2021

O ano iniciou como quase todos os outros:

Por conta da pandemia, foi menos gente, menos visita, menos comida, menos bebida,

menos trabalho, menos fogos de artifício, menos muvuca. 

Foi a virada de menos …

Menos muita coisa boa,

menos muita coisa ruim.

Mantive as folhagens de Costela de Adão sobre a mesa, as helicônias nos vasos,

velas brancas, potes com sal grosso e alho. Pimentas e conchas.

As sete ondinhas. A lentilha.

Vesti minha velha blusa branca da sorte e a mule bordada de dourado. 

Desejos e votos retumbaram nas mídias sociais, nos telefones,

nos abraços contidos e diminuídos entre os que estiveram entre nós.

O primeiro dia amanheceu nublado e fresquinho,

A casa registrava, óbvio, os exageros da virada.

Neste novo ano 

listei mentalmente rumos para 2021. 

Vício inevitável: uma bússola que mostre um norte a seguir:

Desejos, sonhos, expectativas, metas, idiotices, maluquices.

Um baú de projetos e possibilidades.

Coisas a fazer;

Coisas a abandonar;

Coisas a retomar, melhorar, mudar, enfim … 

Sem agenda, sem listinha (ainda) 

vislumbro anseios e necessidades.

O bom de tudo isso, 

não é exatamente cumprir o programado,

é reconhecer que existem sonhos e necessidades

e motivos pra seguir em frente.

Os motivos?

Que sejam fúteis e inúteis

Nobres ou esnobes,

Saudáveis ou não,

Rentáveis ou não,

Inteligentes ou não,

Louváveis ou não.

Importa, 

existirem.

Feliz Ano Novo. Que venha 2021.

Assinaturas

A assinatura de uma pessoa parece coisa simples. Mas não é. Quando fiz meu primeiro CPF, assinei meu nome de solteira por extenso. Ao casar acrescentei a meu nome, o sobrenome do meu marido. Assumia uma nova identidade, que precisava de uma  assinatura de casada. Despreparada, abreviei o M. de Maria, o L. de Lammel, sobrenome de meu pai. Assinei escrituras, diplomas, certidões, documentos. Assinei meu livro “Os segredos de Serena” com meu nome de casada. Ainda não me sentia escritora. Ainda era a mulher, a mãe, a psicóloga. Demora um tempo para descobrir quem somos, como nos transformamos e como queremos ser representados.

A vida nos empurra,

querendo ou não, gostando ou não.

Ao deixar pra trás um jeito de ser e viver, deixei também algumas das minhas neutralidades e paranoias. Fui me descobrindo outra e confortavelmente me apresentei ao mundo, simplesmente, Suzete Herrmann. E então vieram os “Diálogos do Inconsciente”. Minha primeira exposição artística individual. Cada obra pedia um nome e uma assinatura. De artista. Como das outras vezes fiquei confusa. Insegura.

O nome incomum, enfim, se impôs.

Me representa e me apresenta: Suzete H.

Esta é apenas a história da assinatura do um nome. E minha assinatura como ser humano? Que marca ou marcas me identificam? Um eterno e intrincado crochê onde cores e fios que se mesclam e se enroscam. Dão nó. Pontos se sobrepõe. Uma marca é fazer sempre a diferença, um lema de vida. Ser um espírito livre, um valor absoluto. Ser autêntica e verdadeira, sempre. Generosa e grata também. Outras marcas. Singelas e poderosas assinaturas. Aos poucos, percebo brotar doses indigestas de intolerância e irritabilidade frente à imbecilidade, falsidade e mediocridade humanas. Assim como o desenho da minha assinatura mudou e se adequou a papeis e escolhas, minha assinatura humana começa a criar novos contornos.

Onde existe sombra e luz,

como nunca antes. Percebo-as

numa Gestalt transparente de tão límpida.

Existe quem fui, quem sou e quem pretendo ser.

Mas quem, exatamente serei eu?

Balanço

Além dos lugares, aproveitei também 2017 pra viajar através de livros que há séculos me encaravam da estante, pedindo releitura. Quando decidi voltar a clinicar, me parecia correto reler textos e resgatar expressões da área psi, há muito empacotadas e adormecidas. Livros que foram fundamentais em outros tempos e momentos pediam outro olhar. Até porque, novas expressões e novos saberes habitaram meu dia a dia neste último setênio. O ano me trouxe Jung, sua história e inúmeros livros da Psicologia Analítica, Símbolos e Arte. Imagino que algumas teorias e percepções tenham mudado com a tecnologia que transformou o mundo e as pessoas que nele vivem. Quanto ao que li e reli, perdi o fio da meada. Dos que lembro – e ainda hoje são marcantes – estão “Complexo de Cinderela”, de Colette Dowling; “Homens que odeiam suas mulheres & As mulheres que os amam”, de Susan Forward, e “Perdas Necessárias”, de Judith Viorst. Três livros de autoajuda que sempre recomendo. “Neve”, de Orhan Pamuk, tem sido meu livro de cabeceira. Mas, o que deu o tom de 2017 foram as atividades em Arteterapia. Artigo científico, estágio, supervisão, leitura e muita pesquisa. Após 3 anos e meio, enfim, mais uma formação concluída. E a certeza do poder das ferramentas arteterapêuticas e da profundidade das bases teóricas. Através da Arteterapia me inseri no universo da cerâmica. Uma, ainda, ambivalência. Gosto. Apenas isso: gosto. Pra levar adiante, preciso de paixão desenfreada (assim como foi com as velas, a pintura espontânea, a literatura, o blog). O ano foi de conflito. Aprendizados. Escolhas e decisões. Como todos os anos são, o que beira a castigo e benção. Escrevi pouco. Me exercitei pouco. A eterna meta de emagrecer, permanece eterna.

brindando com espumante

Não sei se repito 2013, e deixo acontecer. Ou se faço lista de metas. Sinceramente, uma esdrúxula questão em aberto. Certeza única e irrevogável é ler e escrever mais. Publicar meu livro de poesias. Promover a vernissagem das telas de pintura espontânea. Voltar a clinicar mais. Muito mais. Fazer pilates. Ir ao cinema uma vez por semana. Passar uma semana por mês com minha mãe, no RS. E assim, já elenquei 8 itens pra 2018. Emagrecer e me exercitar mais. 10 itens. Renovar meu closet. 11 itens. Prefiro números ímpares.

Que seja.

Com lista ou sem lista, sinto que o ano novo, será cheio de colheitas.

Plantei, reguei e adubei durante muitos anos.

A hora da colheita se aproxima.

Os balaios estão a postos.