio e rodeados da mandala de sol.

As orquídeas, as bananas e as jabuticabas, e agora as pokan,

crescem a Deus dará. Enchem de vida este lugar.

Aos poucos a casa fica com jeito de casa:

Vou arrebanhando móveis antigos e desgastados

Envolvo-os de sonhos de um amanhã cheio de vida e alegria.

O silêncio e a solidão são amigas sempre bem-vindas,

sempre presentes. Dispensamos o lado de fora da cerca.

O dentro se basta e se completa.

Com elas – a solidão e o silêncio – me preencho,

 e sei, elas vivem sossegadamente nesta casa.

Também sei o quanto elas amam a chegada destes abandonos e farrapos.

Somos todas a alma desta casa.

Estropiadas, sucateadas, esquecidas.

Todas, ganhamos vida neste lugar.

É por isso que sempre volto.

Até chegar o dia de cravar raízes,

feito os kaizucas que ladeiam a casa,

ou os plátanos que a margeiam.

Momento de contemplação

Bom chegar em casa. E casa, para quem ainda não me conhece, é minha casa antiga, encalacrada no interior do RS. 

Depois de 40 dias em Floripa, retornei ontem. Uma passada rápida de 3 horas na casa de minha mãe e depois, o mergulho no meu xangrilá gaúcho. Quem me aguardava era um gato laranja garfinkeliano, postado feito esfinge sobre o portal de entrada da garagem. Não poderia haver melhor recepção. A casa que me acolhe há mais de 25 anos me inunda de paz, boas vibrações e muita energia. Nela encontro minha alma e quem verdadeiramente sou. Meu Santo Graal. É por isso que sempre retorno. Os próximos 7 dias serão de idas e vindas à casa de minha mãe, compras de Natal (reduzidas por conta da COVID19) e de nutrição uterina. Saio renascida daqui para qualquer canto, desencanto ou desafio. 

Há meses que escrevo pouco, mesmo surgindo temas e insights incríveis. Outros compromissos e interesses roubam minha atenção, os assuntos voam com o vento e se perdem nos dias atribulados e desassossegados. Até minhas leituras pontuais se perderam no decorrer do ano. O sono, as preocupações e a desatenção cobraram seu preço. A sutileza literária deixou suas marcas na lista dos livros lidos em 2020. Meu consolo é que li verdadeiros tijolões, livros recomendados da Oficina Literária e muita alta literatura. Pouca poesia, poucos best sellers e nenhum livro de beira da piscina. Minha erudição literária foi uma seriedade só. Tenho de melhorar isso. Pra 2021 tenho algumas ideias de leitura sérias – Proust, Virginia Woolf e Freud – e muito livro leve e muita poesia e muita receita de comida e muito assunto divertido e enxabido.

O ano, de fato, foi de organização, faxina e arrumação. Interna e externa. Exterior e interior. Iniciei pelo ap de Felipe em SP, em janeiro. Veio a exposição dos  “Diálogos do Inconsciente” no CIC, em Florianópolis, também em janeiro. Depois, veio a crise e a COVID19. Em março me mudei de mala e cuia pra fazer um período sabático no RS. Além da psicoterapia individual, usei o trabalho e a criatividade como terapias alternativas.

Tem épocas na vida, em que a gente precisa de um tempo pra reavaliar a jornada, definir ou confirmar os rumos da vida, pra depois seguir em frente, retroceder ou mudar de direção. Fazer arrumações, reciclagem e arte são uma excelente ferramenta para superar crises, deixar a poeira baixar e recomeçar … A vida precisa destas paradas e avaliações. Por isso, me embrenhei na casa de Lajeado, na casa de minha mãe em Colinas, no jardim da casa dela. E agora, pra finalizar, a casa de Floripa. 

Tenho de admitir que estou exausta de combater cupins, mofos e móveis ressecados e descoloridos; restaurar e sucatear móveis, lavar lustres, tapetes, cortinas, colchas e almofadas; selecionar louças, panelas e todo arsenal doméstico embutidos numa casa. Meus artelhos e unhas não suportam mais a química que desentoca a sujeira impregnada; minhas pernas andam bambas e desanimadas dos “steps” forçados pelo sobe-desce de escadas e escadarias. Cheguei à conclusão que para uma boa dona de casa sou uma excelente psicóloga. Desencavo até parafuso, ferrugem ou ponto de mofo. A ideia, tanto na psicologia como na arrumação das casas é livrar-se de tudo que não mais agrega nem faz bem. 

Recentemente baixei toda minha biblioteca e revisei um por um, cada livro, em busca de poeira, traças e mofos – aproveitei e reli lombadas e contra-capas, e céus, se somar todos os livros não lidos que redescobri nas prateleiras, posso ficar sem comprar pelos próximos 10 anos. Aproveitei também e fiz uma contagem parcial, depois de ler que Susan Sontag vendeu sua biblioteca de 20 000 livros por 1 milhão de dólares. Faltando alguns nichos e prateleiras, cheguei a 780 livros. Devo me aproximar dos 1 000 livros. Pelos meus cálculos, sou a feliz proprietária de 50 mil dólares em livros. Óbvio que em terras tupiniquins, ninguém pagaria uma soma exorbitante destas. Pouco importa. Meus livros são companheiros, amigos para todas as horas. E estes, definitivamente não tem preço.

Lá fora agora, ouço o barulho irritante do cortador de grama e do podador das unhas de gato que recobrem os muros da casa. Coincidiu também da PML fazer a limpeza das ruas para o Natal. O barulho é infernal. Mal ouço o CD de Rimsky – Korsakov que toca no aparelho de som. Quem me acalma são os incensos de Alecrim que me cercam. E sei, reconheço e quero que o jardim tenha seus cuidados: gramas desinçadas e aparadas, galhos podados, plantas tratadas. O verão com o sol escaldante, temperaturas exorbitantes e chuvas torrenciais (assim espero) acenam para os próximos dois meses. 

