Chata

Intoxicada

de farinha, açúcar, café, vinho; claridade, calor, cupins, casa grande; roupas apertadas, velhas e esfarrapadas; notícia ruim, política podre; ressentimentos, mágoas, inveja alheia.

Intoxicada

de noites mal dormidas e livros ruins; de listas intermináveis e afazeres a perder de vista; de dias atarefados de futilidades. Facebook e Whatsaap.

Intoxicada

de cara feia, críticas e reclamações, de música, da professora de cerâmica; empregada atrasada, cheia de filhos e desculpas; dúvidas, incertezas, medos, decepções, ansiedade e angústia …

Caraca.

Tô azucrinante. A vida, desgastante. Existir, incomodante.

Caraca.

Virei uma chata.

 

 

Areando panelas

Em algum momento, perdido entre minhas idas e vindas ao consultório, meu rebuliço nas tintas, entre o fogão, os livros e as mensagens de whatsaap, algo aconteceu. Não era nada daquilo que eu queria. Não que estas coisas não fossem importantes. Até eram. Mas não eram nem tão importantes, nem exatamente o que eu queria que fossem:

Retomar o consultório era resgatar o passado. Conhecido e bem sucedido. Será que ainda quero?

Pintar era conquistar algo novo, porém, jogado inadvertidamente em meu colo, sem consentimento ou querer bem. Um hobbie transformado em profissão? Quero realmente isso?

A cozinha sempre foi espaço meu de direito, desde que me conheço como neta da avó Anita. Entre bolos de cenoura com cobertura de brigadeiro, suflês de queijo e pipocas açucaradas, os anos desbotaram o sabor do delicioso trivial e exigiram moquecas e casquinhas de siri com azeite de dendê, macarrons, carne de paca com farofa de ameixa preta e vinho madeira, entre outras excentricidades com ares de sofisticação. Nos meus raros momentos de cerco ao palácio alquímico de casa, ando amassando massa pra fazer pastel recheado de carne moída com ovo e sem ar. De comer ajoelhada. E se for frita em banha de porco, beijo o chão.

Quanto aos meus livros, eles se bastam e se recolhem quando nada mais espero deles. Eles tem a delicadeza de esperarem sua vez. São companheiros fieis. Alguns, esnobes, entrincheiro entre os bons. Que aguardem!

Já minhas conexões virtuais – uma verdadeira epidemia universal – tem seu tempo e espaço, mas em hipótese alguma, dão conta do meu mundo e minhas necessidades. Coisas da modernidade líquida.

A casa, de repente, ganhou um novo general: marido aposentado tem disso. Acredita que precisa dar ordens e organizar tudo que está errado (e que sempre funcionou maravilhosamente bem).

Cedi, pra evitar a terceira guerra mundial entre vassouras e panelas. Cedi, mas não engoli tamanha intromissão. Estou areando as panelas.

Adolescer e envelhecer: ciclos que se repetem

Sensibilidade ao toque, ao olhar, no sentir e viver.

Um momento de vida,

A sensibilidade aranhando a alma.

Meno Pausa = menopausa = última menstruação = fim de um ciclo.

Antes dela, o Climatério.

Soa cemitério. Morte de um ciclo.

O renascer se inscreve.

Um novo ciclo está por vir.

Tempo de encontros e desencontros.

Um adolescer tardio.

Que identidade servirá neste momento?

Tenho um amigo que escreve de frente pra parede, num quarto pequeno e mal arejado. Já eu escrevo de frente pro mar. Ando escrevendo pouco. Já ele, escreve muito. Acho que ando me perdendo nas ondas e nas cores à minha frente e à minha volta. Ando me perdendo também, de mim mesma.

Ando às voltas com meus hormônios.

De novo.

Da primeira vez – e faz tempo isso – os hormônios bagunçaram toda minha vida.

Adolesci e adulteci num piscar de olhos.

Caí de cabeça e me afoguei no universo de gente grande.

Tive uma vida pra me adaptar. Algo em torno de quarenta anos.

Não conto mais com este elástico temporal.

Conto apenas com a maturidade.

Algo, por demais subjetivo,

que julgo ter alcançado.

Em partes. Talvez plenamente.

O tempo de agora é de costurar a vida vivida

E se preparar para algo maior ainda.

A própria morte.

Como da primeira vez

Meu todo luta bravamente.

Não quer deixar nem o momento,

Nem a vida vivida.

Conto com o elástico temporal.

