Você é fiel?

Dias atrás reli um artigo – que escrevi para um jornal – sobre infidelidade feminina. Assunto espinhoso e cavernoso. Qual teria sido o melhor enfoque: O psicológico, o afetivo, o científico, o jurídico, qualquer um, todos? Como abordar a monogamia, a poligamia, os casamentos modernos em meia folha de jornal?  Divagando sobre o assunto, sem restrição de linhas e sem o enfoque conjugal, pensei no que realmente entendo por fidelidade. Conheço homens que não conseguem ficar muito tempo com a mesma mulher, mas são fiéis a uma mesma marca de carro ou eletrônicos, do tipo “Aqui em casa só entra Wolksvagen e Sony”. Sem falar na fidelidade com o time de futebol ou os próprios amigos (afinal, homem não entrega homem)!! Conheço mulheres que apesar de fiéis a seus maridos e namorados trocam o tempo todo de empregada, cabeleireiro, marca de margarina, extrato de tomate, iogurte. Sempre acreditando que o outro (ou outra) podem ser melhores do que o que tem ou conhece. Quantas pessoas conhecemos que sonham ou desejam o vizinho, o dentista, médico, ator, atriz de televisão ou jogador de futebol, mesmo estando muito bem casados ou acompanhados?

Somos infiéis quando desejamos o novo, o diferente, o desconhecido? Quando exercitamos nosso equipamento sensorial e nossos desejos? Dando asas à imaginação? Soltando fantasias reprimidas? Avaliando possibilidades? Pesando e medindo realidades?

Porque não! É difícil ser fiel? Quem trai mais: o homem ou a mulher? Perguntas espinhosas para uma resposta escorregadia: depende. Depende de quem somos, do que queremos e no que acreditamos.

Conhecendo-se verdadeiramente, saberemos ser fiéis ao que realmente importa.

                                                                                    Los Canales, outubro de 2006.

De que macaco descendemos?

Poucos discutem hoje a validade da teoria da evolução da espécie de Charles Darwin. Por mais que nos choque ou nos extasie, por mais que irritemos religiosos do mundo todo, temos a convicção de que somos a evolução mais bem sucedida de nossos ancestrais macacos. Cada vez mais vemos e lemos sobre experimentos que comprovam semelhanças entre nós e os macacos. Como psicóloga e terapeuta de casais, ao longo dos anos li, sob várias perspectivas diferentes, o funcionamento dos relacionamentos humanos. Teorias psicanalíticas e sistêmicas sempre foram as minhas preferidas. O que uma não explicava bem, a outra dava conta. Anos atrás li um livro excelente chamado “Anatomia do Amor” da escritora e antropóloga americana Helen Fisher, que abordava o amor e suas manifestações, sob a ótica evolucionista e antropológica. Achei surpreendente e pude comprovar na prática (na minha vida pessoal e também com meus pacientes) suas teorias. Realmente, muito do que fazemos é herança instintiva e evolucionária de nossos antepassados e que por terem sido utilizadas, garantiram a preservação da espécie humana. Incluem-se aí desde os jogos de sedução, as raízes do ciúme e da infidelidade, a poli ou a monogamia, entre outras questões. Recentemente chamou-me a atenção o enfoque do psiquiatra norte-americano Frank Pittman, autor do livro “Mentiras Privadas”, sobre a infidelidade e os diferentes modelos ancestrais quanto à forma dos relacionamentos humanos. Ele questiona se o casamento é algo natural na vida da espécie humana. E discorre sobre quatro diferentes modelos de relacionamentos entre os símios: gibões, gorilas, orangotangos e chimpanzés. Segundo ele, gibões são monógamos e podem afugentar os próprios filhotes da relação com sua companheira; os gorilas são polígamos, o macho dominante tem seu harém particular de fêmeas; os orangotangos são solitários e anti-sociais e esporadicamente tem encontros com fêmeas na floresta; os chimpanzés são promíscuos e mantêm-se afastados do grupo de fêmeas e filhotes, e só invadem o grupo para se acasalar com qualquer uma das fêmeas, com aquela que lhes agradar naquele momento. Seguramente conhecemos pessoas que seguem mais ou menos estes padrões de relacionamento. Interessante!!! Surpreendente!!! Será???? Como entender o formato dos nossos relacionamentos sob a ótica evolucionista? Quantas justificativas encontramos para nós mesmos e para nossos cônjuges frente à infidelidade? Afinal, existem numerosas explicações que apontariam causas inconscientes, situacionais ou contextuais para entendermos nossos relacionamentos como também a presença da infidelidade na vida a dois! Possivelmente na teoria evolucionista poderíamos deduzir que o antepassado de nosso companheiro poderia ter sido um chimpanzé, ou quem sabe um gorila. O que é menos pior na nossa sociedade monogâmica? Poderíamos pensar em como seria bom se nosso companheiro fosse descendente de um gibão, mas mais evoluído quanto aos ciúmes dos próprios filhos! Poderíamos encontrar resposta para as queixas de dez entre dez mulheres, de que existem poucos machos disponíveis, e deduzir que eles poderiam ser descendentes dos orangotangos, e que certamente estão escondidos por aí, e só saem esporadicamente para encontros fortuitos com as fêmeas, sem chance para compromissos mais sérios! Será que tudo se resume a nossa evolução? Será que ainda estamos evoluindo? Com certeza, e felizmente, estamos em permanente e constante processo de evolução. Independentemente de a explicação ser psicanalítica, sistêmica ou evolucionista.

