Sobre as ideias

Não sei se concordo com a escritora Elizabeth Gilbert quanto ao assunto “ideias”. No mínimo uma forma muito original e irreverente de abordar a criatividade. Aliás, uma forma extremamente criativa.

Para ela “ … nosso planeta é habitado não apenas por animais, plantas, bactérias e vírus, mas também por ideias. Estas são uma forma de vida energética, incorpórea. São completamente separadas de nós, mas capazes de interagir conosco – ainda que de um modo estranho. As ideias não tem um corpo material, mas tem consciência e, certamente, tem vontade própria. São movidas por um só impulso: o de se manifestar. E a única maneira pela qual uma ideia pode se manifestar em nosso mundo é por meio da colaboração com um parceiro humano. Ela só pode ser escoltada do nível do etéreo para o reino da realidade através dos esforços de um humano.”

Também não sei se concordo que fazer qualquer atividade criativa – tipo escrever, scrapear – com um diferencial significativo e original, seja apenas uma questão de técnica e disciplina, nada a ver com estar inspirado. Acredito que o exercício e a prática diárias levam a uma maior facilidade em trabalhar com palavras, papel, ou qualquer outra matéria prima a ser transformada. Também acredito que inspiração existe, e nem sempre – por mais dedicação e trabalho envolvidos no processo – estamos inspirados para criar e produzir. Tem dia que pedra é pedra, mar é mar, é  quando o pensamento concreto esmaga o pensamento mágico e criativo.

Quanto `as ideias que ficam perambulando a nossa volta – só esperando para serem capturadas – vou ficar atenta . Posso muito bem esbarrar numa delas, tipo a Saga Crepúsculo, Jogos Vorazes, Harry Potter …

Pra quem gostou, Elizabeth Gilbert desenvolve muito bem suas ideias sobre criatividade no livro “Grande Magia – vida criativa sem medo” da Editora Objetiva.

“A assinatura de todas as coisas”

“A história que Alma queria contar era a seguinte: o mundo natural era um espaço de brutalidade severa, em que espécies grandes e pequenas competiam para sobreviver. Nessa luta pela existência, os fortes permaneciam; os fracos eram eliminados.

Não era em si uma ideia original. Cientistas usavam a expressão “a luta pela sobrevivência” havia décadas. Thomas Malthus a utilizava para descrever as forças que moldavam as explosões e quedas demográficas ao longo da história. Owen e Lyell também faziam uso dela, em suas obras acerca de extinção e geologia. A luta pela sobrevivência era, no mínimo uma questão óbvia. Porém, a história de Alma tinha uma reviravolta. Ela levantara a hipótese, e passara a crer, que a luta pela sobrevivência – quando ocorrida no decorrer de vastos períodos – não apenas definia a vida na terra:  ela criava a vida na terra. A luta era o mecanismo. A luta era a explicação por trás de todos os enigmas biológicos mais importunos: diferenciação de espécies, extinção de espécies e transmutação de espécies. A luta explicava tudo.

O planeta era um lugar de recursos limitados. A competição por tais recursos era acalorada e constante. Indivíduos que conseguiam resistir às provações da vida geralmente conseguiam fazê-lo devido a alguma característica ou mutação que os tornava mais fortes, mais astutos, mais criativos, ou mais flexíveis do que os outros. Depois que esta diferenciação vantajosa era alcançada, os indivíduos sobreviventes eram capazes de passar seus traços benéficos para a prole, que consequentemente podia desfrutar dos confortos da posição dominante – isto é, até que outro concorrente, superior a ele, surgisse, ou um recurso necessário desaparecesse. No desenrolar desta luta interminável pela sobrevivência, era inevitável que a própria estrutura das espécies se alterasse.

Alma estava pensando mais ou menos nos termos que o astrônomo William Herschel chamara de “criação contínua” – a ideia de alguma coisa ao mesmo tempo eterno e em desenvolvimento. Mas Herschel acreditara que a criação só poderia ser contínua na escala do cosmos, enquanto Alma agora acreditava que a criação era contínua em toda parte, em todos os níveis de vida – até no nível microscópico, até no nível humano. Os desafios eram onipresentes, e as condições do mundo natural mudavam a cada instante. Vantagens eram obtidas; vantagens eram perdidas. Havia períodos de abundância, seguidos de períodos de hia’ia – as estações das ânsias. Sob as circunstâncias erradas, tudo poderia ser extinto. Mas sob as circunstâncias certas, tudo poderia sofrer transmutação. Extinção e transmutação vinham ocorrendo desde o despontar da vida, continuava ocorrendo naquele instante e seguiria ocorrendo até o fim dos tempos – e se isso não era uma “criação contínua”, Alma não sabia o que poderia ser.

A luta pela sobrevivência, ela tinha a certeza, também moldara a biologia humana e o destino humano. Não havia exemplo melhor, Alma ponderou, do que Amanhã Cedo, cuja família inteira fora aniquilada por doenças estranhas causadas pela chegada dos europeus ao Taiti. Sua linhagem foi quase extinta, mas por algum motivo Amanhã Cedo não morreu. Algo em sua constituição permitiu que sobrevivesse, mesmo quando a Morte fez sua colheita com ambas as mãos, levando todos que o rodeavam. Amanhã Cedo havia resistido, no entanto, e sobrevivido pra gerar descendentes, que talvez tivessem até herdado suas forças e sua imunidade extraordinária às doenças. Esse era o tipo de acontecimento que moldava uma espécie.

Além disso, Alma refletiu, a luta pela sobrevivência também definia a vida interior do ser humano. Amanhã Cedo era um pagão que se transmutara em cristão devoto – pois era sagaz e buscava a autopreservação, e percebeu o rumo que o mundo estava tomando. Escolheu o futuro em detrimento do passado. Como resultado de sua perspicácia, os filhos de Amanhã Cedo vicejariam em um novo mundo, onde o pai era venerado e poderoso. (Ou, pelo menos, os filhos vicejariam até que outra onda de desafios surgisse para confrontá-los. Então teriam de se virar sozinhos. Essa seria a luta deles, e ninguém poderia poupá-los.)

Por outro lado, havia Ambrose Pike, um homem que recebera de Deus as quatro bênçãos da genialidade, originalidade, beleza e graciosidade, mas que simplesmente não tinha o dom da resistência. Ambrose tinha interpretado o mundo da forma errada. Desejava que o mundo fosse um paraíso, mas na verdade ele era um campo de batalha. Passara a vida almejando o eterno, o constante e o puro. Queria um pacto etéreo com os anjos, mas estava preso – assim como tudo e todos – às regras duras da natureza. Alem do mais, como Alma sabia muito bem, não eram sempre os mais belos, brilhantes, originais ou graciosos que venciam a luta pela sobrevivência: às vezes eram os mais cruéis, ou os mais sortudos, ou talvez os mais teimosos.

O truque a cada virada era agüentar o teste de viver o máximo de tempo possível. As probabilidades de sobrevivência eram violentamente baixas, pois o mundo nada era além  de uma escola de calamidades e uma fornalha perpetuamente chamejante de sofrimentos. Porém, quem sobrevivia ao mundo o moldava – ainda que o mundo, ao mesmo tempo, os moldasse.”

                                  A assinatura de todas as coisas” Elizabeth Gilbert. Pg 453/4/5