Enquanto isso …

Minha atenção e minha memória andam pregando peças. Permito-me a contemplação. Me disseram que isso passa. Deus te ouça. Ando farta de esquecer nomes, palavras, números, compromissos. Ando farta de esquecer o que fui buscar, o que eu queria dizer ou fazer. A sensação beira um pré-alzheimer. Bato na madeira. Ainda não. Para sempre Alice (o filme) não está em nenhum dos meus planos. Percebo também a falta de paciência com as pequenas coisas, com quase todas as pessoas. Talvez o maior motivo de não estar clinicando. Tratar da dor do outro exige carinho, atenção, cuidado e tolerância em doses cavalares. O que tenho a dar são parcas migalhas. Alguém me disse que este momento era meu. Osho, um guru indiano, diz que devemos ser – primeiramente – egoístas e nos deixar transbordar. Pra só então se doar. Ando em compasso de espera para este transbordamento. Tem também coisas idiotas que me tiram do sério. A política, por exemplo. A corrupção. A violência. A pobreza. As doenças.

Ando farta disso tudo.

O mundo teve tempo de sobra pra melhorar. Porque não melhorou?

O mundo somos nós.

O que fizemos com o mundo em que vivemos?

Me decepciono com a raça humana.

Me decepciono comigo mesma.

O que eu posso fazer pra melhorar o mundo em que vivo tem sido um dos meus grandes questionamentos. Ainda estou tateando a direção a seguir.

E quanto à escravidão das dietas? Ando farta de todas elas. Ando mesmo é me deliciando com o prazer da boa mesa e dos bons vinhos. Sem culpas? Só quando me olho no espelho ou não entro numa roupa que adoro. Mas já não me incomoda tanto quanto incomodava tempos atrás. Estar saudável importa mais que estar bonita. O corpo precisa de combustível e energia. A alimentação ganha uma nova conotação. O equilíbrio também. Pena que a ansiedade não percebeu nada disso e continua sendo uma grande vilã. Concluí que meu problema não são os quilos extras, mas sim, o processo insano e mirabolante, de inflar e desinflar de tempos em tempos. Ok. É a maldita retenção de líquidos + o metabolismo lento. Por conta dessa piada de mau gosto da evolução humana, meu guarda-roupa aposentou de vez o tamanho P. Continuo com as roupas M e G, e horrorizada, vejo o GG se instalando em cabides e gavetas, sem nenhuma cerimônia ou educação. Estou em dúvida se volto ou não ao endocrinologista. Eu bem que avisei que aqueles quase cinco quilos perdidos em quase um mês, ou eram erro da balança, doença desconhecida ou perda de líquidos. Podia ser pior, sei disso. Mas não estou a fim de reconhecer nos olhos do meu médico o que o espelho cruelmente me esfrega nos olhos. Também não estou a fim de sermão. O fato é que minha calça de veludo azul mal sobe os quadris.

Para as dores generalizadas, descartei a hipótese de fibromialgia. O colapso hormonal que me domina por inteiro repercute no corpo, na alma, na mente. Tudo dói. Tenho feito automassagens. Meu corpo agradece. Mesmo assim, dói. Vai passar, me disseram. Enquanto isso, desmarco academia, tomo analgésicos. Quando dá faço Pilates. Quando dá é quando tenho vontade. Vontade e desejo tem sido reféns da oscilação de humor e da depressão. As mais do momento.

Tem também a insônia. Um assunto recorrente. Um sintoma enervante.

Vocês não estão com calor? Enfim, depois de perceber que todos andam muito confortáveis em blusões e casacos e salas fechadas, cheguei à conclusão de que o problema com o calor é comigo mesma. Nada a ver com janelas trancadas ou pouca ventilação. A sensação de estar sufocando ou entrando em combustão é somente minha. Por enquanto algo que presumo serem mini-fogachos. Não quero nem imaginar os fogachos normais. Minha mãe não teve nem fogachos, nem cólicas menstruais. Dizem que estas coisas do feminino são genéticas. Já eu tive cólicas menstruais homéricas uma vida inteira … e, parece não ser da minha mãe minha herança genética para as coisas do feminino. Estou otimista e um pouco realista. Fazer o quê!! Do limão uma limonada!! Resolvi fazer uso de leques charmosos e exóticos, souvenirs trazidos de muitos lugares e viagens. Mas é só sacar o leque e começar a me abanar que todo mundo olha. Sem contar os comentários: tá na menopausa? Eu não senti nada. Tenho amigas que sofrem muito. Vai fazer reposição hormonal? Chá de amora branca ajuda bastante. Cápsulas de prímula, também. E por aí vai. Já não me incomodo mais com o olhar masculino, nem mesmo do meu marido. Leques lembram matronas gordas e ultrapassadas. Espalhei os meus pela casa toda. No carro. Nas bolsas. Decidi fazer dele o mesmo que fiz com lenços e mantas. Uma marca pessoal. Um jeito de ser. Pode parecer que os melhores tempos estão se perdendo. Penso que estão se reciclando. O processo de entrar na menopausa e envelhecer me remeteu ao processo de me tornar adolescente. A busca por uma nova identidade, as mudanças corporais, as alterações de humor (irritabilidade, depressão) são comuns aos dois processos. Um se encontra na subida do desenvolvimento humano, o outro, na descida. Um reporta à extroversão, a busca do outro, as conquistas materiais e afetivas. O outro reporta à introversão, a busca de si mesmo, a preservação do que foi conquistado e a manutenção dos vínculos afetivos. Pode parecer que o processo de subida é melhor (e penso que é) mas é no topo e na descida que vislumbramos melhor o todo.

