Enchente do rio

O rio transbordou, bradam todos. Irados, tensos e nervosos.

Sim, o rio transbordou como sempre transbordou,

desde que me conheço como gente, desde que o mundo é mundo.

De tempos em tempos, ele vem mostrar sua força, atender suas e também as nossas necessidades.

É por ele que as cidades do vale vingaram, cresceram e se transformaram em pequenas e vibrantes colônias de gente.

Elas sabem, fingem não saber, mas, maior poder é o dele:

do impressionante Rio Taquari,

que quase some entre os cascalhos, pra ressurgir glorioso e truculento, arrastando árvores, casas, gente. O lixo humano. A vaidade humana. O descaso.

Ele é o que é.

Normalmente calmo, segue ele, dia a dia, encaixadinho na trilha, feito um bonde comportado.

Daí, depois de dias, dias e mais dias e noites, noites e manhãs e tardes e mais noites

açoitado por águas, raios e trovões,

vira um bicho nervoso, tenso e irado, feito nós.

Vira uma locomotiva desgovernada, estridente e alucinada.

Arrasta tudo que cruza seu caminho, sua trilha, seu destino, sua meta.

Senhor de si, ele passa.

Vai-se embora até se reinstalar sossegado e satisfeito. Ele não olha para trás. Não se arrepende.

Apenas responde atavicamente à sua natureza.

Penso em nós.

Em nossa insignificância e onipotência.

Poderíamos aprender com o rio, deixando o rio em paz.

Também nós temos um caminho a seguir. Um destino a cumprir.

Inspiremo-nos no rio.

Rebordosa

Abriram-se as comportas da inspiração,

jorrando sonhos e vontades. Idéias boas e não tão boas vem galopantes; verdades e mentiras, fingem-se de caroneiras em rabos de gatos e de cometas; o querer e o não querer, embustes de dogmas sacrossantos; o fazer e o não fazer, ditadores imperialistas.

Preciso de freios e arreios,

de uma bateia de garimpo,

de redes de proteção.

Juízo, talvez. Mas, quer saber? Vou deixar que sonhos se esbaldem e se espalhem; que a inspiração jorre sua luminosidade desmedida, dourada e cega; que os cometas ofusquem e confundam; que os dogmas revirem nesta divina miscelânia de possibilidades.

Pois há de ser proveitosa esta represa em rebordosa.

Tétris de Palavras

Fiz uma Oficina Literária com um escritor famoso.  Durante o intervalo, tiete que eu era, pedi a ele qual era sua fórmula para escrever. Disse-lhe que, normalmente meus textos nascem desconjuntados, repetitivos, cheios de erros e redundâncias, que preciso deixar o texto descansando, pra sedimentar ideias e palavras, depois passar foice, machado, facão, estilete, todas as lâminas de corte possíveis, quem sabe, limar e lixar arestas, preposições e artigos. Enfim, escrever – pra mim – é trabalho duro. Olhou-me ele – com o rabo do olho – e disse-me que pensava o texto todo e quando o escrevia, as palavras iam se encaixando sem maiores problemas. Tudo saía da cabeça encaixado e ia para o papel e pronto. Artigo, crônica quase no processo de finalização. Uma leitura. Um último ajuste de acentuação. Pronto. Ele retornou para a sala de aula e eu, terminei meu café, imaginando o jogo Tetris.  Aquele dos blocos que vão caindo e se encaixando. Imaginei meu Tetris de Palavras me dando Game Over o tempo todo. Péssima nos jogos. Péssima nas palavras. O dele só dando “Congratulations” entre fogos de artifício e estrelinhas. Voltei pra aula admirada com a capacidade – petulante – dele. Depois, fiquei injuriada – entre outras coisas – quando ele afirmou não existir este negócio de inspiração pra escrever. Tem que sentar e escrever. Pronto, deixei de ser tiete. Pra escrever bem, preciso estar inspirada. Vou passar a vida batendo o pé por esta verdade. Escrever, posso escrever sempre. Mas, escrever bem, só inspirada. E pra passar as lâminas de corte, preciso estar mais inspirada ainda. Não lembro qual escritor disse que depois de escrever o primeiro capítulo de um romance, ele reduzia-o a um, no máximo, dois parágrafos. Demais, não? Aliás, grandes nomes da literatura nacional e internacional incentivam a escrita sucinta, objetiva e trabalhada.  Por ora, consegui navalhar – sem dor ou arrependimento, mas inspirada até o último fio dos meus brios – o escritor da Oficina Literária da lista dos meus preferidos. “Congratulations, Suzete”.

