Escrita e meditação

São dez horas da manhã. As cortinas do atelier estão abertas. Me acomodo no sofá de almofadas soltas e tento relaxar. O sol de outono belisca meus pés. Vou testar um novo método de meditação, com tempos definidos para meditar e escrever: sete, catorze, vinte e um e vinte e oito minutos.

Primeiro tempo: de zero a 7 minutos. Tempo de escrever e me perder na escrita: acabei de chegar de viagem; a empregada surtou; a geladeira pifou; Iara desmarcou a sessão; minha mãe ligou. Escrevo compulsivamente. Coisas demais para registrar. Sete minutos em um. Me perdi no tempo e na palavra “mais” da frase inacabada.

Segundo tempo: dos sete aos catorze minutos. Tempo de meditar. Fecho os olhos e foco na respiração. Relaxo por um segundo. Lá fora o jardineiro passa o soprador na grama esparramada pela calçada. Arthur está indo ao consultório com o carro da Sandra, vejo com o rabo do olho. A rua está deserta. A obra inacabada continua abandonada. Os pingentes da cortina batem com o vento. Conchas, cristais, miçangas e pérolas, sinos do vento, apanhador de sonhos, a corrente verde-vermelha de Natal. Tudo balança no ritmo da brisa que vem do mar e da minha distração. Preciso de foco. Preciso fechar os olhos. Mas a persiana insiste em bater no batente da janela. Me irrito. Abro os olhos e foco na respiração: inspirar, expirar. Inspirar, expirar. A costura da cortina está torta. Vou ter de refazer. Confiro o tempo: mais três minutos. Meus dedos começam a tamborilar na almofada do sofá. Fixo o olhar na cerâmica de Edmundo Campos, em forma de sol, que dança no vão da janela aberta – ou seria da ceramista Vania Bueno? – Lembro do veredicto de uma antiga terapeuta: medo de perder o controle. Olho para o sol que rodopia seus raios cor de laranja e vermelho. Mexo os dedos dos pés e tenho de reconhecer que fechar os olhos e perdê-los de suas referências sempre me deixaram tonta. Por isso desisti de fazer yoga e abandonei a terapia. Não vou teimar nem fincar o pé, taurina que sou. Toco no botão do timer. Mais 54 segundos. Respiro fundo e finco os olhos no sol de Edmundo.

Terceiro tempo: dos catorze aos vinte e um minutos. O que me atrapalhou no segundo tempo? Medo, controle, impaciência, ruídos. O sol. Vania Bueno ou Edmundo Campos? Escrevo por mais sete minutos. Uma verdadeira verborreia literária e finalizo com “Faz parte”.

Quarto tempo: dos vinte e um aos vinte e oito minutos. Sublinho no texto algumas passagens. A alma da crônica é grifada com caneta marca texto amarela. “Difícil ficar de olhos fechados e pensar no nada.” “Não consigo ficar sem pensar ou sem fazer alguma coisa.” “Por onde anda meu silêncio? Talvez não fazer nada me mostre o que tenho de fazer.”

Meditação concluída. É hora de escrever.

O contato com o pensamento, sensações e afetos ganha pé. Ganha fundamento. Através das palavras desvenda-se o que os olhos fechados e a agitação tentam esconder. Parece existir um mundo descomunal por trás desta escuridão! Um mundo temido que envolve, abraça, amassa. Onde é melhor ocupar o corpo e a mente para não enfrentar monstros conhecidos de uma vida inteira. Onde o silêncio se perde no vácuo, e ao mesmo tempo, é engolido por todos os ruídos da existência. Onde lembranças e cobranças assombram. Neste mundo acelerado de olhos fechados, tudo se amplifica.

Mas, ao abri-los, o conhecido se apresenta do jeito que sempre foi. Com carimbo de controle, familiaridade e segurança. Ao refletir e escrever sobre a experiência meditativa, a constatação de que novos sentimentos e ponderações podem vir à tona. E por mais monstruoso que possa parecer, fechar os olhos e mergulhar no silêncio, inspirar e expirar, inspirar e expirar, focar na respiração e escrever, pode ser uma experiência meditativa e literária bem interessante. Alguns monstros ganham nomes, outros transformam-se em querelas insignificantes e outros, simplesmente desaparecem, assim, num estalar de dedos e piscar de olhos.

