Conchas

Além de inspirar poesias e reflexões e preencher potes de vidro pra decorar a casa, as conchas podem dar um toque muito especial em velas e na decoração de Natal. Em 2017 fiz a primeira remessa de árvores e bolas de Natal, por ocasião de um encontro familiar. Com a reorganização do depósito/ateliê redescobri uma caixa de conchas e uma gaveta com mais de vinte bolas de isopor. Naquela de consumir/aproveitar todo material do ateliê arregacei as mangas, vesti um avental, esparramei o material, fiz um chá, queimei incenso, coloquei um CD da Enya e mãos à obra.

Não tem segredo algum. Nas caminhadas que faço pela praia, tem dia de concha, tem dia que não tem. Lavo-as bem pra tirar o excesso de areia, depois coloco de molho na água sanitária de um dia para o outro, escorro e levo ao sol para secar. Usei dois tamanhos diferentes de base de isopor para as bolas, e dois para os pinheiros e cola quente de boa qualidade para colar. 

Voilá. 

Use da imaginação e se surpreenda. 

Um pouco mais de um ano depois

Coisas demais aconteceram neste período. Com exceção das fotos na galeria do telefone, postagens no Facebook e Tweeter (nada no Instagram) e uma ou outra anotação num diário, que nada de diário tem, retomar o blog tem a ver com resgatar este tempo, retomar a escrita e quem sabe, manter o by suzete.com  em dia. Afinal o último post data de 27/08/21: Retomando a cerâmica

Retomei mesmo e esgotei toda argila que tinha em casa. Basicamente, preparei utilitários de cozinha: pitpots, vasilhas e acessórios escultóricos (que viraram um abajur). Foi uma das metas de 2021, que ainda se mantem: Consumir todo material do ateliê. O mesmo aconteceu com os fios de crochê. Tudo virou “souplat” e se transformou na coqueluche do Natal passado. Todo mundo ganhou. Espero que tenham gostado. Do material de crochê só sobraram os cones de  fios de malha. Todos devidamente encaixotados. Ainda não sei se vou doar ou crochetar o material. O trabalho é mais hard do que imaginei. Minha moída mão direita que o diga. 

Outra meta remanescente de 21 é reorganizar e limpar a casa após 3 anos de construções de casas e prédios  no meu entorno. Só não finalizei por questões alheias à minha vontade:

Infartei em 25 de janeiro de 2022. Fiquei de resguardo. A empregada deu nó. Peguei Covid-19 como presente de aniversário e minhas rotinas sofreram alguns ajustes. Além de 9 comprimidos, a caminhada tem sido diária. Aos poucos o fôlego está voltando, apesar da pressão abaixo do aceitável. O processo de revisão dos medicamentos deve começar em breve. Minha postura tem sido de otimismo. Nada de vitimismo. Porque, como, quando, pq eu, já está digerido. A lição que ficou é: aproveite a vida, seja bom e generoso, faça o que e quando puder e siga em frente.

Mantenho as viagens mensais ao RS e a reforma do jardim da casa da minha mãe. Adoro. A grande viagem pós-pandemia foi Bariloche/Mendoza, na Argentina, no início do inverno, e foi simplesmente, sensacional. 

Um grande marco deste 2022 foi a transformação do depósito em ateliê. Ficou perfeito. Do topo foi ao subsolo da casa, onde é mais fresquinho e a claridade controlada. Juntei todos os materiais, pintei paredes e repaginei móveis. Neste momento, a mesa centralizada está tomada por conchas, bolas de isopor e cola quente. O Natal começou a ser gestado. Serão vinte bolas novas, revestidas com conchas, pra enfeitar a árvore de Natal. Afinal, este ano, após sete anos, Fernanda e Antônio, estarão conosco.

A grande tragédia do ano foi a perda da minha melhor amiga, minha quase irmã Liane. Ainda  choro quando lembro que ela não está mais aqui.  Que não faremos mais nossas visitas por telefone, nem agendaremos e reagendaremos  mais uma vez nossos famosos cafés na Padaria Suíça, no RS. Com a pandemia e seu zelo extremo, praticamente não nos vimos neste período. Morreu em 07 de agosto, com AVC hemorrágico. Assim, do nada. Feito eu infartando. Do nada. 

2022 foi marcado por várias homenagens à minha mãe: cidadã colinense, o jardim mais bonito de Colinas e uma bela homenagem da Comunidade Católica de Colinas, por serviços prestados.

Já vislumbro o final do ano. Novos exames médicos me aguardam. Uma nova empregada – Jucele –  começa a ser preparada. A academia no subsolo precisa ser concluída. As conchas 100% utilizadas. 