                                                                              Los Canales, setembro de 2006.

A infidelidade

Não importa a idade que temos. A infidelidade dói. Dói no corpo, no coração e na alma. Machuca o ego e dilacera a autoestima de qualquer um. Porque ser trocada ou dividida com outra pessoa estilhaça a imagem que fazemos de nós mesmos, de nossos parceiros e do nosso relacionamento. Pouco importa o tempo ou a seriedade da infidelidade. De repente, a verdade que conhecíamos tão bem, não existe mais. Aquilo que pensávamos existir e ser verdadeiro, na verdade não existe. Existia apenas em nosso desejo, em nossa fantasia. Frente à descoberta da infidelidade, um embate interior ganha força. Por um lado a negação: Como seria bom se tudo fosse mentira! Se aquela nossa verdade continuasse sendo a verdade! Mas como é difícil se enganar frente às evidências, frente à verdade nua e crua. Frente à realidade da infidelidade! Quando a imagem construída se destrói fica a sensação de perda, de vazio. O buraco criado pela descoberta da traição muitas vezes derruba quem somos ou o que fomos. Descobrir que nosso relacionamento não era tudo aquilo que pensávamos que fosse, que nosso parceiro não era aquele ser divino e maravilhoso, que nós não éramos tão amadas e indispensáveis como pensávamos ser, nos coloca frente a um sério questionamento. E agora? Durante toda minha vida, direta ou indiretamente, convivi com muitas situações de infidelidade. Independente de quem fosse o traído ou o traidor, da qualidade do relacionamento, da idade dos envolvidos, do tempo de duração do relacionamento ou mesmo, do tempo que durou a infidelidade. Independente de qualquer coisa, a descoberta da infidelidade é um evento catastrófico na vida da maioria das pessoas. Mesmo para aquelas que parecem não sentir ou demonstrar a dor, a traição gera um gosto amargo na boca e crava fundo no coração. As implicações e decorrências da infidelidade em nossas vidas como as brigas, a possibilidade de retaliação ou revide, a dor da perda, a depressão, o congelamento afetivo podendo levar ao divórcio, transtornam a vida pessoal e familiar. Cada pessoa encontrará a melhor forma de lidar com o que aconteceu, pois cada um reage e age à sua maneira, sua história e sua estrutura emocional ou até, sua estrutura financeira. Não existem melhores jeitos, não existem receitas prontas ou kits pós-traição. É engraçado como buscamos explicações e respostas para a infidelidade. Estas nem sempre existem. Quando existem, ou duvidamos ou não acreditamos nelas. Elas não se encaixam em nada, nem mesmo em nossas vidas. Não reservamos espaço para a traição e a infidelidade! Este espaço sempre é roubado, é tomado à força. Mesmo que estejamos vivendo num mundo onde as taxas de infidelidade são altíssimas, em nosso imaginário ela é uma intrusa, uma alienígena, uma visita indesejável. Para a qual nunca estamos prontas ou preparadas. Acreditamos estar imune a ela. Por mais que pensamos já nem amar mais tanto, saber que o outro amava menos ainda pode ser um golpe duro em nosso narcisismo egoísta. Nos faz repensar. Será que amávamos tão pouco? Continuar lendo “A infidelidade”