Casa de mãe

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o número delata a hora.

A buzina infernal e inflamatória,

se esparrama ao léu, no breu da hora.

O coração palpita. Acordo aos poucos.

Maldito trem!!!

Máquinas e vagões rasgam a noite

ecoando estridente no túnel os trilhos metálicos.

Os cachorros, gatos, sapos, grilos … e eu,

ansiamos silêncio.

Busco água. A sede é de madrugada.

Baratichas, pernilongos e formigas,

riscam paredes decoradas e espatuladas de

casas, lagos, montanhas, frutas e flores.

Desemboco no meio de balcões atulhados de bibelôs.

Nos sofás, sacos plásticos cheinhos de acontecimentos.

Almofadas e sacolas. Notas musicais.

O dia a dia apressado e descuidado.

Na mesa do jantar, balas e biscoitos, parafusos e notas fiscais. Mais bibelôs.

Mais ferramentas, lembretes. Outras notas musicais.

Uma procissão de potes tuperware cheinhos de remédios.

Os guardanapos de crochê engomados sacramentam onde estou.

Estou na casa da minha mãe.

Encontros Noturnos

Acho que na imensidão galáctica,

nuvens gordas e estressadas andam desfilando

apressadas pra chegar

– sabe-se lá aonde –

– ainda mais –

numa noite tão calorenta.

Elas – tão nem aí – assim parece.

Chocam-se e esbarram-se sem cerimônia.

E, sem pedir desculpas, de encontrão em encontrão,

Vão clareando a noite – perfumada de mar.

Sublime esta falta de educação.

Chove

chove lá fora!

a grama cresce. eu escuto.

os pingos caem. eu sinto.

 folhas se amassam no vento que canta.

cães latem, gatos miam.

as nuvens escuras da noite se chocam.

estrondam

como carros que deslizam nas pedras da noite,

molhadas e lavadas

– na prata da luz –

brilhosa e lustrosa.

rebrilham sussurros perdidos

e,

sons esquecidos.

chove na noite que cai.

no sono que vai.

Nina pula na minha cama.

Gatos

Não se fazem mais gatos como antigamente. Lembro dos gatos selvagens que viviam na minha casa, sobreviventes ao meu avô (o responsável para dar fim às ninhadas que se sucediam descontroladamente). Minos, Minas e Mingos comiam restos de comida, perambulavam pela casa antiga e fresca, de pé direito alto, e sesteavam debaixo das cercas vivas do jardim. Eram meus os escolhidos que eu conseguia separar da ninhada condenada. Meus peludinhos eram escondidos longe do olhar seletivo do meu avô, principalmente no porão atulhado de móveis antigos, baús, camas de ferro, sacos de sementes, batatas e cebolas, ferramentas e utensílios. Nesta miscelânea de histórias eles ficavam camuflados e muito bem protegidos. Depois de adultos, sumiam na noite e reapareciam na manhã. Um ou outro ficava dócil e domesticado e ganhava nome de gato: Mino, Mingo, Mina. Depois vinham as noitadas que aconteciam com certa discrição. Fazia parte da noite o miado histérico e o rosnado felino, o coaxar dos sapos, os assobios dos morcegos, o som único das corujas, o zunido dos mosquitos, o mugido das vacas à distância, algum galo perdido na hora, latidos de cães.  A música orquestrada da noite. Pela manhã, meus gatos apareciam aranhados, machucados e estropiados, sobreviventes da disputa pelos prazeres da noite. Eram medicados com banha de porco e deixados quietos a mercê das feridas e do tempo. Tornaram-se inesquecíveis. Muito, mas muito, muito depois, veio a Lucy e o Cooki, depois veio o Logan, e agora, a Nina. Meus gatos de adulta. Minha pretinha Nina cresce e amadurece diferentemente dos meus Minos e Minas. A orquestra noctívaga continua tocando morbidamente, mas é mais seguro mantê-la em casa. Noite passada, enquanto eu lia sossegadamente na luz tênue do meu  quarto, fui assustada por um miado arrepiante. Sob o batente do porta do meu quarto me deparo com dois gatos pretos. Um, eu conheço: Nina. O outro, um invasor. A janela que se abre pro jardim, o porta luz da minha gata, foi usado também por um gato nômade. Aconteceu outras vezes. Eles entram em casa sem delongas, não respeitam o espaço alheio, aterrorizam os limites e investem sem elegância. Se apropiam. Pulei da cama, iluminei a casa e nem sinal do invasor. Tateei por tudo e, nada. O desconhecido sumiu no portal, agora, permanentemente fechado à minha Nina. Depois do susto, ambas ficamos cambaleantes. Ela preferiu ficar a meus pés na cama, vigilante, assim como eu. Atenta, liguei todos os abajures da casa e, absolutas aos mínimos ruídos, adormecemos. A manhã, como todas as outras, simplesmente se instalou, como se nada tivesse acontecido. O portal, dentro e fora, foi definitivamente fechado. Em tempos modernos, é mais seguro manter os gatos dentro de casa.