Hoje encomendei novas telas. Cinco telas de tamanhos variados. Pra casa, pro ateliê, pra Fernanda. Tem ainda o jardim aqui de casa. Vasos pra pintar. Costelas de Adão pra plantar. 

A vida segue.

Submersa

O dia foi de sol e mar. Plácidos e serenos.

Maré baixa.

Nela, redescobri a cidade das conchas.

Uma cidade posta na orla exposta feito xadrez no tabuleiro.

Atlântida à beira mar a um braço do olhar,

fora do alcance da ligeireza do mar.

A cidade embaralhada. Meu olhar ali se perdeu:

Entre o ir e o vir das ondinhas;

Entre o ir e o vir das conchas.

Grandes e pequenas,

argonautas, conchas-lua/pera/aurora. Um banco de ostras.

Provisórias e passageiras, despedaçam-se. Acabrunham-se. Esparramam-se.

Se perdem e se reencontram na imensidão das águas.

Estou aqui por elas. Sedutoras,

me convidam a caminhar; me convencem a ficar.

Levo-as para casa, essas casas abandonadas.

Compomos um lar à beira mar.

 

Manhã de sol

O sábado amanheceu ensolarado, pedindo novas lentes e uma senhora caminhada. Verão após verão sobram óculos de sol esquecidos por amigos, conhecidos e conhecidos de amigos. Além dos familiares. Ficam como agradecimento dos dias à beira-mar entre nós. Uma doação muito bem-vinda a tantos outros amigos, conhecidos, conhecidos de amigos e familiares que chegam desprevenidos para os dias luminosos do verão. Existe um óculos de sol com uma lente que além de proteger os olhos, clareia e dá cor e vida a absolutamente tudo: à vida em si, as plantas, ao céu, ao mar. O mar de Jurerê fica mais verde, a areia mais clara … as pessoas mais alegres, as conchas mais exuberantes … a vida mais bela.

Quando posso – e tenho vontade – inverno ou verão – caminho com pés descalços na orla – onde o mar visita a terra e se recolhe em si mesmo.

mar de jurere

Hoje, ao avistar o mar, passeando pelo deck por sobre a vegetação nativa de Jurerê –  observo a maré alta no mar verde-água num movimento que, ora avançava sobre os banhistas e caminhantes, ora se recolhia expondo conchas e pedras. A orla umedecida, de tempos em tempos, apresentava conchas dos mais diversos tamanhos e cores. Perdi algumas conchas vistosas e oferecidas neste descompasso do ir e vir das ondas. Enquanto isso, no colarinho da maré alta, uma miríade de pequenas conchas pedia uma vassoura e uma pá. Ah, se eu pudesse ….

Desde que ancorei em Jurerê, as conchas me encantam. Desde sempre, existe da minha parte, uma certa reverência ao sagrado que é a casa marinha de tantos seres e frutos do mar. A maioria das pessoas mal percebe o presente que nos é ofertado, diariamente, pela natureza. Quando vejo alguém pisando e quebrando conchas, ouço o crac-crac-crac de uma casa despedaçada. Oh céus, oh mares … me transformo numa perdigueira implacável. Vou catando o quanto consigo carregar e me submeto. Me reclino perante o olhar dos outros. O ato de me curvar para recolher conchas tem algo de divino e, ao mesmo tempo, constrangedor. Que o diga minha lombar. A maioria vê no gesto, apenas a  pobreza daquele souvenir. Vejo simplicidade e agradecimento. E a sofisticação da casa à beira mar.

A coleta do dia rendeu duas mãos cheias. Elas vão iluminar a noite.

abajour

Depois de lavadas na água corrente, um molho perfumado de água sanitária e elas estão prontas para adornar a casa inteira.

Perfumando a casa para o Natal

E quem não gosta de cheirinho bom dentro de casa? Eu adoro.

Já há alguns anos, faço eu mesma aromatizadores de ambiente. É fácil, rápido e barato. Mas se você for hipersensível à perfume, melhor usar máscara e trabalhar num ambiente bem arejado. O risco de enxaqueca ou rinite é bem provável. Eu que o diga!!!!

cheirinho 2

Bastam 3 ingredientes básicos: álcool de cereais, essência perfumada e água de torneira + frascos e varetas para difusor. As minhas varetas reaproveito até não poder mais. Deixo-as de molho em água pura, vou trocando a água até perceber que estão limpas e livres de qualquer tipo de cheiro. Depois deixo secar e estão prontas para o re-uso. Quanto aos frascos, qualquer frasco de vidro serve. Uso os de leite de coco e de azeite de oliva (vidro claro de preferência) sem cerimônia. Além de frascos antigos, vasos, vidros diferentes e cerâmicas próprias para receber líquidos. Em casa, a regra é clara: reaproveitar e reciclar tudo. E esparramo sem limites pela casa inteira. Quando quero presentear algum amigo compro vidros com tampa de rolha em Atacadões. Tem pra todos os tamanhos e bolsos.