Ando fazendo uma retrospectiva da minha própria vida, avaliando escolhas, repensando atitudes e valores. Sei que meu elástico temporal começa a cansar e lassear. As coisas que ainda quero fazer e sentir pressionam por decisões e atitudes. Querem acontecer ou ser deixadas em paz. O bom de se estar na descida é que é agora ou nunca. O que os outros vão dizer ou pensar conta cada vez menos. Ainda bem.

Diferentemente da subida

  • quando o esforço é grande –

A descida sugere um deixar rolar e acontecer,

Aprecie a paisagem

deixe o vento acariciar o rosto e bagunçar os cabelos

Grite de alegria

Levante os braços e comemore.

Sinta o coração palpitar

O estômago embrulhar

Viva o momento.

Sinta a vida!!!!!

Do jeito que for

Deixe acontecer.

Aproveite a vida e a paisagem.

Menopausa

Um texto técnico. Uma palestra.

A Menopausa é usada como sinônimo de Climatério: período de transição entre o período reprodutivo e o fim da fertilidade feminina. A menopausa, nada mais é, do que o ultima menstruação da vida da mulher. Cada mulher viverá de forma individual esta fase, pois existem vários fatores que influenciam a intensidade dos sintomas: são causas físicas, emocionais e culturais.

Porque acontece a menopausa?

Todos os animais apresentam fertilidade decrescente ao ficarem mais velhos. Porem, outros mamíferos podem gerar filhotes ate o final da vida. Os seres humanos, pelo contrario, passam cerca de 25/30 anos, em estado completamente não produtivo. Provavelmente isto acontece porque os bebês humanos necessitam de uma criação mais demorada. A função da menstruação é tornar a mulher apta a gerar filhos. Após uma vida reprodutiva de aproximadamente 35 anos, os ovários param de funcionar. Isto acontece numa época em que a mulher não é mais física nem emocionalmente preparada para ter filhos.

Porque os ovários param de funcionar?

Os ovários são glândulas sexuais femininas, localizados nos dois lados do útero. Apesar de pequenas, são uma poderosa fonte hormonal. Durante os anos férteis, os ovários produzem grandes quantidades de estrógeno e progesterona. Estes dois hormônios sexuais governam o ciclo menstrual feminino. Quando o fornecimento cíclico é perturbado, como nos anos anteriores `a menopausa, a mulher começa a sofrer irregularidades menstruais.

O que são os hormônios?

Os hormônios são mensageiros químicos, produzidos pelas glândulas endócrinas. As secreções destas glândulas regem o desenvolvimento sexual feminino e masculino. Homens e mulheres tem glândulas endócrinas: na mulher são os ovários. No homem, os testículos. O hormônio feminino por excelência é o estrógeno. Ele transforma a menina em mulher e é secretado pelos ovários. A progesterona é o hormônio que espessa as paredes do útero preparando-o para a gravidez. Some depois da menopausa, enquanto que o estrógeno cai a níveis bem reduzidos.

Existe menopausa masculina?

Não. Absolutamente não. O termo menopausa masculina – ou andropausa – refere-se apenas `as mudanças emocionais que o homem enfrenta nesta idade. Na mulher, além das mudanças emocionais, ocorrem profundas alterações hormonais, com sintomas típicos. Quando a mulher nasce, estão armazenados no interior de seus ovários todos os óvulos que ela vai liberar ao longo da vida, durante os ciclos menstruais. No climatério a reserva se esgotou e ela se torna totalmente estéril, enquanto o homem, é capaz de produzir esperma toda vez que ejacula.

