Mar de outono

O rugido do mar me intimou.

Estive ausente. O ouvi quando cheguei ontem.

Dormi ninada e mimada por ele. Cantiga de ninar este mar que aprendi a amar.

Um sono embalado e cadenciado. Sonho bom.

Fui. Final de tarde. Final de verão.

O outono paira no ar. No mar.

As montanhas, ao longe, também.

Azul grafite. Marinho. Celeste. A água “tíbia”.

Nada de golfinhos, nem peixes . As ondas se desenrolam a meus pés.

Na areia nada de conchas. Apenas o reflexo do céu.

Espelho de cores e formas.

Amarelo, azul e branco pintado de peixes e gaivotas, estilizadas ao vento.

A noite cai rápido. O estranho agito na maré que sobe,

nos pássaros que se afastam, nos ciclistas e passantes que aceleram.

O dia finda. Arranco a roupa do corpo

me perco na noite a beira mar.

A água, continua tíbia.

O olhar

Acordei com o sol cegando o olhar.

Fui caminhar.

Distraída, vi no olhar dos caminhantes quatro golfinhos ao mar.

Me perdi na dança sincronizada. No espetáculo ensaiado.

Seria para nós? Seriam dois casais? Amigas? Amigos?

Ninguém parece se importar.

Olhamos todos, uns aos outros,

Inebriados uns com os outros.

E todos, seguimos em frente.

Eu, os caminhantes e os golfinhos.

O dia segue. Voltamos pra casa.

Perdi os golfinhos do olhar.

Maré alta

Manhã da cor do chumbo.

Quero-queros também. Eles caminham junto.

As corujas só observam. Giram-se atentas nesta manhã acabrunhada.

O céu floreado de cinza e branco. Bordado em azul.

O mar como espelho. Sujo, cinza, contido. Sentido.

Alguns banhistas chegam junto. Chego também.

Muitos não veem, não escutam, não falam.

São zumbis contemporâneos de celular na mão.

Cinzentos. Contidos. O mar à frente não encanta.

Está indeciso. Estamos todos nós.

Não sabe o mar, se jorra em ondas ou se contenta com a serenidade de lago.

Também não sabemos.

Foi trator e carregou a praia. Inclinado e desajustado ficou o caminho.

A corrente marinha leva e trás. Pra frente e pra trás.

Não sei o que é. Mas algo se passa nas profundezas do mar.

Também ele, hoje amanheceu errado.

Um espelho o mar de Jurerê.

 

 

Cocorocas ao mar

A água estava boa?

Estava muito suja. Digo eu.

Choveu demais, comenta o menino das cadeiras e guarda-sois.

O mar de Jurerê, cor de esmeralda tom de pedra aventurina.

Um xixi de mar calmo e límpido, num vai e vem de ondas comportadas. Sempre.

Elas podem até se erguer pra ver a restinga. Uma espiada marota.

Mas, nada de aflições:

um óculos perdido, alguns goles d’água, olhos avermelhados, cabelos ressecados. Mareados.

Marolinhas na imensidão do mar.

No calor da temporada, chuvaradas barulhentas assustam.

Porém, sujam de verde de mato o mar de esmeraldas.

Nestes dias quentes e sujos

mais peixes vem ver a estranheza do lugar.

Quando a gente vê, vê peixe caçando peixinho, peixe saltando,

xispando em disparada e surfando ondas junto da gente, assim:

a uma ondinha de distância.

O risco de atropelamento é grande. Sequer pedem desculpas.

Cutucos gratuitos. Meio alarmantes.

Se fosse em Boa Viagem, no Recife, haveria gritaria: tubarão na água.

Por aqui, a gente sabe: é cocoroca na água.

Saltitando feliz brincando de verão.

A gente brinca junto.