Cheirinho 1

Depois de experimentar vários tipos diferentes de essência, optei por dar identidade olfativa à nossa casa de praia. As essências de Algas e Ozônio tem sido as escolhidas pois trazem o cheiro de mar pra dentro de casa. Reservo as essências de Capim Cidreira e Floresta para dar de presente aos amigos e perfumar a casa de Lajeado e da minha mãe.

Como este ano estou dedicando tempo e espaço para as conchas na decoração de Natal, decidi que também os amigos receberão aromatizadores com cheiro de Algas e decorado com conchas de Jurerê.

cheirinho 5

Quanto ao detalhe do cordão, sabe aquele velho e fuzilado tapete de sisal? Depois de aproveitar o aproveitável, o resto virou matéria prima para os mais belos acabamentos com barbantes.

cheirinho 4

Preparando o Natal 2018

Fazem 5 anos que vivo à beira mar entre o calor e as ondas, entre as gaivotas e as conchas. Desde o primeiro Natal, em 2013, imaginava como seria fazer um Natal bem praiano. Nada a ver com o excesso de vermelhos e verdes e Papai Noeis da Lapônia. Queria os tons de areia e mar vestindo a casa de praia na temperatura de verão em pleno Natal. Como ainda faltam aproximadamente 50 dias para o dia 25 de dezembro, arregacei as mangas e comecei a preparar nosso primeiro Natal Praiano: conchas recolhidas na orla de Jurerê, bolas de isopor antigas (dá pra imaginar que aprendi a fazer bolas de isopor revestidas de tecido? Hora de reciclar!!!) e cola quente. Fácil e rápido. O problema são os dedos: Não tem como, de vez em quando, não encostar na cola quente e fsfsfsfsfsfs a pele ficar sapecada e dolorida.

Bola de concha 1

Além das bolas natalinas, pinheiros, adornos, pingentes e um universo de possibilidades começa a ganhar vida.

Pinheiro conhas

Depois da chuva

Depois da chuva, o sol.

Depois de frio, o sol. Com ele,

o convite para o dia, para a vida.

Caminho pela praia e recolho um abraço de conchas,

recolho também garrafas plásticas, tampinhas, canudinhos …

a seara de lixo encrustada pela chuva, pelo frio,

pela insensibilidade e falta de tato e jeito e tudo

que intoxica o mar. A vida marinha.

Meus olhos. Os teus.

 

Obrigada, marzão.

De nada, marzão.

Presente do mar

Anne Morrow Lindberg

O livrinho, pequeno em tamanho e gigantesco nas reflexões, foi originalmente escrito em 1955, e reeditado em 1975. A autora buscou na solidão de uma ilha e no contato com as conchas, um bálsamo para seus conflitos pessoais.

conchas 2

“Pois ser mulher é ter interesses e obrigações que irradiam em todas as direções a partir de um núcleo materno central, como os raios que partem do centro de uma roda. O padrão de nossas vidas é circular em sua essência. Precisamos estar abertas a todos os pontos da circunferência: marido, filhos, amigos, casa, comunidade: tensionadas, expostas, sensíveis a cada apelo, como uma teia de aranha que balança a cada brisa que sopra. Como é difícil alcançarmos um equilíbrio entre tantas tensões contraditórias! E, ao mesmo tempo, esse equilíbrio é essencial para o funcionamento adequado de nossas vidas.” (p. 37-38)

“E aqui me confronto com um estranho paradoxo. Instintivamente, a mulher quer se doar; no entanto, fica ressentida por se dar em pequenas doses. Seria este um conflito básico? Ou eu é que estaria simplificando demais um problema muito mais complexo? Acredito que a mulher não se ressinta tanto por se dar em pequenas doses, mas por se dar em vão. Não receamos o fato de que nossa energia possa estar sendo escoada por pequenas brechas, mas que possa estar se perdendo pelo caminho. O problema é que não vemos os resultados de nossa doação de forma tão concreta, como acontece com o homem em seu trabalho.” (p. 53)

“Na verdade, este é um dos momentos mais importantes de nossas vidas – quando estamos sozinhos. Algumas fontes começam a jorrar apenas quando estamos sós. O artista precisa ficar só para criar; o escritor, para elaborar seus pensamentos; o músico, para compor; o santo, para rezar. A mulher precisa de solitude para reencontrar sua verdadeira essência, núcleo indispensável a partir do qual será tecida toda uma gama de relações humanas. Ela precisa encontrar a quietude interior que Charles Morgan descreve como “a quietude da alma em meio às atividades da mente e do corpo, para que ela se torne tão serena como o eixo de uma roda em movimento.”(p. 57)

