A indumentária

“Por que os fantasmas sempre aparecem vestidos? Sendo a morte um segundo nascimento, por que não surgem ao natural, tal como vieram a este mundo? Será que o Outro Mundo tem desses puritanismos? Nada disso! É que os fantasmas ficam com vergonha de que a gente descubra que as almas não tem sexo. “

                                    (Da preguiça como método de trabalho – Mario Quintana, p. 79)

Mais que morrer …

Quando eu era pequena perguntava ao meu avô se fazia mal misturar manga com leite, melancia com uva, comer ovo frito à noite, mergulhar nos buracos do rio… e ele, com toda calma do mundo, dizia: “mais que morrer não vai”. Até hoje, lembro das suas palavras. A morte, como ponto final para tudo e para todos, é tão certa quanto minha paixão por café. Diante desta inevitabilidade da vida, vou vivendo do jeito que posso e consigo, com a certeza de que “mais que morrer, não vou.”

A última morada

Ela sempre gostou de flores.

Na morte,

o jardim a acompanhou.

No catre da grande passagem

guirlandas de flores fizeram-se de cabeceira.

Uma despedida coroada de

crisântemos, cravos, rosas, flores do campo,

antúrios, margaridas, astromélias, lírios …

Embalada na suavidade do tule.

Embalsamada em crisântemos brancos e lilases.

A expressão serena e altiva

adornaram seu berço de morte.

A dor, enfim, banida.

A agonia, enxotada.

Na necrópole, para onde a conduzimos a seis braços,

“sete palmos de fundura”,

ramalhetes foram despedaçados,

jogados e sepultados.

O sol como testemunha

As lágrimas do derradeiro e último instante.

Amiga,

segura na mão de Deus,

e vai.

 

 

 

Portal

A morte busca. Avisa. Ronda.

Ela nos encontra. Sempre.

Absolutamente sempre.

Todos estamos em seu caminho.

Não a provoque, não a irrite.

Não lhe chame a atenção.

Nem a deixe perceber a vida que em você habita.

Não abra a porta. Nem lhe dê passagem.

Ela a tudo atropela. E devora.

Respeite-a.

Ela é a única chave do portal para a eternidade.

E ela, sabe.

Morte ansiada

A morte já era esperada

Ansiada e suplicada, até.

O gozo final de uma vida terminal.

Ela era digna de uma morte misericordiosa.

Precisava dar e receber perdão,

Precisava de permissão pra partir

e abandonar a nau de toda uma família.

Já não era mais, nem bússola, nem leme.

Era mais uma âncora ostentando

à deriva,

o barco.

Soltar-se era perder-se do inferno

–  conhecido e protegido –

A expiação de todas as culpas e todos os pecados.

Não há inocentes quando o tormento define quem morre.

A morte traz a promessa de outro caminho.

De preferência que passe longe. Ao largo. A perder-se do horizonte.

Seria um revés grande demais cumprir o mesmo caminho

a mesma sentença de vida na morte.

Imploro aos anjos e demônios:

Que haja caminho na paz e uma vida que respire aliviada

o perfume dos frangipanis e anis estrelados.

A tampa baixa, os parafusos atarraxam.

O ataúde se fecha. Para sempre.

Lacrado abaixo da terra

Fechado por toda eternidade.

cochichos

não sei se abraço a vida ou a morte.

a morte acena cheia de facilidades e finalizações.

xeque mate. ponto final.

já a vida,

impõe sacrifícios e compensações.

um ainda em constante processo.

– o próximo. o seguinte. mais uma, outra vez –

ando tão farta de me exigir e me infligir

perfeição, decepção, dor.

a morte funga meu cangote,

cochicha outras vidas.