Inquilinos

Mal e mal o sol dá pinta de verão e meus inquilinos lagartos aparecem nos fundos de casa como se donos fossem. Trepam na jabuticabeira e pitangueira e servem-se como quem hibernou o inverno todo. Entendo os Juquinhas e Chiquinhos que circulam de lá para cá, rastejando por detrás das plantas sempre de olho em algum ovo de algum desavisado passarinho. Observo a rapidez com que escapam das bicadas e revoadas de pais esbaforidos tentando salvar sua pequena prole revestida de ovo. Às vezes torço pelos lagartos; às vezes, pelos passarinhos. Verdade é, que no verão os lagartos se desentocam e andam abestalhadamente por todo Jurerê. Se a gente andar com calma e observar, verá um rabo aí, um bocão ali. Se a gente olhar distraído pode pensar que são mini-jacarés correndo e rebolando espalhafatosamente, jogando pernas e garras por todos os lados, pra chegar o quanto antes onde quer que eles queiram chegar. Cada vez menos, eles estão conseguindo chegar. Assim me parece. Estão morrendo atropelados. Apedrejados. Açoitados. Não sei bem como eles morrem. O que sei e vejo cada vez mais, são Juquinhas e Chiquinhos mortos, sendo devorados por urubus e outros carniceiros nos terrenos baldios ou meio fios das calçadas. Cada vez mais vejo menos lagartos ao meu redor e ao redor de todo bairro.

Há pouco, Viviane me disse que havia sangue no meio fio, em frente à casa. Fui ver. Desde cedo nenhum sinal do Lagartão, o papai de todos. Possivelmente foi morrer no terreno baldio ao lado de casa. Quero acreditar que não. Afinal, ele é o pai da família que vive debaixo da escada dos fundos de casa. Sempre gracioso tomando banho de sol de perfil. Assustador quando sobe no salto das patas e infla o corpo para parecer maior do que é. Sem medo de estar errada, Lagartão é lindo. Como um lagarto deve ser. Apesar dos sustos que ele já me deu, – como daquela vez em que entrei na cozinha e dei de cara com ele bisbilhotando próximo ao balcão – espero que tenha sido apenas um arranhão. Daqueles que só deixam cicatrizes. Tomara!!!! Gosto da família que vive sem pagar aluguel debaixo da escada dos fundos de casa. Eles pagam com a graça de ser quem são: lagartos. Feios e asquerosos. Mesmo assim, meus vizinhos de verão.

Tomara que Lagartão apareça. Também não tenho visto Lucinda. E os pequenos, Juquinha e Chiquinho, devem ter crescido e andam rebolando pelo bairro. Torço para que todos voltem. Já já o verão acaba e o inverno chega.

É quando fechamos a entrada da casa debaixo da escada. Por medida de segurança.

“timming”

caminhando pela orla de jurerê

eis que encontro na areia, baiacus, tartarugas e pinguins.

mortos.

o mar os expulsou, ou simplesmente,

perderam o “timming”.

a onda voltou e eles ficaram a mercê.

gaivotas, urubus, caranguejos e fragatas

lembraram-me:

a cadeia alimentar é implacável.

sigo meu caminho.

A sobrevivência não admite vacilos.

Engolidos

Cuidado: Jurerê pode nos engolir!

Quando a gente vê, está de Havaianas e vestido rasgado no shopping,

calça apertada, cabelo espigado. Fora de corte.

Fora de moda.

Fora de cena. Em todos os sentidos e aspectos.

Tudo se resume à casa, praia, bairro.

Aqui a gente se basta.

Aqui a vida se compacta.

Jurerê se agiganta e nos completa.

Os vizinhos mais presentes são os lagartos,

as corujas, gaivotas e gralhas azuis. O mar.

Esporadicamente, golfinhos apontam no horizonte.

Absorvidos na bolha, o mundo nos assalta, quando chega a temporada.

Nos embrenhamos, todos,

de lagartos a golfinhos, em nosso mundinho

reduzido na mais íntima clausura.

A tranquilidade dos dias ganha a noite para revermos amigos, hábitos e vícios.

Somos engolidos pela humanidade que existe no simples existir.

Nos reconhecemos como iguais. E,

todos, absolutamente todos,

aguardamos a temporada acabar, o bairro silenciar, e a bolha, enfim,

se fechar.

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