Mais uma vez

No aeroporto de novo. De novo a vontade de escrever. Talvez seja esta possibilidade em milhagens para mudar de ares, de sumir, de se inteirar inteiramente. Não importa. Estou naquelas fases em que o óbvio ululante não passa de um acaso qualquer. Quem diria, hoje dois de abril, quase 4 meses depois da minha cirurgia, e eu de novo, indo fazer reparos com meu plástico. Quem diria, eu que me criei sem mertiolate e água oxigenada – apesar dos arranhões, cortes, machucados e corpo ralado – estar às voltas com pontos que não cicatrizam, quando a vida toda, apenas a água dava conta de ferimentos e cicatrizes, num processo invisível e indolor. Entretanto, neste momento, também eu, estou às voltas com as consequências do bisturi. De tudo que foi feito felizmente uns 70% estão maravilhosamente bem. Mas a cicatriz dos peitos, um tormento. A prótese é minha e já está tão introjetada e incrustada que deixou de ser uma prótese. É meu peito natural. Tamanha a perfeição. Mas. Os pontos. Desconfio que meu corpo está dando um basta e quer ficar quieto. Desconfio que ele simplesmente faz exatamente o contrário do que meu plástico diz. “Suzete, não precisa te preocupar. É só um ponto rompido. Nenhum outro vai abrir.” Pois os pontos caem como os pontos de um tricô. Todos. “Isso não vai doer”. E eu vejo estrelas. “Podes fazer de tudo, só não carregar peso nem erguer os braços.” Desconfio que nunca mais vou levantar dois quilos. Depois da cirurgia, fiz meu primeiro retoque, 45 dias depois. 50% de sucesso. Um peito OK. O outro abriu de novo. Um mísero ponto rompido e lá se foram todos os pontos. Como num tricô.  Feito o segundo retoque, acho que a novela se repetiu. Digo acho, pois ainda não vi o tamanho do estrago. Minha sutura está devidamente entrincheirada num mini-gesso. Dele percebo apenas os pontos escuros em evidência e uma secreção sanguinolenta que, de tempos em tempos, vaza pelas bordas da muralha. Sob a trincheira, um absorvente. É ele quem recebe os fluidos que meu corpo insiste em produzir. “Suzete, quanto mais tempo conseguirmos deixar o gesso, maiores as chances de uma cicatriz mais firme.” Assim, hoje fazem 9 dias que convivo com a agonia de um gesso multicolorido  e uma incômoda umidade na base dos seios. Nestas horas, quando não se pode ver o que se forma por trás, a cabeça começa a funcionar no modo esquisito. Um calafrio: será que estou com febre? Está infeccionando? Uma pontada ou agulhada: será mais um ponto rompido? Olhando o Rorschach do gesso no espelho: será que meu seio rasgou inteiro? Coceira: será que está cicatrizando e sarando? E então o grito interior. O que vai acontecer? Será que meu seio vai voltar ao normal?  Como será que ele vai ficar? Por mais estranho que pareça, estou calma. Talvez seja a Fluoxetina e o Lexotan diários que fiz questão de adotar pra não surtar. Quem sabe o conformismo e a sujeição dos exaustos. Quem sabe meu otimismo inabalável me assegurando que tudo vai passar e ficar bem. Ou minha intuição me dizendo apenas que era assim que deveria ter sido. Neste momento, já embarcada, prefiro não pensar na consulta e na tortura desta tarde. Prefiro me ver na minha cama quentinha lendo um bom livro, ouvindo Enya e o silêncio da noite fresca da minha casa do sul. Os cheiros e a energia do meu pequeno xangrilá envolvendo cada célula, pensamento e sensação. O conforto das raízes. A certeza do bem estar. E eu inteira.

