Amigos e desamigos

Existem coisas ditas e não necessariamente entendidas e assimiladas de imediato. Às vezes, o coração precisa de um tempo maior para entender e digerir o que o cérebro já processou. Acho que foi isso que aconteceu.

Um casal de amigos veio nos visitar. Amigos de tempos antigos. Ele ,colega de trabalho do meu marido, engenheiro com pouca atividade profissional, não aposentado, esperando que a vida dê uma guinada nos negócios. Ela, a esposa, professora aposentada. A escolha por qualidade de vida os envelheceu precocemente, devido ao excesso de sol, ondas, instabilidade financeira, a perda de um filho e decorrentes questões emocionais. Às vésperas da temporada, decidimos nos encontrar o quanto antes, porque Floripa simplesmente lota, fica intransitável e quase afunda durante o verão.

Combinamos de nos encontrar na nossa casa. Nada de restaurante, bar ou cinema. O reencontro seria à beira da piscina ao som das ondas, na presença irritante dos mosquitos, velas, vinhos e um despretensioso bate-papo. Conversa vem, conversa vai, o risoto de camarão salpicado com raspas de limão siciliano ficou pronto, trocamos o espumante por vinho tinto, comentamos sobre amigos em comum. Em meio à serenidade daquele ambiente, meu marido fez um comentário sobre a esposa de outro amigo comum daqueles tempos antigos: “fulana anda como as mulheres de 50 anos costumam estar nesta idade”. Ok, estamos todas – eu, minha convidada e a amiga em comum – na menopausa. Entendi nas entrelinhas as insinuações do comentário que pouco me mobilizou. Passaria como a brisa leve da noite à beira da piscina, não fosse o tom agressivo e desconectado da professora aposentada esposa do amigo do meu marido: “eu já te mandei tomar no cu esta noite?” A frase dita, com o corpo em riste, simplesmente se perdeu entre o vinho, as velas e o barulho gostoso do mar a apenas duas quadras de onde estávamos. O papo seguiu, preparei açaí com granola, um queijo brie com mel, e “alguém vai querer café ou chá?”

Passava das duas horas da madrugada. Não, ninguém queria nada. Queríamos apenas que o Uber chegasse logo e desse fim àquela noite esquizoide. Enquanto apagava as velas, recolhia os copos, desligava os abajures e fechava as portas, meu marido me perguntou o que eu havia achado do comentário feito pela esposa de seu amigo. “Que comentário?” questionei sonada e levemente(?) embriagada. “Aquele sobre eu tomar no cu.” Olhei para ele e só então processei o acontecido: “Fulana foi extremamente mal educada e deve ser assim que trata teu amigo dia a dia. Deve estar em crise … mal educada”.

Nestes últimos 3 anos, temos tido uma baixa substancial de amigos com os quais reativamos amizade. Alguns dos ditos amigos de antigamente devem ficar com as coisas de antigamente lá onde mora o antigamente.

A vida segue rumos que as amizades nem sempre conseguem acompanhar.

E, eu acho que adquirimos mais um casal de desamigos.

na pele

vontade de arrancar a própria pele e me vestir outra.

sair deste corpo que aperta. estrangula e sufoca.

um corpo que não me serve, nem me define mais.

ruiu, virou pó. espatifou.

me esmigalhei inteira.

sumo em frestas feito água. feito pó.

sem forma, sem contorno. líquida. invisível.

essa não sou eu.

diluída, me agarro aos sonhos de menina,

aos projetos de mulher madura, à falta de sentido.

meu medo é escorrer, me misturar ao lodo à minha volta,

e perder de vez qualquer fio de lembrança

  • ou esperança –

do que um dia fui ou imaginei ser.

o que vivi pensando que era nosso,

era apenas meu.

a tua verdade, era somente tua.

jamais nossa.

vivemos a dois, sendo cada um, um.

o tempo todo. quase a vida inteira.

minha verdade é

– e sempre será –

todo meu mundo.

um mundo somente meu.

uma verdade – queria eu – fosse completamente nossa.