Deduz-se assim que a menopausa acontece devido `a diminuição dos níveis de estrógeno no organismo feminino a níveis tão baixos, impossibilitando a menstruação. Esta redução do estrógeno pode ocorrer de forma natural, ou de forma artificial – em qualquer idade – decorrente de cirurgia de retirada dos dois ovários ou do útero (histerectomia). Normalmente a menopausa acontece entre os 45/55 anos. Como a expectativa de vida da mulher gira em torno dos 70/80 anos, significa 25 anos de vida pós menopausa, ou seja, 1/3 de sua vida. Os períodos menstruais tornam-se irregulares, tanto no fluxo quanto no espaçamento de um ciclo para outro. Esta irregularidade pode começar até 10 anos antes da menopausa, ou de uma hora para outra. Outras causas podem provocar a interrupção da menstruação: tensão emocional muito grande, acidente, doença ou gravidez.. Por isso, recomenda-se tomar cuidados durante 2 anos após o ultimo ciclo menstrual.

Os sintomas mais comuns de quem está “nos anos críticos” da menopausa são os fogachos (ondas de calor), perda de umidade e elasticidade da vagina e perda da densidade óssea.

  1. Os fogachos são mais intensos no primeiro e segundo ano, depois somem por completo, num prazo de 5 anos. Não há duas mulheres que sintam da mesma forma este sintoma. Até mesmo a mesma mulher pode sentir de maneira diferente, como pode nem senti-lo. Quando ocorrem `a noite, são chamados de suores noturnos. O sintoma é normal e temporário; desaparece sozinho, sem intervenção medica;
  2. Perda de elasticidade e umidade vaginal: descritos na medicina como atrofia vaginal. Para as mulheres que sofrem deste sintoma aconselha-se o uso de lubrificantes, sexo gentil (por parte do homem, com movimentos não tão agressivos ou vigorosos), e manter-se ativa sexualmente. Uma a duas relações por semana mantem a vagina úmida elástica, mesmo depois da menopausa;
  3. Perda da densidade óssea: a partir dos 35 anos os ossos da mulher começam a perder cálcio. Uma em cada quatro mulheres pode desenvolver a osteoporose, doença que torna os ossos finos e fracos, tornando-os vulneráveis a fraturas.

A partir dos 35 anos, homens e mulheres perdem mais tecido ósseo do que ganham. O inicio é lento e gradual. Até a menopausa a perda é similar entre homens e mulheres. Então, os caminhos se modificam. A queda nos níveis de estrogênio acelera a perda do tecido ósseo, chegando ao dobro da perda depois de passados 5/6 anos de menopausa. Isso não quer dizer que os homens não tenham osteoporose. A proporção é de 8 mulheres para cada homem. Quando a osteoporose surge no homem, normalmente não é tão grave.

A testosterona – hormônio masculino – protege os ossos dos homens, assim como o estrógeno, protege os ossos da mulher. Com a menopausa, a mulher perde esta proteção. Além destes sintomas, outros desconfortos aparecem neste período: dor de cabeça, cansaço, tontura, insônia, instabilidade de humor, palpitações, formigamento nos dedos, falta de ar, aumento de peso, nervosismo, irritabilidade, dor nas articulações … todos estes desconfortos podem resultar da combinação de causas físicas, emocionais e culturais.

Normalmente, a menopausa vem num momento crítico na vida da mulher. O período é de transição, mudanças e muita tensão. Muitas, ao chegar nesta idade perguntam-se “quem sou eu, o que eu fiz da minha vida até agora, estou satisfeita, o que ainda quero da vida?” Sentem que se for para mudar, a hora chegou. Problemas não resolvidos do passado entram em ebulição e clamam por atenção e solução.

Muitas mulheres ficam felizes com a chegada da menopausa por se livrarem da menstruação e do risco de uma gravidez indesejada. Outras entram em desespero, especialmente aquelas que não conseguiram gerar seus próprios filhos. Não foram elas, mas o relógio biológico quem decidiu por elas. A época de procriar acabou.

