Tristeza

Na Pinheiro Seco, fazenda de amigos meus,

descobri os mirtilos e as caixas de abelhas. Um adoçando o outro.

Foi o que salvou o passeio de moto para o frescor das montanhas.

As uvas não vão dar. As ovelhas fedem. O lago está cheio de sapos. O campo cheio de bosta de vaca. O barulho – de água correndo – da fonte das carpas vermelhas atrapalhou o silêncio. Sem contar os quacquac e os gluglu dos patos, gansos, galinhas e perus. O mau humor e as notícias de Brumadinho me afundaram no sofá. A fragilidade e o descaso  pela vida e o peso da morte me hipnotizaram frente à TV ligada o dia todo. Mal vi as araucárias. Minha coluna entortou e a bateria da moto arriou.

Devia ter ficado e mergulhado nas ondas.

Dia de fazenda

Na manhã gelada,

me esgueiro entre lençóis aquecidos e cobertas fofas.

Prefiro meu dia de fazenda assim … preguiçoso,

entre livros e leite de ovelha. Quente e doce.

Imagino que estejas trotando na terra encharcada, cruzando pastos cortantes,

encilhado no lombo espesso e fedido de Trovão.

Imagino também que estejas se adoçando nas abelhas.

Sei que, preferes seu dia assim … atarefado. Trabalhoso. Judiado.

Pois, descanse em seu trabalho.

Estou ocupadíssima devorando palavras, absorvendo aromas,degustando sabores.

Sentindo a vida no tutano dos ossos.

Quando terminares …

Imagino sobre trotes adocicados e lençóis quentinhos.

 

Anoitece

Quando o sol se esgueira por trás das araucárias e se ajoelha aos pés da montanha,

o balido das ovelhas, o latido dos cães,

o coaxar de sapos e o grasnar de pássaros,

anunciam o achegamento da noite.

As estrelas se posicionam, a lua baila.

A quietude finca os pés na dormência de todos.

Na névoa que envolve e acoberta, ouço a coruja,

também alguns grilos e

o zunir de miríades de pirilampos.

Um cometa e estrelas cadentes incendeiam o breu.

A noite, enfim, se exibe.

Palmas para ela.