Fujonas

Tem dias que tenho assunto

Não tenho palavras.

Ou o assunto é difícil,

Ou simplesmente

as danadinhas – as palavras –

Brincam de esconde-esconde

ou cabra cega.

São gigantes indomáveis em fuga.

Fico muda,

quando muito, gaga.

Disléxica, talvez.

Preferiria a sonora dislalia.

Dis-la-lia. Lia.

Então vou ler, caçando fujonas.

Às vezes, as encontro

em parágrafos que não são meus

em ideias, não minhas.

Elas sabem onde se esconder.

Deixo-as em paz.

Compras de Natal

Lá fora a típica garoa e o trânsito paulistano, há oito dias do Natal, três dias da viagem de férias, em plena segunda-feira. Praticamente só falta fechar a mala e dar os presentes. Mas… não é bem assim, ficou coisa pra trás e não tenho tempo a desperdiçar. Terça e quarta também estão comprometidos (e olha que nem trabalho fora de casa). Adoro Natal. Do que não gosto é da parte dos presentes. Nunca sei o que comprar, quanto gastar, o que dar. Dar dinheiro parece muito impessoal, mas ainda acho, no final das contas, que é o melhor. Quando dou presente, vejo nos olhos ou a satisfação ou a frustração do presente desembrulhado. Logo me vem à cabeça “e se eu tivesse comprado aquilo ou aquele outro ou porque não comprei um envelope bem bonito e coloquei uma quantia X de dinheiro?”. Claro que a quantia X talvez não satisfizesse ou aquilo e aquele outro também não agradasse. E por mais que faça uma pesquisa de interesses, meses antes da data festiva, nem sempre o que foi escolhido, foi o desejado. Então, comprar presente, pra mim, depende de inspiração. E muita. É olhar algo e nele encontrar o presenteado. É quase como encontrar o pires da xícara, a meia do tênis, a palavra da poesia, o conhaque e a taça, o tamanho certo, a medida exata, a cara metade, o acessório perfeito. Sinceramente, acho que hoje não é um dia auspicioso pra tarefa em si. Vou procrastinar sim, pelo bem de todos. Amanhã. Talvez mais tarde, quem sabe. Agora vou tomar um cafezinho e comer um bombom. Complementariedade é tudo. Inspiração, idem.

café com brigadeiro

Inspiração

Fazer scrap exige no mínimo três coisas: material adequado, conhecimento de técnicas variadas e inspiração para criar. Material a gente compra, cata, guarda, troca. Conhecimento de técnicas variadas a gente aprende. E inspiração para criar a gente ou tem naturalmente, do tipo, “Hoje acordei cheia de ideias.” – é  aquele dia em que os papeis certos caem na mão no exato momento em que você imagina a página, os adereços complementares casam como uma luva no todo – ou você precisa estimular a criatividade e a imaginação.

Como nem todo dia é dia, procuro sempre ter material atualizado e variado em mãos para aguçar a alma do projeto. Sempre que posso compro livros e revistas sobre scrap. Tenho alguns livros e revistas importados, mas algumas revistas nacionais cumprem bem este papel. Então, naqueles dias vazios de luzinhas luminosas é dia de folhear e   pescar ideias para iniciar a imersão no mundo Scrap.