Dor e Prazer

Não sou sádica, nem masoquista!!!! Pelo menos, nada exagerado e doentio. Que eu saiba apenas o normal. Afinal, infligir-se e afligir dor pode ter um lado prazeroso. Ontem, comentei que meu maior prazer tem sido não sentir dor. Depois de 33 dias da minha cirurgia – dos quais elejo os primeiros quinze como os melhores – deparo-me diariamente com algo novo doendo ou se manifestando em meu corpo. Depois dos pontos rompidos, nada de preocupante. Apenas o corpo se readaptando, cicatrizando  e se acomodando. O que não significa não ter dor. Talvez o termo mais adequado seja desconforto doído. Neste período, mesmo que meu médico tenha me liberado pra fazer de tudo, percebo que não posso tudo, e algumas vezes, por ainda não conhecer o tudo que meu corpo pode, acabo extrapolando. Aos poucos estou retomando minhas caminhadas, e quando caminho mais tempo numa velocidade pouco mais elevada, meu corpo me repreende. Prende músculos e me dá uma sensação estranha de estar amarrada num corpo novo que ainda não se permite grandes movimentos ou explorações. O último email que enviei a meu médico inicia assim: “Um mês se foi. Que bom que não pedi muitos detalhes, senão acho que não teria me aventurado a fazer tudo o que fiz. Mas fiz e não me arrependo. Acho que o resultado vai ficar excelente.” Esta introdução tem a ver com meu pós operatório e com tudo implicado neste período: desconforto doído, cicatrizes frescas e feias, cremes, curativos, bandagens e cuidados diários. Um simples banho requer uma logística diferenciada. Sentar, levantar, deitar, erguer braços, caminhar. O fazer diário passa por um complexo e inconsciente cuidado maior para evitar a dor e o desconforto. Tudo gira em torno do lento e do atencioso. De evitar a dor. Pra quem tem medo da cirurgia, sinto informar: o pós operatório é muito pior. A dor não é nada do outro planeta. Totalmente suportável. O doído é o desconforto, a rotina ditada pelo novo imaturo que ainda se limita, se aprisiona e requer cuidados. Mas já temos um mês. Dia a dia fica melhor e computo meus avanços: ontem caiu o ponto das costas por onde entrou a fina cânula da lipoescultura. Algo menos pra incomodar e doer.

O dia D

Dia 06.12. 2011 – 7:30h; Hospital Dia Mãe de Deus,  Porto Alegre – RS

O dia amanhece nublado e chuvoso. Minha noite e meu dia se misturam, assim como o dentro e o fora mesclam-se confusos. O tempo se perde na ansiedade e na apreensão. Afinal, o tão esperado e temido dia chegou.

Cheguei cedo. Na verdade, há dias eu vinha bisbilhotar, mesmo contra minha vontade. Cabeça e corpo se dividem e o que um quer o outro não necessariamente compartilha. Minha mente – uma rebelde voluntariosa – sobrevoava o cenário assim como beija-flor beija a flor. Apenas petiscava e ia embora. Mas vinha – e nesse vir – agitava o corpo e as ideias. Assim, o corpo acordou às 3 horas, estranhando a cama e o agito. Uma dor de cabeça lancinante mostrou seu desespero. Meu corpo sabia sem saber que algo estava acontecendo e gritava alucinadamente esperando saber. Achei que ele fosse gostar de uma conversa no calor das mãos e no toque suave dos dedos. Mesmo cedendo em intensidade, ele continuava assustado e atendi uma exigência antiga – um gole d’água e uma Neosaldina – algo conhecido frente ao desconhecido. E muita conversa, troca de energia e carinho. Como explicar a meu corpo guerreiro que decidira reformá-lo? Como explicar que estes 3 meses de privação calórica e desgaste físico foram insuficientes? Como explicar a um corpo atento e seguro de si que ele não mais se bastava? Difícil.

Fui pelo caminho mais fácil e justo. Hora de agradecer a vida gerada. Meus filhos, o maior tributo e orgulho. Obrigada, por acolhê-los tão bem!!!! Minha saúde – sua maior característica – permitiu–me uma família, trabalho, estudos, viagens, hobbies, prazer, emoções, amigos. Obrigada por todas estas bênçãos!!!!!! Tanto a agradecer. Não seria nada sem ele. E, apesar da decisão tomada, sempre gostei do seu jeito cheinho, fofinho e gostosinho. E, ele sempre soube. Nos divertimos muito juntos. Sofremos muito também. Amamos demais. Sonhamos demais. E, o mais importante de tudo, podíamos contar sempre um com o outro. CorpoCabeçaMenteAlma. Um ser só. Absoluto.

