Palavras indigestas

Foto da internet
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Na Venezuela estudei espanhol, tanto através de clases con una maestra, lendo periódicos, assistindo programas de televisión e hablando con las personas. Como o espanhol e o português são muito parecidos, parece fácil aprender – de certa forma é – mas às vezes acontecem grandes confusões. Existem palavras nos dois idiomas que são iguais, mas com significados diferentes. Palavras que no Brasil são pejorativas, são usadas naturalmente na Venezuela.  Buceta, rico, tirar, bostezar, poceta, embarasar, estrañar, são palavras com significados distintos em cada país. Buceta é ônibus, rico é gostoso, tirar é transar, bostezar é bocejar, poceta é vaso sanitário, embarasar é engravidar e estrañar é sentir saudade. Imagina as saias justas do dia-a-dia. Muitas pessoas chegam aos países de língua espanhola e pensam que basta acrescentar um “e” no meio das palavras e já estão falando espanhol. Ledo engano. Costumo dizer que vou acabar falando mal o espanhol e o português. Porque tuve, seguirlo, suban, funcionó, estuve, dime, peor, dame, morir, cargaré são palavras corretas em espanhol, mas um desastre na língua portuguesa. Ler e compreender espanhol é fácil. Já falar, pode dar um nó na língua, mesmo que a língua seja nosso conhecido e simpático portunhol. Praticando, querendo e precisando, a gente aprende. Como quase tudo na vida, basta querer. Mas, a dificuldade de se fazer entender acontece também em nossa própria língua mãe. Falamos, entendemos e compreendemos de um jeito único. Esta dificuldade de sintonia/compreensão é comum entre casais, pais e filhos, entre as pessoas de um modo geral. São diálogos estrangeiros entre pessoas de mesmo idioma. Acontece quando não há interesse para o entendimento: fazemo-nos de loucos, desmemoriados ou  desentendidos. Pra entender e ser entendido, basta querer, basta ser necessário! Estranha esta capacidade humana de complicar o que é fácil. De facilitar o que é difícil. Afinal, como muito bem diz Watzlawich, é impossível não se comunicar.

Los Canales, outubro de 2006.

Nina e a conversa das coisas

A gente se comunica e se trumbica o tempo todo. Mais experiente, começo a suspeitar que tudo acontece por algum motivo, e que nada acontece por acaso. Clichezaço!!!! Mas começo a suspeitar da comunicação da matéria. Dias atrás, usei um vestido comprado (um ano antes) para a formatura do meu filho, depois que minha assistente queimou “sem querer” a gola da camisa de seda, comprada na véspera, para ser usada com uma calça rendada. Depois de um ano, o vestido ficou com cara de muito “senhora”  e a dupla camisa de seda + calça rendada estava infinitamente melhor cotada. Pra completar, minha costureira teve problemas de saúde e estava impossibilitada de costurar e reformar, e eu, sem alternativa, tive de cumprir a promessa de um ano antes: usar o vestido verde rendado. Simplesmente um complô cósmico materialista. Só mencionei esta “coincidência” pra falar, de novo, da minha gata Nina.

Minha gata é uma grande tagarela. Como passo um período afastada, minha assistente é quem fica atenta e me repassa o que minha gata quer e pede. Rapidamente, assimilo a simbologia dos miados, poses e atitudes. Tem o miado do “estou com fome”, o miado do “quero colo”, o miado do “quero sair e passear”. A cabeça sobre o notebook ou sobre o livro deixa claro quem deveria estar em primeira opção de atenção e dengo. O arranhar dos sofás, a correria por entre as cadeiras, o se esconder e se deitar de barriga, deixa claro a hora da brincadeira. O ronronar e os grunhidos quase inaudíveis, demonstram o prazer de estar junto. Na noite passada, ela veio de mansinho e se deitou no travesseiro ao meu lado. Normalmente ela fica nos pés ou mais afastada, mas na noite passada, ela literalmente se apossou do travesseiro do meu lado. Fiz chamego nela e deixei-a curtir o momento, já que no dia seguinte eu não estaria mais com ela. Ela ronronava e dormia placidamente. Decidi lhe dar as costas pra continuar lendo. Em segundos escutei um grunhido forte, me virei pra ver o que era e lá estava ela, com a cabeça virada, olhos fixos nos meus, como quem diz “que história é esta de me dar as costas?”. Me revirei e ela voltou a fechar os olhos e dormiu. Ela disse tudo. Aliás, essa gata só falta falar.