Ecologia caseira

Tenho um marido ecológico, como diria uma amiga, cujo marido é igual ao meu. Aposentado, é ele que insiste em ser o jardineiro da casa. Numa rápida avaliação diria que ele é ótimo com as gramas: no corte, poda e adubação. Com relação aos canteiros, uma lástima. Tudo que germina vai crescer e florescer. Desde as sementes defecadas e espalhadas pelos pássaros, até as plantas que brotam, crescem e se esparramam por todos os lados. Ninguém pode mexer. É a natureza. E assim, as fênix mais parecem buxos gigantes, as Costelas de Adão sobem paredes, os bambus viraram paliteiros no jardim, as experiências com plantas se reproduzem em escala industrial, as orquídeas viraram uma cidade de vasos, e, sempre, segundo ele (de vez em quando, segundo eu) tem uma orquídea raquítica florescendo. Tem os dinheirinhos e outros inços, que de vez em quando, são tirados à faca. Nossos amigos, quando vem nos visitar, sofrem pra chegar na área de entrada da casa: além da escada em V (um erro grosseiro de arquitetura) ainda precisam desviar das Costelas de Adão, pois é inevitável não roçar nas folhas gigantes da planta que avança sobre os degraus. Não sei exatamente o que aconteceu, pois fui eu quem comprei as Costelas de Adão, pensando que fossem do tipo mini: ou me enganaram/enganei com as mudas ou foi excesso de adubo. Só sei que minhas plantas favoritas são as Senhoras da Entrada da casa, postadas feito cavaleiros medievais em suas armaduras de aço. Depois de anos tolerando todos os excessos pelos quatro cantos da casa e abrindo mão de um dos grandes prazeres de estar e contemplar um belo jardim, dei um ultimato: ou meu marido  muda o jardim ou eu mudo. Dia a dia vou olhando com o rabo do olho todas as possibilidades e começo a projetar uma enorme reforma no jardim. De uma coisa, tenho certeza. A transformação vai acontecer. Ou muda o jardim, ou mudo eu. De casa.

Jardinando 1

A fase é de desbravamento. Ou, de reconhecimento.

Jardinagem, ou paisagismo, como preferir, é assunto antigo entre os temas de interesse. Lembro do meu gorjeio de menina moça, junto ao meu primeiro namorado (e ainda marido, 42 anos depois) do quanto gostava de plantas e jardins. Gostava sim. Não era mentira pra encantar nem fisgar alguém. Os anos passaram e com eles vieram outras  fases e interesses: os filhos pequenos, a faculdade, a carreira de psicóloga, o casamento, as viagens, a arte, o artesanato, a literatura, as crises, os conflitos, o dia a dia cheio de mistérios, metas, sonhos e realizações.

As constantes mudanças/transferências profissionais e a vida em apartamentos ou casas alugadas não me envolveram com a questão da porta para fora de onde eu e minha família vivíamos. Mantinha o que me era ofertado/alugado. Até nos mudarmos para nossa casa no interior do RS.

Nossa primeira casa, nosso primeiro jardim.

