na pele

vontade de arrancar a própria pele e me vestir outra.

sair deste corpo que aperta. estrangula e sufoca.

um corpo que não me serve, nem me define mais.

ruiu, virou pó. espatifou.

me esmigalhei inteira.

sumo em frestas feito água. feito pó.

sem forma, sem contorno. líquida. invisível.

essa não sou eu.

diluída, me agarro aos sonhos de menina,

aos projetos de mulher madura, à falta de sentido.

meu medo é escorrer, me misturar ao lodo à minha volta,

e perder de vez qualquer fio de lembrança

  • ou esperança –

do que um dia fui ou imaginei ser.

o que vivi pensando que era nosso,

era apenas meu.

a tua verdade, era somente tua.

jamais nossa.

vivemos a dois, sendo cada um, um.

o tempo todo. quase a vida inteira.

minha verdade é

– e sempre será –

todo meu mundo.

um mundo somente meu.

uma verdade – queria eu – fosse completamente nossa.

Gestora

Cá estou eu, no meio da casa inacabada com minha mudança embalada. Já mudei muitas vezes, nas mais diversas situações, mas desta forma, foi a primeira vez, e quero acreditar, a primeira neste estado e a peúltima de todas. A última vem do RS jájá.

DSC08465Para meu marido engenheiro da obra, mudar neste momento, tem a ver com uma questão de orgulho e honra, já que ele garantiu à equipe de construtores que mudaria na primeira semana de outubro/2014. Pra mim, pura teimosia e birra de marido mimado. Independente do motivo, a realidade é que começo a conviver, em tempo integral, com pintores, pedreiros, marceneiros, instaladores de mármore, ar condicionado, gesseiros. Serão poucos dias, duas semanas, se tudo correr como o esperado. Como já convivi com uma reforma em outra casa durante 5 meses, resolvi que não adianta me estressar, pois a sujeira será diária e o prazo pode extrapolar. O jeito é fazer do limão uma limonada. Como disse a meu marido, a mudança precipitada, lhe custaria caro: pelo preço do aluguel economizado, incrementei a cozinha antecipando a compra dos fornos embutidos. Assim, ambos ficamos satisfeitos e a estabilidade conjugal, equacionada.

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Iniciamos a construção de nossa casa em 21.10.2013. Como esquecer aquela manhã ensolarada: vestida para malhar, com bota camuflada de borracha e viseira , cheguei ao terreno e me deparei com a Kombi branca do seu Luís, o construtor. Nos apresentamos e conheci o Nei (que ficou conosco até o final da obra) e o Nazareno (que ficou apenas os primeiros meses). Por onde a gente começa? perguntei animada e ansiosa. Precisamos comprar o material para o barraco, respondeu um Luís – mais assustado que eu – é, eu não fazia a menor ideia do que seria gerenciar a construção de uma casa. Quando concordei em ser a gestora da obra, não imaginava que seria eu a pesquisar, orçar e comprar tudo que uma casa precisa pra sair do chão, se erguer, e chegar ao telhado. Do concreto às cortinas de crepe, do rebaixamento do lençol freático à iluminação, da escavação ao closet tipo loja, estive sempre presente e ativa. Foram quase doze meses – antecedidos por 8 meses de análise do projeto arquitetônico – totalizando 20 meses de envolvimento com a construção. Foram meses de sentimentos bipolares, ansiedade e preocupação. Além dos problemas e dificuldades próprias de qualquer construção (contratação de serviços e profissionais, questões técnicas de engenharia e arquitetura, felizmente sempre resolvidas por meu marido) a escolha de materiais é um capítulo à parte. A infinidade de possibilidades é impressionante. Ótimo, não? Nem sempre. Escolher é um trabalho de luto diário. Por mais que a arquiteta tivesse dado uma orientação de estilo, na hora de fazer acontecer, resolvemos imprimir nossa personalidade em cada detalhe da casa. Da pedra palito ferrugem à miracema branca passando pela pedra palito são tomé. Do piso York, Sahara ao mármore travertino. Das esquadrias em PVC, madeira, alumínio, ACM. Louças e metais em contraste com as bancadas de mármore, granito e silestone. Escuros ou claros, pretos, marrons. Brancos. Coloridos. Textura ou liso. Sem contar o preço! Felizmente, os reais ajudam muito na hora de escolher: para os itens amor à primeira vista, um mero detalhe. Para os itens duvidosos, uma definição.

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Arrependimentos? Alguns.

Haverá tempo para refazer.

Agora é hora de finalizar e viver a casa nova.

Chuviscando

Gostaria de saber o que se passa na cabeça das pessoas. Ou melhor: será que os olhos não veem o que o cérebro e o coração não registra?

