Fisgando Nemo

Só mesmo um louco esperançoso e “non sense” pra querer ganhar a vida e sobreviver com literatura. Livrarias, ao mesmo tempo em que me seduzem, me deprimem. Sinto-me pequena e insignificante em meio a tantos títulos, nomes e enredos. Formatos, gêneros e ideias. Sumo devagar por entre as prateleiras e as palavras. Desisto de olhar os mais vendidos, passo a mão sentindo as texturas das capas e saio sem levar nada. Nada não. Saio, levando sentimentos conflitantes e um questionamento inquietante: como este povo consegue editar, ser reconhecido e tornar-se um sucesso literário? Qualquer livro, me parece ser Nemo no cardume. Como ser fisgado? O primeiro livro cheira à teimosia, obstinação, ilusão de crente. Como disse um amigo, escritor como eu, “pensei que meu livro fosse a sensação nas praias de norte a sul neste verão.” A realidade, para quase 100% do cardume, passa longe deste verão.

Aventuras Literárias

Um passeio imperdível nos shoppings são as livrarias. Nos últimos anos, elas estão mais modernas, mais informatizadas, mais iluminadas, coloridas e muito mais aconchegantes. Muitas com direito a capuccinos e brownies de canela. Para quem gosta, o ambiente é um convite a uma orgia literária! Quiçá, gastronômica. Observo apreensiva a quantidade de lançamentos literários, mas principalmente, os temas mais publicados. Pela localização nas gôndolas, devem ser muito procurados. Continuam os títulos sobre dietas para todos os gostos e fomes. Continuam também os títulos sobre como ficar rico, como fazer o casamento dar certo, como educar os filhos corretamente, como se dar bem com a sogra, com o chefe, até consigo mesmo. Até como fazer para fisgar um marido rico e como evitar sofrer por amor. Como gerir as próprias finanças. Alguns insinuam que quem é bonzinho nunca ficará rico, outros, apregoam  exatamente o contrário. Tudo isso e muito mais. Existe de tudo. Existem vários universos dentro do gigantesco universo literário. Existem manuais para tudo. E aqui, não estou me referindo a livros técnicos nem a publicações científicas. Muito menos a grandes nomes da literatura nacional e internacional. Fico encantada ao ver clássicos reduzidos às versões “pocket”. Os práticos e pequenos livros de bolso. Entendo que é uma forma de democratizar e estimular qualquer um a ler de Gracilianos Ramos, Machado de Assis a Doitoyewsky e Camões. Por um preço acessível, e em versões completas. Fantástico. O grande problema é não saber o que presta e o que não presta em todo esse arsenal literário. Penso que tudo presta, por que para tudo existe gosto. Para cada livro existe um leitor. Somos todos tão diferentes, que com certeza, nossos interesses e motivações também diferem muito entre si. O problema é quando começamos a ler e vemos que o livro nada tem a ver conosco. Outras vezes, acertamos em cheio, na mosca. Existem os escritores sem erro. É a compra certa, sem riscos e decepções. O que não acontece quando exploramos novos temas ou novos escritores. Uma aventura cujo destino será, ou a poeira na prateleira ou o sebo. Mas existem também as aventuras e descobertas fantásticas que compensam muitas infelicidades literárias. Dos mais falados e comentados em consultórios de psicólogos estão os livros de auto-ajuda. É comum pacientes devorarem livros de auto-ajuda, e não raro, só marcam atendimento depois de vários já lidos. Certo dia surge a pergunta:“Você já leu tal livro?”, “O que você acha deste livro?”. E nós, simples mortais, dificilmente damos conta de todos os pequenos grãos de areia na vasta praia da auto-ajuda. “Não li”, “não conheço”, a grande maioria nunca ouvi falar. Muitos valem a pena ser lidos! Muitos eu mesma recomendo! Mas nada supera a necessidade humana do diálogo, do contato com outro ser humano, do afeto, do olhar do outro.

                                                            São Paulo, novembro de 2077.