A menarca e a menopausa ( a primeira e a ultima menstruação) são dois pontos marcantes na vida da mulher. Elas marcam o principio e o termino do período reprodutivo. Diz-se que a reação da menina frente `a menarca será parecida com a reação da mulher madura frente `a menopausa. As mudanças que a mulher experimenta nesta época, a farão reviver inconscientemente os conflitos psicológicos, as duvidas e temores que a mobilizaram em sua adolescência. Além destes sentimentos e emoções, juntam-se outros acontecimentos marcantes:

  1. Síndrome do Ninho Vazio: é a saída dos filhos de casa, deixando um enorme vazio na casa e na vida da mulher. A tendência é a mulher aceitar e reorganizar a própria vida em busca de novos objetivos e fontes de gratificação;
  2. Crise de meia-idade do marido: muitos homens sentem-se deprimidos, irritados, não aceitam o envelhecimento, surgem dificuldades sexuais (impotência), a carreira profissional fica estagnada ou cessa com a chegada da aposentadoria. O casal entra em crise por se culpar mutuamente por falhas e desapontamentos de parte `a parte. Muitos buscam valor e atração em novos parceiros. Casos extraconjugais e pedidos de divorcio são comuns e numerosos neste período. Muitos casais percebem que sobrou muito pouco do relacionamento depois que os filhos vão embora, e decidem se separar.
  3. Movimento oposto: na meia-idade homens e mulheres parecem mover-se em sentidos opostos. O homem tende a tornar-se mais paternal e sensível, enquanto a mulher fica mais segura de si. Comum é o casal perceber que alimenta objetivos diferentes: enquanto o sonho dele é uma aposentadoria precoce, o da mulher é atirar-se aos trancos e barrancos no mundo do trabalho.
  4. Viuvez;
  5. Inversão de papeis com os pais idosos: a filha mulher se vê como arrimo, provedora das necessidades físicas, emocionais e econômicas dos pais. Muitas vezes, ela sente-se dividida entre os pais idosos, a própria família e consigo mesma. A morte dos pais a faz deparar-se sem escudos frente a própria morte.

A menopausa em si é apenas uma das possíveis fontes de tensão na meia-idade. Filhos crescidos, pais idosos, discórdias matrimoniais, divorcio, viuvez, tudo contribui para os sentimentos e desconfortos tão comuns desta idade. Somados a estes fatores, ha ainda a visão pessimista que a sociedade tem da mulher idosa. Nossa cultura valoriza a juventude: mulheres com corpo e rosto bonitos desfilam nas mais diferentes formas de mídias. A mulher de meia-idade é lembrada pelos cabelos grisalhos, rugas, plásticas, resmungona e mal-humorada. Já o homem de meia-idade é visto como atraente, maduro e charmoso.

A questão cultural é muito presente na questão menopausa:

  1. Na Índia, as mulheres da tribo rajput não tem problemas com a menopausa, apenas a suspensão menstrual. Depressão, tonturas, ou quaisquer outros sintomas encontrados em mulheres de culturas ocidentais, não foram relatados. A maior parte das mulheres desta tribo espera ansiosamente pela menopausa, pois a partir de então, poderão fazer visitas desacompanhadas de seus homens, tomar bebida fermentada, conversar com outros homens em reuniões sociais, sair de casa sem usar o véu sobre o rosto…
  2. Entre os índios Mojave, ao chegar `a menopausa, a mulher não se restringe sexualmente, ao contrario, novos casamentos acontecem. O homem jovem procura a mulher de meia-idade para cuidar dele e de seus filhos. A menopausa autoriza a mulher a intervir na vida da tribo de forma semelhante aos homens. Considerada mulher madura e experiente, cujos valores devem ser ouvidos para melhorar a vida na tribo.

No entanto, o aumento do numero de pessoas idosas deverá modificar profundamente as atitudes da sociedade em relação ao envelhecimento, visto que a população mundial está aumentando e ficando cada vez mais velha.

Sobre a menopausa

Tenho um livro sobre menopausa. “Menopausa – A grande transformação”, de Susan Flamholtz Trien. Comprei há muitos anos – quando minha própria menopausa estava a anos luz de distancia – para me preparar para uma palestra para um grupo de senhoras de meia idade e de terceira idade. Hoje sou eu a senhora de meia idade. O livro técnico (mas nem tanto) tem me ajudado a entender um pouco desta fase de vida tida como a “mais silenciada e fecunda da vida da mulher”. Não sei se concordo muito com isso. Dias atrás, depois de 3 meses sem menstruar, disse a meu marido que ainda não estava preparada para entrar na menopausa, nem para ter um marido aposentado em casa. Ele – sabiamente – disse que eu deveria me preparar, pois era o próximo grande evento a acontecer em nossas vidas. Ou seja, percebi que não estou pronta para envelhecer. (Questiono esta possibilidade: soa mais como conformar-se, aceitar a melhor das alternativas para o tempo que passa.) Se é que envelhecer seja apenas isso. Mas, tive uma prorrogação. Meu marido voltou a trabalhar e eu, a menstruar. De qualquer forma, estou consciente de que tanto a aposentadoria dele, como minha menopausa, rondam nossas vidas e devem bater na porta muito antes de eu estar preparada para abri-la. Estas fases e ciclos de vida – por mais previsíveis que sejam – tem seu tempo para acontecer. Nem sempre, ou quase nunca, o tempo cronológico destes eventos coincide com o respectivo tempo emocional, o que pode gerar conflitos ou dilemas existenciais bastante significativos. Por enquanto, vou parar por aí. Ainda existe descompasso entre o tempo, o tema e a emoção.