Prometi a ele, após quase 50 anos, que ele merecia uma repaginada. Para os próximos 50 anos. Que venham os decotes, biquínis, calças jeans, vestidos e saias à cinturados. Decentes ousadias para a maturidade que se estende e desfila na passarela da vida. Prometi cuidá-lo e amá-lo como ele merece, e mostrar o quanto sua essência é agora devidamente espelhada. Decidi mostrá-lo sem armaduras ou camadas de proteção.

Por isso, agora, sentada na cama hospitalar da sala e recuperação – enquanto observo enfermeiros entrando e saindo, camas chegando e se indo, pacientes chamando reclamando ou gemendo, outros enfermeiros conversando, separando medicações, atendendo um aqui outro ali, olhando pastas, conferindo funções vitais, trabalhando em 360 graus – continuo a conversar e acariciar meu corpo   (apenas remodelado). Continua o mesmo. Um guerreiro. Sinto ele se acalmar com o antigo toque das mãos, da fala doce e das cócegas macias. A dor, o estranhamento, o choque. Imagino como ele se sente: Roubado, vilipendiado, trapaceado e enganado ingratamente. Por isso aceito abnegada e pacientemente sua reação. Retribuo com compreensão e carinho.

Afinal, levei quase 10 anos para decidir me repaginar. Como posso esperar que ele aceite minha decisão, se aceite e se goste, em apenas alguns dias? Dei a ele de 3 a 6 meses. Ele costuma reagir bem dentro deste prazo. Eu aguento.

A ditadura das cesarianas, dietas e cirurgias plásticas

Esta crônica foi escrita na Venezuela em 2006.

Cheguei à conclusão de que existem procedimentos médicos que acompanham o ciclo de vida das mulheres. Pelo menos é isso que percebo quando o assunto é cirurgia plástica, dieta e cesariana. Aliás, existem doenças que também nos acompanham em determinadas fases da vida como o sarampo, a dor de cotovelo, as gastrites, os problemas cardíacos, o câncer de mama, etc..

Na época reprodutiva, enquanto estamos planejando e tendo filhos, a maioria das mulheres opta pela cesariana, ao invés do parto normal. Esta opção pode ser por uma necessidade real, em função do risco de vida da mãe ou do bebê, mas na maioria das vezes não é. Muitas alegam medo das dores, medo de que algo possa dar errado durante o parto, do bebê se machucar, dele não se encaixar ou trancar no canal vaginal e ser necessário o uso do temido fórceps. Os médicos preferem a cesariana porque conseguem encaixar o parto em sua agenda e não precisam esperar o momento em que o bebê quer nascer. Vários homens que conheço alegam que é muito sofrimento para suas esposas e não conseguem imaginar quão dolorido deve ser o parto normal. Assim, programa-se o dia e a hora do parto. Ninguém perde tempo, as dores são controladas e não existem surpresas inesperadas.

Com o passar dos anos, filhos nascidos e crescendo, o corpo da mulher vai se remodelando. Algumas planejam outras gravidezes, outras engravidam por acaso, outras nem uma coisa nem outra.  Engordam e emagrecem num eterno ir e vir de medidas: 38, 40, 42, 44, 46, 48 e por aí vai. Vamos nos encaixando nas tabelas de medidas. Pelo menos no meu armário tenho peças 42, 44 e 46. Conforme a fase que estou vivendo – mais ansiosa ou mais tranquila – engordo ou emagreço. Não faço de propósito, apenas é da minha natureza. Até os 30 anos era rápido e fácil perder aqueles quilinhos extras em poucos dias, para caber “naquela roupa”. Com o passar dos anos, os quilinhos foram se acumulando, e hoje, o que demora uma semana para perder, recupera-se em apenas uma refeição proibida. Culpa do metabolismo. Meu consolo é que 90% das minhas amigas sofrem do mesmo mal. Assim, os quilinhos extras que percebemos umas nas outras sempre tem uma boa desculpa para estarem lá. E nos solidarizamos nas mais diferentes modalidades de dietas e exercícios físicos. Tornamo-nos companheiras num processo de mútua-ajuda, estimulando-nos o tempo todo e fechando os olhos quando a balança revela que o esforço pouco valeu a pena. Sempre digo que estou de dieta, e sempre estou acima do peso ideal. Imagina se não estivesse de dieta!!! Tudo culpa do meu biotipo e minha descendência alemã.

Após uma infinidade de dietas, nutricionistas, endocrinologistas, aeróbica, musculação, horas e horas de caminhadas, centenas de abdominais, massagens estéticas, drenagens linfáticas,  terapias para controlar a ansiedade e a compulsão pelos doces, e tudo aquilo que se pode imaginar, surge a cartada final: cirurgia plástica, lipoaspiração, prótese de silicone. Sem contar os medicamentos para eliminar o apetite e controlar a ansiedade. Nunca fui adepta destes métodos. Por mais que exista uma indústria e médicos que apregoem que as medicações de hoje não causam dependência e que seu consumo é seguro, evito  usá-los. Até porque, uma coisa é perder peso. A outra é mantê-lo. Não é possível manter o peso sem uma reeducação alimentar, mudanças de hábitos e exercícios físicos. Muitas optam pelo caminho mais fácil e rápido, tornando-se reféns das “boletas” para controlar o apetite, emagrecer e manter o peso.

Plásticas e lipos sempre foram assuntos nas rodas de amigas, Continuar lendo “A ditadura das cesarianas, dietas e cirurgias plásticas”

Convalescendo

12 passos da cama ao banheiro. 22 passos até o topo da escada, 9 degraus, mais 22 passos até o sofá da sala de estar, e de lá até a geladeira na cozinha, mais 30 passos. Se quiser respirar o ar puro e apreciar a natureza, na beira da piscina, são outros 9 degraus, mais 60 a 70 passos, conforme o local exato em que vou desmoronar sobre minha poltrona de rattan. Além dessas odisseias – repetidas algumas vezes ao dia – as drenagens linfáticas diárias e o ultrassom, dia sim dia não, e depois o banho e a recomendação médica de nunca, jamais, em hipótese alguma, elevar mais de 90 graus os braços, constituem minha atividade física diária. Depois de 12 dias de cirurgia, alguma dor, muitos senões e muito tédio, assim tem sido meus dias, alegrados apenas pela leitura, palavras cruzadas, visitas, alguns filmes e um pouco de internet. Qualquer atividade fora desta rotina, percebo, ainda me deixa cansada. Mesmo assim, quase ganhei uma estrelinha na minha consulta de revisão, 4 dias atrás. Para o médico, minha recuperação está acima da média e, tirando o sacrifício de não poder erguer meus braços, estou liberada para tudo. Apenas para dirigir, meu corpo precisa de mais 2 dias. De resto posso fazer tudo que eu quiser. Como se eu aguentasse, espertinho. Tanto ontem como hoje, saí ao lado do meu filho. Ele dirigindo e eu absorvendo a vida do lado de fora. Fomos a uma feira num dia, no shopping no outro. Ao chegar em casa, a alegria de sair do tédio e o cansaço de exigir do corpo retalhado algo que ele ainda dispensa. Os dias estendida na cama com almofadas, almofadinhas, almofadões, travesseiros e travesseirinhos amparando os membros, acolhendo a dor e o desconforto tem sido o consolo maior para quem ainda se descobre em novas medidas e curvas. Mas cada dia é melhor que o dia anterior. Diariamente faço a contagem regressiva, e, segundo dizem, em uma semana, pelo meu ritmo, estarei quase novinha em folha. Existe um tempo enormemente maior para outras recuperações, mas poder levantar os braços e dirigir por aí, já representa um prêmio considerável e valioso.

Após 3 meses de academia e dieta –levadas muito a sério – o acabamento final foi feito por um escultor de corpos. Um cirurgião plástico. Em vias de fazer 50 anos, existe gordura grudada em lugar que nem a rigidez da dieta, o suplício do exercício físico ou a massagem vigorosa de mãos treinadas conseguem arrancar. Pensei estar crescida e madura para os procedimentos. E me fui. Sem pensar muito. Foram mais de 10 anos pensando e avaliando. Quando a motivação e a coragem subjugaram o medo e as desculpas, marquei a data e fiz. Sem muitas delongas. Está feito.

Apesar da redução total de tudo em minha vida, para me recuperar bem e saudável, sei que valeu a pena. Agora, além de calma, preciso de tempo. Calma para ver o corpo se achando e se remodelando. Tempo para colocar tudo em dia. Inclusive meu blog.

Mas, com calma – braços livres – e tempo, eu seu que chego lá. E vou contando como, o que, quando, porque. Essas coisas de mulher.