Maré alta

Manhã da cor do chumbo.

Quero-queros também. Eles caminham junto.

As corujas só observam. Giram-se atentas nesta manhã acabrunhada.

O céu floreado de cinza e branco. Bordado em azul.

O mar como espelho. Sujo, cinza, contido. Sentido.

Alguns banhistas chegam junto. Chego também.

Muitos não veem, não escutam, não falam.

São zumbis contemporâneos de celular na mão.

Cinzentos. Contidos. O mar à frente não encanta.

Está indeciso. Estamos todos nós.

Não sabe o mar, se jorra em ondas ou se contenta com a serenidade de lago.

Também não sabemos.

Foi trator e carregou a praia. Inclinado e desajustado ficou o caminho.

A corrente marinha leva e trás. Pra frente e pra trás.

Não sei o que é. Mas algo se passa nas profundezas do mar.

Também ele, hoje amanheceu errado.

Um espelho o mar de Jurerê.

 

 

Cocorocas ao mar

A água estava boa?

Estava muito suja. Digo eu.

Choveu demais, comenta o menino das cadeiras e guarda-sois.

O mar de Jurerê, cor de esmeralda tom de pedra aventurina.

Um xixi de mar calmo e límpido, num vai e vem de ondas comportadas. Sempre.

Elas podem até se erguer pra ver a restinga. Uma espiada marota.

Mas, nada de aflições:

um óculos perdido, alguns goles d’água, olhos avermelhados, cabelos ressecados. Mareados.

Marolinhas na imensidão do mar.

No calor da temporada, chuvaradas barulhentas assustam.

Porém, sujam de verde de mato o mar de esmeraldas.

Nestes dias quentes e sujos

mais peixes vem ver a estranheza do lugar.

Quando a gente vê, vê peixe caçando peixinho, peixe saltando,

xispando em disparada e surfando ondas junto da gente, assim:

a uma ondinha de distância.

O risco de atropelamento é grande. Sequer pedem desculpas.

Cutucos gratuitos. Meio alarmantes.

Se fosse em Boa Viagem, no Recife, haveria gritaria: tubarão na água.

Por aqui, a gente sabe: é cocoroca na água.

Saltitando feliz brincando de verão.

A gente brinca junto.

Inquilinos

Mal e mal o sol dá pinta de verão e meus inquilinos lagartos aparecem nos fundos de casa como se donos fossem. Trepam na jabuticabeira e pitangueira e servem-se como quem hibernou o inverno todo. Entendo os Juquinhas e Chiquinhos que circulam de lá para cá, rastejando por detrás das plantas sempre de olho em algum ovo de algum desavisado passarinho. Observo a rapidez com que escapam das bicadas e revoadas de pais esbaforidos tentando salvar sua pequena prole revestida de ovo. Às vezes torço pelos lagartos; às vezes, pelos passarinhos. Verdade é, que no verão os lagartos se desentocam e andam abestalhadamente por todo Jurerê. Se a gente andar com calma e observar, verá um rabo aí, um bocão ali. Se a gente olhar distraído pode pensar que são mini-jacarés correndo e rebolando espalhafatosamente, jogando pernas e garras por todos os lados, pra chegar o quanto antes onde quer que eles queiram chegar. Cada vez menos, eles estão conseguindo chegar. Assim me parece. Estão morrendo atropelados. Apedrejados. Açoitados. Não sei bem como eles morrem. O que sei e vejo cada vez mais, são Juquinhas e Chiquinhos mortos, sendo devorados por urubus e outros carniceiros nos terrenos baldios ou meio fios das calçadas. Cada vez mais vejo menos lagartos ao meu redor e ao redor de todo bairro.

