Contagem regressiva

Depois de perder a Nina, mais ou menos um ano após perder o Logan, decidi que só teria novamente um animal de estimação quando tivesse espaço e tempo para me dedicar a ele. Na época vivia na ponte aérea Lajeado/RS X São Paulo/SP e quem cuidava dos meus pets era minha assistente doméstica. E ela, tenho de admitir, não era apaixonada por nenhum deles. Com a casa terminada e eu acomodada no meu novo espaço, o momento de adotar a Mia parece que chegou. Fico só imaginando a carinha dela e meu novo dia a dia com uma peluda tão esperada.

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Nina e a conversa das coisas

A gente se comunica e se trumbica o tempo todo. Mais experiente, começo a suspeitar que tudo acontece por algum motivo, e que nada acontece por acaso. Clichezaço!!!! Mas começo a suspeitar da comunicação da matéria. Dias atrás, usei um vestido comprado (um ano antes) para a formatura do meu filho, depois que minha assistente queimou “sem querer” a gola da camisa de seda, comprada na véspera, para ser usada com uma calça rendada. Depois de um ano, o vestido ficou com cara de muito “senhora”  e a dupla camisa de seda + calça rendada estava infinitamente melhor cotada. Pra completar, minha costureira teve problemas de saúde e estava impossibilitada de costurar e reformar, e eu, sem alternativa, tive de cumprir a promessa de um ano antes: usar o vestido verde rendado. Simplesmente um complô cósmico materialista. Só mencionei esta “coincidência” pra falar, de novo, da minha gata Nina.

Minha gata é uma grande tagarela. Como passo um período afastada, minha assistente é quem fica atenta e me repassa o que minha gata quer e pede. Rapidamente, assimilo a simbologia dos miados, poses e atitudes. Tem o miado do “estou com fome”, o miado do “quero colo”, o miado do “quero sair e passear”. A cabeça sobre o notebook ou sobre o livro deixa claro quem deveria estar em primeira opção de atenção e dengo. O arranhar dos sofás, a correria por entre as cadeiras, o se esconder e se deitar de barriga, deixa claro a hora da brincadeira. O ronronar e os grunhidos quase inaudíveis, demonstram o prazer de estar junto. Na noite passada, ela veio de mansinho e se deitou no travesseiro ao meu lado. Normalmente ela fica nos pés ou mais afastada, mas na noite passada, ela literalmente se apossou do travesseiro do meu lado. Fiz chamego nela e deixei-a curtir o momento, já que no dia seguinte eu não estaria mais com ela. Ela ronronava e dormia placidamente. Decidi lhe dar as costas pra continuar lendo. Em segundos escutei um grunhido forte, me virei pra ver o que era e lá estava ela, com a cabeça virada, olhos fixos nos meus, como quem diz “que história é esta de me dar as costas?”. Me revirei e ela voltou a fechar os olhos e dormiu. Ela disse tudo. Aliás, essa gata só falta falar.

Nina e a coleira

Odeio coleiras porque dão ideia de prisão e escravidão. Mas tive de me render a elas. Depois do que aconteceu com meu Lolinho (desaparecido e sumido, possivelmente trucidado e morto), depois de ver minha Nina perambulando pelos terrenos baldios em volta de casa, fazendo de conta que meus chamados  não eram com ela (tipo “O que foi?”, “Falando comigo?”, “Hã?” “Que?”, “Como?”, “Devo estar ouvindo coisas!!!!”), depois de refletir e avaliar seu provável destino sombrio, cheguei à conclusão mais óbvia e objetiva: precisava comprar uma coleira urgentemente e gravar nela nome e telefone. Se um carro não a encontrar primeiro mas uma boa alma, esta saberá a quem chamar quando encontrar Nina. A coleira poderá ser nosso único elo de ligação e contato. Por isso abri exceção. Do que não abro mão – nem exceção – é da liberdade dela ir e vir. Certamente, ela odiou a novidade. Depois de bancar a “gata elástico” na tentativa inglória e inútil de retirar a coleira verde (foi o melhor que pude encontrar) vejo-a desfilando pela casa, jardim e arredores, tilintando abnegadamente. Olho-a compadecida mas aliviada. O timtimtim da sinetinha – presa na coleira – avisa a todos por onde a danadinha anda. Agora, com calma, vou procurar uma coleira que combine com seu jeitinho panterinha Nina Chanel.