Quem inicialmente se envolveu com o jardim foi meu marido, para quem, jardinagem era sinônimo de força. Força para carregar pedras e terra e plantar o gramado e todo tipo de plantas. Deste primeiro jardim, lembro-me dos crisântemos roxos, do Buganvile cor de rosa, das Unhas de Gato, das árvores frutíferas (bergamoteira, jabuticabeira e bananeiras) e da cerca viva de cipreste. Felizmente a carreira de engenheiro e de jardinista/jardineiro/paisagista não se conciliaram. Fui autorizada a assumir o jardim. Tão logo foi possível, contratei uma renomada paisagista (mas nem tanto, já que esqueci o nome da dita cuja). Com ela veio a equipe de jardineiros, dois caminhões de plantas, terra, pedras e seixos rolados e cinco dias de muito esforço. Para eles. Coube a mim a agradável tarefa de acompanhar o andamento dos trabalhos. Desta época sobraram as pedras, as Dracenas, o Croton vermelho e as Strelitzas. Os Bambus Mossôs, as Moreias, os Rabos de Gato e as Bromélias Imperiais sucumbiram ao clima, à cachorra Aisha e ao passar do tempo.  Com a reforma dos pisos e a troca da pedra São Tomé, na beira da piscina, veio a terceira versão paisagística, sob a tutela da amiga Marlise, proprietária de um dos maiores e mais belos viveiros de plantas do RS: a Floricultura Toque Especial.  Foi ela quem trouxe as Fênix e as Cicas. Os Aspargos, as Dracenas Verdes e as Gramas Pretas. Mais pedras e o remanejamento das Dracenas Rosas. E os maravilhosos Kaizucas. Surgia então a ideia de um jardim perene, de pouca manutenção e alta resistência. Com o passar do tempo veio a última versão do jardim, com o acréscimo dos Cactos, das Orquídeas em alguns recantos e as Algarves na sacada dos fundos de casa. E este jardim tem se mantido bem nos últimos 12 anos, que, além das podas frequentes e do corte da grama Esmeralda, requer agora uma pequena repaginação. Com a adubação anual (realizada entre maio e junho) as plantas agigantaram, os cactos tomaram conta dos seus  e de outros espaços e as orquídeas tombaram junto com os xaxins que as acomodavam.

Pensei em adequar o jardim. O primeiro passo seria contratar um jardineiro 4 horas por semana para dar novos contornos aos quatro cantos do jardim. Ele veio apenas uma vez. Choveu, choveu, surgiram outros compromissos, desisti. Do pouco que fizemos foram retirados os excessos de cactos e a arrumação do antigo canil/hospital das plantas. A poda e adubação da bergamoteira e da jabuticabeira. E a redução substancial do bananal. Foi o que deu para fazer neste momento.

Hoje preparo um outro jardim, num outro lugar, para outra vida.

Porque assim é a vida. Um eterno e constante vir a ser.

Repaginando o jardim 1

O tempo passou. Conforme tínhamos planejado, arregaçamos as mangas – meu marido e eu – e fizemos o nosso jardim. Nós mesmos. Sem ajuda alguma. Algumas coisas deram certo, outras não. A maioria não deu. Pelo menos, a entrada de serviço – feita com uma seleção de arbustos – ficou exatamente como tínhamos imaginado. Este ano, possivelmente. faremos a primeira poda e modelagem.

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Costumo dizer que não basta apenas ter vontade pra fazer jardim. Tem que ter conhecimento, equipamento e principalmente, força. Força física mesmo. Foi aí que nossa vontade e nosso jardim se perdeu. A natureza cobrou o preço pelo amadorismo e improviso e avançou. Somadas à falta de força, juntou-se a falta de tempo e regularidade. Jardim precisa de carinho e atenção constantes. O tempo da natureza não é o mesmo tempo da gente. Você até pode ficar um tempo sem fazer nada, descansando ou esperando pelo melhor clima ou temperatura. A natureza não espera. Ela simplesmente acontece. Quando a gente percebeu, ela escapou das nossas mãos, se rebelou e tomou conta.

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Desde sempre jardins me encantam. Adoro o verde, o colorido e o perfume das plantas. Adoro pisar na grama recém aparada, colher frutos das árvores e fazer arranjos de flores com o que tem no jardim. Sem contar que um jardim bonito, planejado e bem arrumado é um dos melhores lugares para se ficar, meditar, orar e agradecer, apreciar e conviver entre amigos, família e amores. E não foi nada disso que conseguimos com o nosso jardim autodidata. Ele me deixava nervosa e deprimida. Fui a primeira a jogar a toalha. Precisávamos de ajuda. Difícil foi convencer o marido. Ainda é difícil, mas agora, sem volta. O jardim já está nas mãos de dois experientes jardineiros.