Há pouco, Viviane me disse que havia sangue no meio fio, em frente à casa. Fui ver. Desde cedo nenhum sinal do Lagartão, o papai de todos. Possivelmente foi morrer no terreno baldio ao lado de casa. Quero acreditar que não. Afinal, ele é o pai da família que vive debaixo da escada dos fundos de casa. Sempre gracioso tomando banho de sol de perfil. Assustador quando sobe no salto das patas e infla o corpo para parecer maior do que é. Sem medo de estar errada, Lagartão é lindo. Como um lagarto deve ser. Apesar dos sustos que ele já me deu, – como daquela vez em que entrei na cozinha e dei de cara com ele bisbilhotando próximo ao balcão – espero que tenha sido apenas um arranhão. Daqueles que só deixam cicatrizes. Tomara!!!! Gosto da família que vive sem pagar aluguel debaixo da escada dos fundos de casa. Eles pagam com a graça de ser quem são: lagartos. Feios e asquerosos. Mesmo assim, meus vizinhos de verão.

Tomara que Lagartão apareça. Também não tenho visto Lucinda. E os pequenos, Juquinha e Chiquinho, devem ter crescido e andam rebolando pelo bairro. Torço para que todos voltem. Já já o verão acaba e o inverno chega.

É quando fechamos a entrada da casa debaixo da escada. Por medida de segurança.

“timming”

caminhando pela orla de jurerê

eis que encontro na areia, baiacus, tartarugas e pinguins.

mortos.

o mar os expulsou, ou simplesmente,

perderam o “timming”.

a onda voltou e eles ficaram a mercê.

gaivotas, urubus, caranguejos e fragatas

lembraram-me:

a cadeia alimentar é implacável.

sigo meu caminho.

A sobrevivência não admite vacilos.

Engolidos

Cuidado: Jurerê pode nos engolir!

Quando a gente vê, está de Havaianas e vestido rasgado no shopping,

calça apertada, cabelo espigado. Fora de corte.

Fora de moda.

Fora de cena. Em todos os sentidos e aspectos.

Tudo se resume à casa, praia, bairro.

Aqui a gente se basta.

Aqui a vida se compacta.

Jurerê se agiganta e nos completa.

Os vizinhos mais presentes são os lagartos,

as corujas, gaivotas e gralhas azuis. O mar.

Esporadicamente, golfinhos apontam no horizonte.

Absorvidos na bolha, o mundo nos assalta, quando chega a temporada.

Nos embrenhamos, todos,

de lagartos a golfinhos, em nosso mundinho

reduzido na mais íntima clausura.

A tranquilidade dos dias ganha a noite para revermos amigos, hábitos e vícios.

Somos engolidos pela humanidade que existe no simples existir.

Nos reconhecemos como iguais. E,

todos, absolutamente todos,

aguardamos a temporada acabar, o bairro silenciar, e a bolha, enfim,

se fechar.

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2017

No beiral de casa, uma rave.

Na jardim de casa, um soutien preto sobrado e esquecido

dependurado na corticeira.

No quintal junto ao mar azul esverdeado,

oferendas pra Iemanjá, pernas entrelaçadas, beijos vorazes, corpos descontrolados, mãos bobas, gritos, gemidos, poses na escuridão, farofada de branco e amarelo. Indecências e leviandades.

Lixo. Luxo. Luxúria.

Jurerê se transforma por estes dias.

Como lembrou a amiga Ivone. Uma quase

– Sodoma e Gomorra –

Tempos Bíblicos em pleno século XXI.

O sol queima. O ácido da inveja infesta olhares e perfura pneus dos carros esportivos exibidos junto às putas, prostitutas, modelos, garotas de programa, desfilando em saltos maiores que saias. Namoradas?

A gula que transborda num excesso de tudo: volumes, tamanhos, quantidades.

A orgia pagã reina absoluta

em cada minuto do primeiro dia do resto do ano que está por vir.

Consolo e grito pela dor do desconhecido

Da vida que atropela,

da guerra que pode ser o viver

– com o outro, consigo mesmo, com a própria humanidade –

Melhor festejar cada minuto do primeiro dia e noite de 2017,

As luzes dos fogos, a ilusão da festa da vida.

Porque do resto do ano nada se sabe.