Uma 5a chuvosa em Jurerê. Estou a quase duas semanas envolvida com a mudança. Tudo começa pelo orçamento, definir melhor preço e estrutura, preparar o seguro. Depois organizar e etiquetar materiais (afinal são quatro destinos diferentes), receber a equipe e começar: são dois dias de embalagem. Outro dia pra carregar o caminhão, com direito a içamento e guincho. Mais um dia para o deslocamento de São Paulo à Florianópolis. Exausta pela maratona dos  dias anteriores + um dia de viagem de carro, eis que encontro um pintor lixando a parede. Pois é, sujeira e bagunça pouca é pros fracos. Ela ainda vai piorar. Ele me avisa que precisa de mais um dia pra pintar e secar a parede. Perfeito. Fazer o quê. Oooooooouuuuuuuummmmmmmm. Uma enxaqueca pra comemorar. Enfim, o tão sonhado dia: Descarregar. Enfim, livre dos nove homens simpáticos e prestativos, envolvidos na mudança. Obrigadão!!!!! Valeu, deu tudo certo, chegou tudo aparentemente bem. Hora de localizar avental, roupa de faxina, uma música cheia de energia, prender os cabelos, jogar o cansaço pra escanteio e começar a organizar a nova vida. Por enquanto, sem a suíte máster. Gosto de pensar que minha casa está onde meu amor está. Mas nunca penso num lugar cheio de caixas e totalmente desorganizado. Difícil me encontrar se nem sei por onde começar. E assim, passo sábado, Dia das Crianças, domingo, segunda, terça, ops, quarta estou exausta, moída, fatigada e 100% dolorida: o corpo se redescobre em músculos, milímetros, ossos e fibras atrofiadas. Doo inteira, irritada de abrir caixas, desembalar materiais, limpar, guardar em algum lugar provavelmente provisório, arrancar-lavar-polir a fuligem de São Paulo dos móveis brancos e vimes patinados e provençais, sobe escada, desce escada, passa pano, vassoura, aspirador de pó, liga pela enésima vez pra NET, SKY e nem sinal dos técnicos, preciso providenciar lâmpadas, transformadores, adaptadores, faxineira, empregada … definitivamente, não tenho mais idade pra isso. Pra não jogar tudo no “hobby box” (é assim que os “catarina” chamam o depósito) ou no quarto de hóspedes, passar a chave e perdê-la por um ano, tirei o dia de folga. A ideia era caminhar na beira da praia, conhecer a vizinhança, entrar nas lojinhas e ver – e apenas ver – novidades, coisas bonitas, a moda neste verão. Preciso de um parêntesis pra guardar livros, adornos, materiais de scrap, roupas, louças, cristais, papeis, tapetes, quadros, móveis, sapatos, bolsas, lenços, CDs, DVDs, vinhos, miudezas, remédios … fecha parêntesis. Não tenho mais espaços. Nem pros meus sentimentos. Estou lotada. “Full”.

E o dia amanheceu chuviscando minhas pretensões. Perfeito pra não fazer nada.

Encontrei um amor onde eu menos esperava!

Poderia escrever sobre o grande amor da minha vida, meu companheiro de 29 anos, sobre meus dois amados e maravilhosos filhos, meus pais, amigos, ou algum animal de estimação. Com certeza, teria muito o que falar sobre qualquer um deles. Mas quando pensei sobre qual amor escrever, lembrei-me imediatamente de minha casa. Um verdadeiro e grande amor em minha vida, que se mostrou intenso e verdadeiro quando cogitava me desfazer dela. Parece tão material, tão impessoal, que soa estranho falar que uma casa possa ocupar um espaço tão importante na vida de alguém. Mas, nossa casa merece esta homenagem, merece esta declaração de amor. Quando decidimos construir esta casa, a quem chamamos carinhosamente de “Xangrilá”, procuramos um arquiteto amigo que nos sugeriu fazer um desenho de como gostaríamos que ela fosse. Não sei se esta é uma sugestão comum entre arquitetos e clientes, ou se, pelo fato de meu marido ser engenheiro, ele pensou que poderíamos “adiantar o serviço” e esboçar nossa ideia no papel. De qualquer forma, ele também traria uma ideia a partir do que havíamos conversado. No dia de nossa reunião levamos nosso pré-projeto e ficamos impressionados com a semelhança do projeto trazido por nosso arquiteto. Tirando alguns detalhes arquitetônicos mais arrojados, os dois desenhos eram iguais. Assim, não restavam dúvidas de como seria nossa casa. Ela havia se manifestado. O período de gestação de nossa casa foi de 3 anos. Um para a finalização do projeto e 2 para a construção. Nossa casa foi pensada e trabalhada à distância. Foram 3 anos de dedicação e economia total. Todos os nossos recursos e energias foram canalizados para ela. Quando ficou pronta, ou, parcialmente pronta, decidimos que era hora de nos mudar. E em pleno mês quente de dezembro de 1994, trouxemos nossa surrada, antiquada e pequena mudança para o nosso verdadeiro e novo lar. Voltamos para nossa terra natal, o Rio Grande do Sul. Foi um choque muito grande. Nossos móveis eram pequenos demais. Eram adequados para as mudanças frequentes (exigência da profissão nômade de meu marido, engenheiro de uma grande construtora) e gritavam com a imponência e modernidade de nossa casa. Muitas coisas pensadas no projeto como sendo maravilhosas se mostraram um desastre na prática, e eu, pensava comigo mesma, havíamos concebido um elefante branco cheio de defeitos e inadequada para nossas necessidades. Durante muito tempo pensei em vendê-la. Mas era o único lugar para onde poderíamos voltar, e eu acabei, aceitando-a. Nossa casa é ampla e espaçosa. Com poucas paredes divisórias, toda envidraçada, com pé direito altíssimo, e um enorme jardim de inverno central, que traz a natureza exuberante para dentro dela. Os primeiros dias e noites dentro de nossa casa foram um desafio aos meus sentidos. Até hoje ela é extremamente comunicativa. São estalos e barulhos, que com o tempo, identifiquei como os ruídos próprios de uma casa com uma estrutura metálica e de vidro muito grande, que trabalha conforme o clima. A sensação de pequenês dentro dela, a falta de paredes que dêem contornos aos ambientes, os janelões de vidro que trazem para dentro de casa o mundo lá de fora despertam sensações emocionais e fisiológicas muito intensas, que se acomodaram e se incorporaram de tal forma, que hoje, lugares pequenos, cheios de paredes e teto rebaixado me sufocam. Durante 12 anos vivi intensamente nosso Xangrilá. Continuar lendo “Encontrei um amor onde eu menos esperava!”