Enquanto isso, olho à minha volta. 

Muito ainda por fazer e providenciar. Devo ter comentado, senão, comento agora: Tenho trazido para meu Xangrilá móveis e utensílios antigos, gastos e estropiados. A ideia é comprar o mínimo de coisas novas e reciclar, reavivar a história de toda a vida que faz parte deste lugar. Tem coisas para sucatear. O tampo de mosaico aguarda finalização. Algumas telas precisam vir para cá. Aqui é o lugar delas. Também aqui é o meu lugar. Como também é o lugar de muitas novas histórias que estão por vir.

 

 

 

Relance

Já falei sobre a conversa das casas e

a curiosidade da matéria.

Das coisas que vem e vão.

Das coisas escondidas e camufladas.

Lembram do quanto e quando

foram desejadas. Suspiradas. Amadas.

Hoje, contentam-se com a surpresa do olhar fortuito,

a lembrança do relance .

Muitas se aconchegam em fundos de baús e armários,

em fundos de bolsos, bolsas e gavetas,

acompanhadas de míseros centavos, clips enferrujados, botões caídos, chaves perdidas;

Transitam entre móveis  e roupas

amareladas pelo tempo, encolhidas pela vida;

Misturam-se  com bibelôs lascados e louças rachadas, fotos, músicas e livros.

O museu da vida da gente.

Também eu, não sou mais quem eu era.

Casa ou lar?

 Para Clarice

Os homens constroem casas

As mulheres, lares.

Quase sempre.

Mas, nem sempre.

Tem homem que não constroi casa,

constroi lar.

Tem mulher que não constrói lar,

Constroi casa.

Tem quem construa os dois.

Ou

nenhum deles:

Nem casa, nem lar.

É ruim.

Mas, pior,

pior ainda,

são aqueles que destroem,

aniquilam:

Tanto a casa,quanto o lar.

Tanto faz

quem desfaz.

Encontrei um amor onde eu menos esperava!

Poderia escrever sobre o grande amor da minha vida, meu companheiro de 29 anos, sobre meus dois amados e maravilhosos filhos, meus pais, amigos, ou algum animal de estimação. Com certeza, teria muito o que falar sobre qualquer um deles. Mas quando pensei sobre qual amor escrever, lembrei-me imediatamente de minha casa. Um verdadeiro e grande amor em minha vida, que se mostrou intenso e verdadeiro quando cogitava me desfazer dela. Parece tão material, tão impessoal, que soa estranho falar que uma casa possa ocupar um espaço tão importante na vida de alguém. Mas, nossa casa merece esta homenagem, merece esta declaração de amor. Quando decidimos construir esta casa, a quem chamamos carinhosamente de “Xangrilá”, procuramos um arquiteto amigo que nos sugeriu fazer um desenho de como gostaríamos que ela fosse. Não sei se esta é uma sugestão comum entre arquitetos e clientes, ou se, pelo fato de meu marido ser engenheiro, ele pensou que poderíamos “adiantar o serviço” e esboçar nossa ideia no papel. De qualquer forma, ele também traria uma ideia a partir do que havíamos conversado. No dia de nossa reunião levamos nosso pré-projeto e ficamos impressionados com a semelhança do projeto trazido por nosso arquiteto. Tirando alguns detalhes arquitetônicos mais arrojados, os dois desenhos eram iguais. Assim, não restavam dúvidas de como seria nossa casa. Ela havia se manifestado. O período de gestação de nossa casa foi de 3 anos. Um para a finalização do projeto e 2 para a construção. Nossa casa foi pensada e trabalhada à distância. Foram 3 anos de dedicação e economia total. Todos os nossos recursos e energias foram canalizados para ela. Quando ficou pronta, ou, parcialmente pronta, decidimos que era hora de nos mudar. E em pleno mês quente de dezembro de 1994, trouxemos nossa surrada, antiquada e pequena mudança para o nosso verdadeiro e novo lar. Voltamos para nossa terra natal, o Rio Grande do Sul. Foi um choque muito grande. Nossos móveis eram pequenos demais. Eram adequados para as mudanças frequentes (exigência da profissão nômade de meu marido, engenheiro de uma grande construtora) e gritavam com a imponência e modernidade de nossa casa. Muitas coisas pensadas no projeto como sendo maravilhosas se mostraram um desastre na prática, e eu, pensava comigo mesma, havíamos concebido um elefante branco cheio de defeitos e inadequada para nossas necessidades. Durante muito tempo pensei em vendê-la. Mas era o único lugar para onde poderíamos voltar, e eu acabei, aceitando-a. Nossa casa é ampla e espaçosa. Com poucas paredes divisórias, toda envidraçada, com pé direito altíssimo, e um enorme jardim de inverno central, que traz a natureza exuberante para dentro dela. Os primeiros dias e noites dentro de nossa casa foram um desafio aos meus sentidos. Até hoje ela é extremamente comunicativa. São estalos e barulhos, que com o tempo, identifiquei como os ruídos próprios de uma casa com uma estrutura metálica e de vidro muito grande, que trabalha conforme o clima. A sensação de pequenês dentro dela, a falta de paredes que dêem contornos aos ambientes, os janelões de vidro que trazem para dentro de casa o mundo lá de fora despertam sensações emocionais e fisiológicas muito intensas, que se acomodaram e se incorporaram de tal forma, que hoje, lugares pequenos, cheios de paredes e teto rebaixado me sufocam. Durante 12 anos vivi intensamente nosso Xangrilá. Continuar lendo “Encontrei um amor onde eu menos esperava!”