A noite e eu

Imagine uma zumbi zumbizando um dia inteiro, pra cima, pra baixo, lendo, dormitando, escrevendo, ajeitando algo aqui, acolá … perdida nas horas e no dia. Pra mim, o sono é fundamental. Sem ele, me transformo num ser estranho e atrapalhado. Eu mesma, desconfio do que falo e faço. Depois de uma noite de insônia, o dia “after” é de ressaca, e eu, uma ébria em recomposição. Uma ébria de sono.

Há vários anos sofro de insônia. Com a chegada da menopausa, parece que meu conflito com Morfeu se agravou como câncer terminal. Nem mesmo os 3mg de Lexotan tem me abatido para o descanso. O de 6 mg, ás vezes, consegue. Nem sempre. Ai entro numas de natureba: nada de café, chá preto, chimarrão, refrigerante, chocolate, etcetcetcetc. Apenas um paliativo. Meu sono continua quebrado e refratário. E eu, um zumbi humano. Sei que atividade física ajuda bastante, mas cansada do jeito que estou, cadê a vontade. Quando o sono aperta, invés de ir na academia, vou dormir. E assim, o círculo vicioso se completa. Procuro evitar as sonecadas durante o dia, que são como beliscar antes do almoço: atrapalham o apetite principal. Mas, meu corpo, não pensa assim. Imaturo e indisciplinado – creio eu – ele quer dormir. Tonturas e vertigens desagradáveis se encarregam de dar o veredito final: e me entrego aos braços de Morfeu. Tem quem diga que agito muito na noite: pinto, bordo, escrevo, leio, assisto filmes, estudo …deveria funcionar como abajour: uma nesga na noite.

Complicado:

é na noite que encontro disposição e inspiração;

é quando as ideias palpitam, se esgoelam pra serem atendidas e saciadas. Sucumbo a elas por puro prazer.

Talvez eu seja apenas um ser notívago  movido pela própria essência.

Talvez minha alma seja de artista em busca de boemia,  da companhia solitária da lua e das estrelas, para criar e viajar por outros mundos.

Talvez apenas devesse ser mais disciplinada e fazer uma mudança radical de hábitos e conceitos. Penso nisso e em muitas outras coisas. Por isso, fiz um pacto comigo mesma: vou fazendo tudo que posso, que está planejado e começado (odeio trabalho inacabado). Na medida que vou terminando, encaixo a meditação, a noite de abajour e chá de amora, vou dormir com as galinhas, acordar com os galos, ir pra academia, adotar alimentação saudável, me aquietar, começar e fazer uma coisa de cada vez, e me tornar, enfim, um ser disciplinado.

Acho que vou dormir melhor.

Certeza mesmo, é não ser eu mesma.

Serei mais feliz?

Terei de tentar.

Penso que não.

Vou ver no que vai dar.

Ebulindo

Memorias e hormônios piruetam e cambalhotam,

saltitam Himalaias de altos e baixos.

Denunciam excessos. A falta.

Transbordam e se alastram no vazio.

Esqueço, me compadeço.

Hei de fazer espaço para

– o essencial –

aquele que embebeda a alma e alivia o coração.

Agora, tão apertado.

Que falar dos hormônios?

Senhores sem-vergonhas

Desconhecem a vergonha, desde tenra idade,

depois de refletir nosso torto e avesso,

de fecundar nossas libertinagens,

se extinguem.

Como bem disse Claudete:

eu era erupção, ebulição, pura tesão.

Virei chama de vela. Chama-piloto.

Incenso. Insossa.

O Everest escalou a Lua.

Submergiu no mais profundo dos abismos.

A natureza esperta, tira e dá.

Dá e tira.

Esqueço. Me compadeço.