Estremeço

Venta lá fora

As portas tremem, balançam as palmeiras.

O uivo lareira abaixo é fantasmagórico.

Vento odioso e tenebroso, estremeço.

O corpo se contrai, pressente o perigo.

Imprevisível e rabugento, ele arrasta tudo,

sem dó nem piedade. Me afundo na cama.

O frio vem misturado nele. A noite gela.

Antes dele, dormi com a noite de trovoadas e raios.

Amo os dois:

O ronronar das nuvens que se chocam,

a claridade que explode.

A infância me inunda misturada de chuva.

Um misto de fascínio e exultação é o que sinto.

Uma força maior rege a todos:

O vento, raios e trovões, a chuva e, eu.

Será que São Pedro está fazendo faxina lá no Céu?

viagem

de Araranguá à Floripa a chuva foi companheira.

Seguiu lado a lado conosco. nem à frente, nem atrás. do lado.

sorte a dela não ter dado de frente

com o enorme engarrafamento de sempre em Palhoça.

foi lá que ela se aligeirou e chegou antes de nós.

a bolsa de pano da Giovana Baby chegou encharcada.

as telas umedeceram. um pouco. quase nada. emudeci.

amendoins e cucas foram pro forno, presentes conferidos,

e eu, eu me recolhi. fui pra cama.

imaginei que os diálogos do inconsciente estavam destruídos.

sobrevivemos todos.

No calor do verão

Acordei com a chuva batendo na porta arrastando móveis e deixando cair as pratarias.

Alguns cristais se quebraram nesta visita matinal tão bem vinda.

É cedo ainda.

Fui recebê-la com café e wafel congelado. Tostado e amanteigado.

Que falta me fazem as manhãs geladas, cinzas e cheias de raios e trovões.

Voltei pra cama, com o café fumegante nas mãos, aquecida de saudades,

embrulhada de sobre-lençóis, abraçada em Mário Quintana.

Ligo o ar condicionado.

É verão ainda.

Pelo menos, chove lá fora.

Chove lá fora

Chove lá fora.

Também eu ando chovendo aos cântaros.

É tanta água à minha volta, que pressinto

o dilúvio se avizinhando.

Sinto na pele. No osso. Na raiz dos cabelos.

O branco. O nada. O vazio absoluto.

O silêncio vago que vaga …

entre pingos e respingos.

Escorro nebulosa,

entre raios e trovões.

Lavo o corpo, os cabelos tingidos de vermelho.

A alma sangra. Sabe que precisa sarar.

Mas o tempo … conspira.

Precisa de mais tempo.

 

Oh céus!

E essa chuva que não para.

Manhã de caminhada

Bom amanhecer com o pé na areia e o olho no mar.

O mar manso, espelho para nuvens, chuva e sol.

Algumas ondas e conchas, miúdas.

Quero-queros, pombos, gaivotas. Alguns.

Andarilhos, caminhantes, atletas. Poucos.

O dia recém mostra sua cara que começa a acontecer:

no mar, o retrato do céu de outono começa a invernar,

tatuíras mergulham de ponta-cabeça na areia molhada,

a chuva se aproxima, as nuvens escurecem, o sol se esconde. Os pássaros voam.

Apresso o passo.

A chuva cai.

Volto pra casa.

Lá, o sol, encabulado, me aguarda.

Amanhecer 2

Chove

chove lá fora!

a grama cresce. eu escuto.

os pingos caem. eu sinto.

 folhas se amassam no vento que canta.

cães latem, gatos miam.

as nuvens escuras da noite se chocam.

estrondam

como carros que deslizam nas pedras da noite,

molhadas e lavadas

– na prata da luz –

brilhosa e lustrosa.

rebrilham sussurros perdidos

e,

sons esquecidos.

chove na noite que cai.

no sono que vai.

Nina pula na minha cama.