Comemoremos, então.

 

 

Escreva sobre o que você quiser

Estas foram as palavras de Aluísio Dobes quando me ofereci para escrever um artigo para o jornal da AJIN. Isto soou como estacionamento vazio, buffet de comida, outlet em liquidação … são vagas demais pra escolher, comidas e roupas a perder de vista … e, de foco. Primeiro pensei em escrever sobre livros, sobre a própria Biblioteca que a AJIN mantém em suas dependências. Tem livro bom demais empoeirando nas prateleiras. Constam mais de 400 títulos cadastrados, a grande maioria, livros de excelente qualidade literária, outros, perfeitos para o simples deleite da leitura. Quem gosta de ler, vá lá. Você será bem recebido e servido.

Talvez esta seja uma “vaga” a ser preenchida mais adiante. Neste momento, as palavras insistem em me levar a um outro buffet: e se eu, nova moradora lhes mostrasse um pouco da Jurerê, que de pouco em pouco, estou aprendendo a amar? Ousadia minha, eu sei – mal consigo explicar onde fica a minha rua, que dirá qualquer outra – Uararas, com acento no ultimo A. Faz mais de 30 anos, que meu marido e eu, escolhemos envelhecer aqui, ou pelo menos, passar anos aprazíveis ao som das ondas. Pra quem já viveu em São Paulo, Rio e outras capitais, a sinfonia das marolinhas – normalmente inofensivas – tornam-se ainda mais vivazes com o rufar das gaivotas e os quero-queros, o estrilar das vozinhas infantis desafiando a vigilância dos pais, o zum zum dos caminhantes e veranistas … sem contar nas corujas e em todo o verde que nos cerca e abraça de encontro ao mar.

Me perguntam se estou gostando daqui. Cheguei pra ficar em meados de outubro de 2013, e desde então, minha vida tem sido construir e finalizar a nossa casa e consolidar um novo lar para viver. Ou seja, ainda estou engatinhando quanto a curtir o bairro. (Tenho de admitir que pensei inúmeras vezes chamar o caminhão de mudanças e dar marcha a ré nos nossos antigos planos, mas …) Tirando o barulho de obra e o infernal aspirador dos jardineiros, o silêncio, a segurança e a tranquilidade, tem compensado este período de adaptação e estranheza. Sem contar na enseada de areias limpas e do mar esverdeado que se fazem de quintal da casa de todos nós. Mesmo sem ir, sabemos do tesouro a céu aberto que temos logo ali, do ladinho. E o mar, o mais ilustre dos festeiros, nos convida o tempo todo. Concordo o quão difícil é sair da zona de conforto e de casa, quando o cansaço pede cama. A preguiça pede um sofá. A alma, repouso. Mas, vou. Todos deveríamos ir. Chegando na passarela que sobrevoa o verde entre as casas e o mar, sinto o ar revigorar os pulmões; o mar festeiro ruge, acalma e abranda as preocupações, a areia massageia os pés, a agua geladinha do mar do inverno lambe e acarinha a pele esquecida e maltratada. Catar conchas, além de exercitar o corpo, exercita o olhar perfeccionista. Você já reparou o quanto nossas conchas são imperfeitas, e infinitamente maravilhosas em seus formatos, cores e texturas? Temos um verdadeiro SPA para o corpo e para alma, ao alcance dos pés, das mãos e do olhar. Se permita este “break” na rotina, na vida, no dia. Seu sorriso vai agradecer.

Quanto aos vizinhos e amigos, preciso primeiro me desculpar pelo barulho e bagunça de obra. Estou quase terminando. Como bem disse uma vizinha, amiga de outra época e lugar: ninguém tem nada a provar pra ninguém. Todos chegamos aqui. Cada um por seus méritos e motivos. E fico feliz ao ser cumprimentada num gesto singelo de boas vindas por vizinhos – ainda – estranhos, no Passeio dos Namorados. Tem como não se apaixonar por Jurerê?