Sacramentado

Já deveria ter batido o martelo. Não bati.

Dei várias chances. Ouvi palpites. Preferências.

Dei mais uma chance. Mais uma. A última.

A partir de agora, amigo meu,

aqui em casa,

está proibido de escolher sabor de pizza.

Aí eles querem brócolis com catupiry, margarita, portuguesa

etcetcetcetcetcetc.

Gente eclética, sofisticada.

Na hora de comer, o olho e o garfo,

avançam na minha,

calabresa com cebola.

Não dou mais.

A partir de agora,

escolheu comeu.

Os filhos nos escolhem como pais?

“- É, e utilizamos a família para traduzir símbolos emocionais na infância. Por exemplo, uma criança reage mais ao som da voz do que às palavras em si. A interação intuitiva aguça sua percepção para que possa discernir o mundo. Se uma criança escolhe um pai dominador, é porque ela quer resolver um problema da prepotência. (Lembranças do meu pai) Se uma criança escolhe uma mãe passiva, talvez sua tarefa seja fazer a mãe sentir o que é ser dominada. (Lembranças da minha mãe) Há tantos roteiros íntimos em cada alma humana. Só a alma sabe porque escolheu seu drama. E quanto maior a compreensão da alma, menor a confusão que ela sente.

– Veja, se disséssemos aos nossos filhos que eles nos escolheram como pais, a criança aprenderia desde cedo a assumir uma responsabilidade maior pelo seu destino. É por isso que o esclarecimento é tão importante. Não estamos agindo com suficiente conhecimento em nossa sociedade. Desta maneira, ou a criança desiste diante do autoritarismo de que é vítima, ou se rebela. Mas sua alma sabe intuitivamente que não pode culpar os pais pela sua situação seja ela qual for. Uma criança excepcional escolhe passar por esta experiência. Se não consegue superar a dificuldade, vai continuar a suportá-la. Pára na condição de vítima e utiliza isso para perpetuar o esquema. O reconhecimento da própria responsabilidade na situação a faria romper o esquema e se libertar dele. Mas como é que pode fazer isso se  de início não lhe ensinarem porque ela está nesta situação?”

                                                              (Dançando na Luz, Shirley Maclane ,pg 244)

Vida e morte: uma escolha

Às vésperas da minha viagem para New York, fiz o que as mulheres fazem antes de viajar: cabelo, pé, mão, depilação. Enquanto todo o processo de recauchutagem acontecia, olhei uma revista de fofocas. Há pouco para ler, há mais para ver. E como raramente leio este tipo de revista fiquei chocada com a matéria sobre o suicídio de uma atriz que pulou do sétimo andar de seu prédio, dois meses após o suicídio de seu noivo. O choque se deu, pois foram publicadas cartas, pedidos de desculpas aos pais, filhos, amigos, e.mails de despedida, fotos horas e minutos antes do acontecido, etcetcetcetc, numa infinidade de páginas em meio a tantas outras celebrando a pujança, a fartura, a beleza da vida em todo seu esplendor e futilidade. Tudo devidamente registrado e publicado para o Brasil inteiro testemunhar. Para quem não conhece a história, e para quem conhece, sabe que estou atrasada três meses na notícia. Mas não é sobre a notícia que pretendo escrever. É sobre a modernidade do suicídio que se transformou em notícia macabra e sensacionalista de consumo rápido. Assim como eu, milhares de pessoas devoraram esta história mórbida, e o que sempre ficou restrito ao ambiente familiar, foi motivo de fofoca – tomara de reflexão – país a fora.
Após o choque pela banalização deste momento desesperador, pensei em como esta história poderia ser catártica a milhares de leitores. Potenciais suicidas, familiares inconsoláveis pelo suicídio dos seus……cada qual absorvendo e elaborando sua parte.
Sinceramente acredito que o suicídio é apenas uma escolha entre morrer e viver. A tonalidade fica por conta dos motivos e a forma com que ele acontece, banhado sempre por uma dor lancinante e, como acreditam os suicidas, insuportável. Quem tem presença garantida nestes eventos é a senhora depressão.
Muitos de nós nos suicidamos/morremos um pouco a cada dia. A atriz mencionada alegou que não estaria se suicidando, afinal se sentia morta em vida e que morrer por amor não seria pecado. Assim como Romeu e Julieta.
Concordo que suicídio não é pecado. É escolha.
Morrer por amor todos morremos um pouco todo dia. Por amor a um companheiro, filhos, familiares, amigos que nos decepcionam; por amor a carreiras interrompidas, saúde perdida, planos pulverizados, sonhos dinamitados. Decepções e perdas diárias que a vida impõe.
Quanto ao amor romântico, motivo alegado pela atriz para seu suicídio, eu o respeito. Habitualmente todos somos vítimas dele.
Passado seu “frison”, a fantasia cede espaço à realidade. É ela quem nos prepara e nos garante a sobrevivência e o dia de amanhã, assim como o amor romântico morto cede espaço ao amor maduro e seguro. Real e humano.