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Coube a uma paisagista apenas a feitura do cactário. A logística de carregar terra, areia, pedras e plantas para o topo do escritório exigia uma fenomenal força física. Um dia de trabalho, dois homens num sobe e desce frenético, para enfim, o cactário ganhar forma.

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Refazer o jardim, neste momento, tem algumas vantagens: de tanto olhar e experimentar já sei o que dá e o que não dá no nosso terreno. Das plantas que plantamos, nasceu um grande amor por algumas: destaco as costelas de Adão (Monstera deliciosa)e as orelhas de elefante pretas (alocasia gigante orelha de elefante). Foram elas quem nortearam toda a reforma da frente de casa, junto com a compra de 3 vasos pretos enormes. Gosto de pensar que a frente e os fundos da casa precisam conversar entre si. Por isso os vasos foram distribuídos na área da piscina(1) e a frente de casa(2). Dois bambus mossôs + grama amendoim para revestimento do canteiro principal + as resistentes babosas finalizaram a entrada principal. Agora é esperar e ver como fica.

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Com certeza, a reforma do jardim manteve nossa ideia original. A concepção inicial era paisagismo sem modismo. Queríamos um jardim que tivesse personalidade, usando  plantas comuns, relativamente baratas, mas principalmente, plantas de que gostamos. A reforma segue em frente. O luxo de que disponho são um a dois dias por semana com a ajuda dos dois jardineiros + um orçamento enxugado + muitas plantas pra reaproveitar.

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Próxima etapa: a área da piscina.

O nascimento de um jardim

jardim Lajeado 4Sinceramente, acho difícil fazer um projeto paisagístico e não alterar os planos. Tratando-se de um jardim, então, parece uma tarefa simplesmente impossível!!! Na casa antiga em que morava, ao longo de 15 anos, fiz várias alterações no jardim, contratei duas paisagistas em momentos diferenciados, até assumir eu mesma, sua última reforma. Óbvio que é mais fácil fazer pequenas adequações e adaptações, do que começar o jardim do zero. Por isso, é importante saber que o jardim é um organismo em constante e freqüente processo de transformação. Ele nunca fica pronto!!!! E, assim como nós, ele passa por diferentes fases e precisa se readaptar o tempo todo. Mas, a natureza ensina tudo que precisamos saber. Basta ser observador e atencioso.

jardim Lajeado 7E o mais importante, que se goste de trabalhar com plantas. Elas diferenciam o amor verdadeiro do amor condicional.

jardim Lajeado 5Jardinagem tem que ser um hobby prazeroso, jamais uma tarefa estafante e obrigatória. Tem planta que gosta de sol, tem aquela que gosta de sombra, outras adoram muita água, outras só um tantinho. Algumas precisam do sol para realçar a cor, outras precisam de adubos e complementos pra ter uma floração abundante, outras, só precisam ser podadas … Ou seja, cada planta é singular e exige ser reconhecida, entendida e respeitada. Costumo conversar com as minhas, dar bom dia aos pássaros, andar com pés descalços no gramado, abraçar as árvores, acariciar as folhas, observar atentamente a transformação da flor em fruto. Esta é minha forma de meditação. E dela, não abro mão.

jardim de Lajeado pássarosUma das coisas que mais sinto falta na casa nova é do jardim maduro, harmonioso e reconfortante que foi estudado e trabalhado ao longo de muitos anos. Vejo-me repetindo este processo na casa nova. E por mais que compre e plante espécies crescidas e adultas, o conjunto revela a imaturidade do jardim embrionário que começa a despontar do terreno arenoso, plano e estéril. A única habitante antiga – que parece guardar na casca grossa e enrugada, a alma do meu novo endereço – é uma Aroeira plantada por algum funcionário encarregado de plantar algo nas calçadas do empreendimento imobiliário lançado muitos anos atrás. O lugar escolhido por ele é dela por direito e respeito. É ótima tê-la zelando por nós do lado de fora, em frente à casa.

jardim sombra

É a partir dela que todo nosso jardim está nascendo.