“As ondas ecoam atrás de mim. Paciência, fé, compreensão. É isto que nos ensina o mar. Simplicidade, solitude, intermitência … Mas há outras praias para se explorar. Há outras conchas para se encontrar. Este é apenas o começo.”(p. 127)

Cotidiano

Estava eu, caminhando na areia macia da praia de Jurerê, molhando os pés na água ainda gelada do início da primavera, pensando em porquê tenho escrito tão pouco no meu blog. Criei várias categorias, justamente pra diversificar os assuntos, e poder escrever desde textos técnicos até poesia. E cheguei à algumas conclusões. A primeira – e a que conta para o momento – é que tenho esperado por grandes inspirações para escrever ou grandes fatos/coisas acontecerem. O dia a dia já nos fornece material bárbaro.

Como hoje: percebi que conchas me fascinam e quase me hipnotizam. São elas que dão o compasso da minha caminhada. Quando o mar está generoso, acabo enchendo as mãos com as maiores. Hoje foi dia delas. Foram poucas, mas suficientes. Tem dia que não encontro nenhuma. Nem grandes, nem pequenas. Por isso, assim que avistei as primeiras, fui à colheita. Por enquanto, elas dormem no comedouro dos pássaros. Podem preencher vasos ou velas.

comedouro-2

Concha/lar

 

O mar serenou e conchas ofertou.

A praia foi bordada em tons e tamanhos

PP, P, M, G, GG.

Olhando com carinho e cuidado,

Fizemos um arrastão

e enfeitamos de mar a nossa casa.

Optei pelas conchas mais experientes,

mais vistosas, mais marcadas.

Assim como eu, elas contam sua história do fundo do mar:

Cicatrizes e manchas, estrias e celulites, tudo nelas

revela lutas vencidas e perdidas.

Conchas e mulheres poderiam ser irmãs.

Conchas e mulheres são como lar de aconchego e amor.

Encontro marcado

Desconfio que houve festa lá pelas bandas do céu e o mar.

Sol e chuva – Casamento de viúva –

Sol e lua, estrelas e nuvens – convidados atrevidos e espaçosos – brincaram de ir e vir, esconde-esconde, dançaram e gazetearam.

O mar

 – ou estava generoso –

E presenteou com todas as conchas – brancas, rosas, cinzas, pretas, douradas, marrons – que não houve nem olhos, nem mãos, nem colos para abraçá-las. Todas.

– ou estava enfastiado –

Vomitando conchas, pedaços de pedras, corais, galhos … Só sei que amanhã, vou entrar de penetra nesta festa.

Meu encontro com as conchas está marcado.

As conchas de Jurerê

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Quando menina, adorava catar conchas na praia. Cresci, perdi o hábito, passei a comprar conchas – lindas e perfeitas – e agora, mais madura, voltei a catar conchas na praia. Não as mais belas, nem as mais perfeitas. Tenho procurado aquelas com formas, tamanhos e cores diferentes. A diversidade me impressiona! As mais perfeitas chamam pouco minha atenção. As mais deformadas tem me cativado mais. Talvez tenham tido um processo de formação mais caótico, mais sofrido. Imagino-as sobreviventes e resilientes e me identifico com elas.

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Na realidade, “As conchas, que servem de proteção para vários animais, principalmente moluscos, como mariscos, ostras e caracóis, são estruturas complexas formadas basicamente por cristais de carbonato de cálcio (CaCO3). O órgão que forma a concha chama-se manto, um tecido delgado presente no corpo dos moluscos que permanece em contato direto com a parte interna das conchas. Ele secreta uma matriz orgânica, que funciona como liga de sustentação para a deposição dos cristais de carbonato de cálcio. Essa liga é composta, basicamente, por proteínas que são sintetizadas pelo animal a partir de aminoácidos obtidos na alimentação. Mas não é só pela alimentação que os moluscos obtêm cálcio. Essa substância também pode ser absorvida pela pele do animal diretamente da água do mar, rica nesse mineral.” (fonte Galileu.globo.com)

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Ou seja, nada de poesia.

A realidade é dura e pura.

A função básica das conchas – de proteção e alimentação – tem tudo a ver comigo, meu momento de vida, minhas perdas e ganhos.

Assim como elas, já fui mais necessária.

Ainda posso ser muito útil, por isso, nada de dramas.

Assim como elas, pretendo ser luz.

Sou elas.

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