A morte de Lola

Ato III

Lola não sobreviveu. Foi decapitada, trucidada e atropelada. Mataram-na como personagem. Na autópsia, verificou-se resquícios de laudo e perícia psicológica. Ela não se sustentou com palavras pouco expressivas, e, sem ação, confundiu-se numa descrição de possibilidades, sentimentos e obviedades totalmente dispensáveis. O que complicou a sobrevida de Lola foi a prescrição de antidepressivos ao invés de carbolítium. Talvez, se a medicação estivesse adequada, sua morte pudesse ser evitada. E como ninguém viu a bipolaridade de Lola, mas sim, uma personagem confusa, sem uma persona forte e definida, concluiu-se que o melhor para seu futuro, seria a morte. Também os sonhos, loucuras e clichês, onde Lola foi ambientada, foram considerados ambientes inóspitos, não recomendados e proibitivos no universo literário em questão. Assim, no obituário de Lola aparecerão mais algumas considerações: o texto precisaria se bastar, com início, meio e fim (embora criado para dar continuidade a um projeto considerado promissor); a primeira frase deste texto precisaria – necessariamente – ser estratégica (é nela que Lola deveria cativar por sua graça e complexidade; e ela fracassou retumbantemente), sem contar que ela precisaria ser percebida como um ser ativo e objetivo, e não como um ser sensitivo e subjetivo. Tenho de reconhecer que esta morte fez-se necessária, mas não será em vão. Lola foi fruto de outra formação e função. Psicologicamente falando, um excelente estudo de caso. Literariamente falando, nasceu fantasma sem jeito e sem estrutura. Teve que morrer.

Lola

ATO I

Lola acordou de mais um de seus pesadelos. Já devia estar acostumada, afinal, toda noite era a mesma coisa. Tinha consciência de que os pesadelos começaram um pouco antes do seu aniversário de 50 anos. E por mais que soubesse que o motivo para tê-los era muito bobo, não conseguia evitar. Ainda trêmula, pegou o cigarro no criado mudo e arrastou-se até a sala. Era lá que recuperava um pouco do equilíbrio e se acalmava. Sobre a mesa empoeirada, cheia de jornais velhos, copos e xícaras usadas e cinzeiros lotados de bitucas de cigarro, Lola encontrou seu conforto diário: álbuns de fotografias. Aninhou-se no sofá puído e mofado e ainda abalada pelo impacto do pesadelo, pegou, abraçou e abriu um dos álbuns da pilha sobre a mesa. Era gostoso abraçar os que não mais estavam com ela. Era doloroso acordar e estar sozinha. Olhar as fotos também podia ser doloroso, mesmo assim, as olhava todos os dias, pois representavam os troféus de sua vida. Desde seu divórcio e da saída de Joana, Lola vivia num ioiô de emoções. A festa de 50 anos era apenas a ponta do iceberg. Sentia-se uma velha decadente e inútil. Aposentada por invalidez, traída pelo marido, a filha que preferiu mudar para um república, os poucos amigos. E pra piorar, seu salário congelado há séculos, mal dava pra pagar o aluguel e os antidepressivos que era obrigada a tomar. Pelo menos as fotos lhe lembravam outra época, outros momentos e outros sentimentos. Havia cor, vida e energia nos rostos sorridentes e felizes que posavam nas fotos. Havia viagens, jantares e passeios. Eram lembranças suas, que ninguém podia levar ou roubar. Fechou o álbum, colocou-o cuidadosamente sobre os outros, olhou satisfeita a bagunça da mesa e da sala, amassou o cigarro no cinzeiro e foi tomar uma ducha. Colocou tênis e agasalho, tomou café preto, em pé, na bancada da cozinha, olhou curiosa a correria na rua em frente. Respirou fundo e pensou em alto e em gargalhante bom som: “Como não tem ninguém pra me encher o saco, vou assistir a nojenta da Ana Maria Braga. Todos ouviram?”