Mais que morrer …

Quando eu era pequena perguntava ao meu avô se fazia mal misturar manga com leite, melancia com uva, comer ovo frito à noite, mergulhar nos buracos do rio… e ele, com toda calma do mundo, dizia: “mais que morrer não vai”. Até hoje, lembro das suas palavras. A morte, como ponto final para tudo e para todos, é tão certa quanto minha paixão por café. Diante desta inevitabilidade da vida, vou vivendo do jeito que posso e consigo, com a certeza de que “mais que morrer, não vou.”

A última morada

Ela sempre gostou de flores.

Na morte,

o jardim a acompanhou.

No catre da grande passagem

guirlandas de flores fizeram-se de cabeceira.

Uma despedida coroada de

crisântemos, cravos, rosas, flores do campo,

antúrios, margaridas, astromélias, lírios …

Embalada na suavidade do tule.

Embalsamada em crisântemos brancos e lilases.

A expressão serena e altiva

adornaram seu berço de morte.

A dor, enfim, banida.

A agonia, enxotada.

Na necrópole, para onde a conduzimos a seis braços,

“sete palmos de fundura”,

ramalhetes foram despedaçados,

jogados e sepultados.

O sol como testemunha

As lágrimas do derradeiro e último instante.

Amiga,

segura na mão de Deus,

e vai.

 

 

 

Portal

A morte busca. Avisa. Ronda.

Ela nos encontra. Sempre.

Absolutamente sempre.

Todos estamos em seu caminho.

Não a provoque, não a irrite.

Não lhe chame a atenção.

Nem a deixe perceber a vida que em você habita.

Não abra a porta. Nem lhe dê passagem.

Ela a tudo atropela. E devora.

Respeite-a.

Ela é a única chave do portal para a eternidade.

E ela, sabe.

Morte ansiada

A morte já era esperada

Ansiada e suplicada, até.

O gozo final de uma vida terminal.

Ela era digna de uma morte misericordiosa.

Precisava dar e receber perdão,

Precisava de permissão pra partir

e abandonar a nau de toda uma família.

Já não era mais, nem bússola, nem leme.

Era mais uma âncora ostentando

à deriva,

o barco.

Soltar-se era perder-se do inferno

–  conhecido e protegido –

A expiação de todas as culpas e todos os pecados.

Não há inocentes quando o tormento define quem morre.

A morte traz a promessa de outro caminho.

De preferência que passe longe. Ao largo. A perder-se do horizonte.

Seria um revés grande demais cumprir o mesmo caminho

a mesma sentença de vida na morte.

Imploro aos anjos e demônios:

Que haja caminho na paz e uma vida que respire aliviada

o perfume dos frangipanis e anis estrelados.

A tampa baixa, os parafusos atarraxam.

O ataúde se fecha. Para sempre.

Lacrado abaixo da terra

Fechado por toda eternidade.

cochichos

não sei se abraço a vida ou a morte.

a morte acena cheia de facilidades e finalizações.

xeque mate. ponto final.

já a vida,

impõe sacrifícios e compensações.

um ainda em constante processo.

– o próximo. o seguinte. mais uma, outra vez –

ando tão farta de me exigir e me infligir

perfeição, decepção, dor.

a morte funga meu cangote,

cochicha outras vidas.

Antes de partir

O título é do filme de Morgan Freeman e Jack Nicholson. Assisti ao filme anos atrás e o revi recentemente. Dois homens descobrem que suas vidas tem prazos de validade e decidem fazer uma lista do que eles gostariam de ter feito ou de fazer enquanto ainda estão vivos. Neste meio tempo, soube e fiquei chocada com a notícia da doença de uma grande amiga e conhecida, com o veredicto de câncer terminal. Depois do pâncreas (tratado e curado) os novos exames identificaram metástases no pulmão e nos ossos dos quadris. Não existe cirurgia pra remover ou reduzir os tumores, que nasceram encaixados e inalcançáveis ao bisturi. O tratamento será basicamente medicamentoso e terá como único objetivo amenizar a dor. Minha amiga tem a minha idade, a minha profissão, dois filhos, sonhos, desejos, projetos, e, poderia ser eu. A vida dela tem data de validade: fim do ano. Desmoronei com a notícia. Fiquei sem chão e sem vontade de fazer nada. Fiquei pensando no que eu faria se recebesse tal veredicto e acho que faria algo como os dois personagens do filme: listaria o que gostaria de fazer. Acho. Não tenho certeza. E fiquei pensando nas coisas que eu ainda não fiz e gostaria de fazer.

Sabe que não sei? Tenho a impressão de que fiz praticamente tudo que gostaria de fazer. Existem lugares, comidas, roupas, pessoas, shows, cursos, trabalhos que eu gostaria de conhecer, fazer ou ter. Mas, morreria em paz se não realizasse ou aproveitasse tais coisas.

O essencial teve seu tempo e espaço para acontecer.

Quanto `a lista? Estava pensando … que mochilar pela Europa alguns meses, fazer um curso de mosaico em Friulli na Itália, conhecer o Egito e a Índia, assistir a um show da Shakira e da Sarah Brightman, fazer parte de uma ONG de apoio a animais abandonados … até que seria bem interessante. Tem mais algumas coisinhas …

Raiamos

A morte não é certeza

É escolha.

A gente morre por excesso

ou

falta,

A gente morre por desgosto

ou

paixão,

A gente morre por querer demais

ou

de menos.

Expiram-se planos, projetos, desejos, ilusões, vidas, ciclos.

Afloram outros.

De morte em morte

Alvorecem planos,

Despontam desejos,

Brilham escolhas,

Raiamos .

A vida também é escolha.