No controle

Assisto as orientações do exercício treze, da Oficina de Escrita Criativa, três vezes. Programo o timer do celular: sete, catorze, vinte e um e vinte e oito minutos. Olho a hora. São dez horas da manhã. As cortinas do atelier estão abertas. Me acomodo no sofá de almofadas soltas e tento relaxar. O sol de outono belisca meus pés. Toco no botão do timer. Hora de me perder na escrita: Acabei de chegar de viagem. A empregada surtou. A geladeira pifou. Iara desmarcou a sessão. Minha mãe ligou. A piscina transbordou. Escrevo compulsivamente. Coisas demais pra registrar. Sete minutos em um. Me perdi no tempo e na palavra “mais” da frase inacabada.

Segunda programação do timer. O que era mesmo pra fazer? Se não fizer certo Perdeu. Tem de recomeçar do zero, foi o que entendi. Tento me acalmar. Fecho os olhos e foco na respiração. É isso. Relaxo por um segundo. Lá fora o jardineiro passa o soprador na grama esparramada na calçada. Arthur está indo para o consultório com o carro da Sandra, vejo com o rabo do olho. A rua está deserta. A obra inacabada está abandonada. Os pingentes da cortina batem com o vento. Conchas, cristais, miçangas e pérolas, sinos do vento, apanhador de sonhos, a corrente verde-vermelha de Natal. Tudo balança no ritmo da brisa que vem do mar e da minha distração. Preciso de foco. Preciso fechar os olhos.

Mas, a persiana insiste em bater no batente da janela. Me irrito. Abro os olhos e foco na respiração: inspirar e expirar. Inspirar e expirar. A costura da cortina está torta. Vou ter de refazer. Confiro o tempo do timer: faltam 3 minutos. Meus dedos começam a tamborilar na almofada do sofá. Fixo o olhar na cerâmica de Edmundo Campos, em forma de sol, que dança no vão da janela aberta – ou seria da ceramista Vania Bueno? Lembro do veredicto de uma antiga terapeuta: medo de perder o controle. Olho para o sol que rodopia seus raios cor de laranja e vermelho. Mexo os dedos dos pés e tenho de reconhecer que fechar os olhos e perdê-los de suas referências sempre me deixaram tonta. Por isso desisti de fazer yoga e abandonei a terapia. Mesmo concordando com a terapeuta. Não vou teimar nem fincar o pé, taurina que sou. Toco pela terceira vez no botão do timer. Mais 54 segundos. Respiro fundo e finco os olhos no sol. Já já o timmer vai tocar e vou ter de pensar no que me atrapalhou no exercício: medo, controle, impaciência, ruídos. O sol. Vania Bueno ou Edmundo Campos? O próprio exercício. Os sete minutos mais longos do dia. O timer toca.

Escrevo pelos últimos minutos do exercício e finalizo com “Faz parte”. Sublinho no texto algumas passagens. “Difícil ficar de olhos fechados e pensar no nada.” Clichê demais pra desenvolver. Talvez num outro momento. “Não consigo ficar sem pensar ou sem fazer alguma coisa.” Óbvio demais. “Por onde anda meu silêncio? Talvez não fazer nada me mostre o que tenho de fazer.” Uma eterna fuga esta obsessão por controle e metas. Era apenas uma tarefa. Um simples exercício. Crônica ou conto?

Seria esta a crônica do Tempo Perdido?

Ou o conto do Tempo Vivido?

Meditando

Oummmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmm

Oummmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmm

Oummmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmm

Medito enquanto caminho na beira da praia,

Meus pés doem,

a areia é áspera. A água, gelada.

Distraio a mente e a dor observando gaivotas e quero-queros,

garimpando conchas e tatuíras.

Meu olhar se perde no horizonte entre ilhas e montanhas que me abraçam.

A magia amolece a alma que se arrasta,

amansa os pensamentos e o espírito belicoso.

Tranquilizo minha caminhada.

 

Comprei um livro por estes dias invernosos e chuvosos:

“As cartas do Caminho Sagrado” de Jamie Sams

– a descoberta do ser através dos ensinamentos dos índios norte-americanos –.

foi minha guru do barro que me adentrou pelo caminho.

Brincadeira de bruxa no meio do mato, entre o córrego, as orquídeas e os beija-flores.

O povo de Pedra tem me chamado: ele quer ser ouvido.

O Bastão que Fala também: anuncia que existem outros caminhos.

Medito.

Me acalmo.

Entrego, confio, aceito e agradeço.

Oummmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmm

Oummmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmm

Oummmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmm