A loucura do amor

Você que me assassinou de todas as formas possíveis; Apunhalou meu coração, fuzilou-me infielmente. Estrangulou minhas palavras, sufocou minha alegria, dinamitou meu amor próprio, ridicularizou meu eu. Me fulminou inteira, sem deixar traços nem rastros.

Te amo, te odeio.

Me larga, me afasta.

Vá.

Esqueça-te de mim.

Perdoa-me. Prenda-me.

Sei que não me mereço.

Volte.

Me tome inteira.

Me mate de tanto me amar.

E vá. Vá sempre. Vá.

Mas jamais, jamais esqueça de voltar.

Esta sim, seria a mais violenta e perversa de todas as loucuras.

Reincidente

Ando meio sumida, consumida por outras paixões.

– novas e antigas –

Um universo calado e mitigado me assalta sobressaltado.

– exige espaço e afago –

Quer existir e se entranhar.

Deixar de ser hospedeiro.

E ser daqueles hóspedes

com direito ao quarto principal e a cabeceira da mesa.

Voltar a clinicar é voltar a respirar

e sentir no fígado a dor de tanta gente.

É fluir a energia represada, conduzindo-a numa ainda

desconhecida jornada.

Sair do próprio silêncio e cair de cabeça no silêncio do outro.

Esbarrar na própria solidão cutucando a solidão do outro.

Voltar a clinicar é colar a última peça do mosaico, é respingar a cor mais vibrante na tela de tantas nuances, é encontrar o roteiro perdido da viagem, o efeito tão desejado da forma e da cor na esmaltação cerâmica, é encontrar as únicas palavras que expressam sentimentos e emoções únicos, é acertar no tempero da berinjela, no arroz com feijão e na mistura perfeita do café com leite de cada dia.

Clinicar me remenda por inteiro:

Tantos eus

vividos e sofridos por outros,

tantas teorias e saberes pulverizados e escamoteados por anos a fio.

Enfim, me reencontrei entre o medo e a preguiça, entre livros e bordados, entre o amar e ser amada, entre o ir e o ficar, entre o passado, o presente e o futuro.

Cheguei.

É com muito prazer que quero me reapresentar:

Psicóloga de formação, Terapeuta de casais e família por opção, Escritora e Artista por paixão; Mulher, Mãe, Filha, Irmã, Amiga.

Inteira. Faminta. Curiosa.

Reincidente na arte de tratar e viver.

 

Paixões Impossíveis

Adoro me apaixonar! Pouco importa o que desperta minha paixão. A sensação excita, tem poder de tirar sono e apetite e dar velocidade máxima à vida. O efeito reparador e restaurador é mágico, universal, interplanetário, transcendental. Surpreendente.

Quem nunca se apaixonou por um vestido novo, uma bolsa gloriosa, um sapato divino, um carro fantástico, um ator maravilhoso?

Me apaixonei por Will Turner, personagem de Orlando Bloom, em “Os piratas do Caribe” 1, 2, 3 e todos os outros que vieram depois. Sim, me apaixonei por um pirata capaz de tirar o coração do peito, guardá-lo num baú e dá-lo a sua amada para ser seu guardião por toda eternidade. Certos personagens e cenas somem com nossas preocupações por minutos, horas, dias. Depois – passado o encanto, bobeira, delírio – desabamos na realidade da vida. É quando percebemos que aquele vestido novo não cabe nem no  corpo nem no orçamento, assim como a bolsa gloriosa, que tampouco combina com nada do que temos – inclusive o preço, definitivamente indecente – é quando aquele sapato divino e torturante nos eleva a todas às alturas. Quanto ao carro fantástico? Melhor permanecer na categoria Paixão Impossível.  Quanto ao ator fantástico – minha paixão momentânea – ele é apenas um personagem de ficção, um pirata que merece um parágrafo à parte.

Além de lindo e sedutor, é um charmoso apaixonado muito romântico. Capaz de tudo pra salvar e estar com sua amada. Capaz de trair, matar e morrer. Para ele vale tudo para mostrar o quanto seu amor é importante. Quem de nós – reles mortais – anda carente de magia e fantasia? Quem teria coragem de dar o coração – ao outro para ser seu guardião – com poder de decidir entre a vida e a morte? Do que seríamos capazes para estar e ficar com o outro? À minha volta vejo homens e mulheres lindos desfilando poder e autossuficiência. Qual deles seria capaz de abrir mão da carreira, conforto, mesada, corpo torneado, conta bancária polpuda mantida com dedicação quase absoluta, apenas para ficar com a pessoa amada? Quem seria o louco maravilhoso, apaixonado e romântico que daria seu próprio coração à amada?

Sem medo, pois o amor selado entre duas pessoas deveria ser assim. Sem medo.

Felizmente, ninguém precisa arrancar o coração e dá-lo ao outro. Seria imprudente e humanamente impossível. Criaram-se outros símbolos representativos da união, entrega e vínculo entre dois amantes. Uma singela aliança. Mas, como vivemos num mundo real – imune à magia e fantasia – nosso símbolo passou a representar poder, aprisionamento, jugo. Pobre de nossas alianças perdidas ou tidas como perigosas ou tão escondidinhas, entre enormes pedras e outras argolas de maior brilho que ela própria. Seu brilho deveria ser único e reinar majestosa e orgulhosa em nossos dedos anulares.

Enquanto vivermos num mundo que se envergonha do amor, suas manifestações e símbolos, possivelmente continuaremos nos apaixonando por personagens loucos, apaixonados, capazes de matar e morrer por amor. Por roupas, bolsas, sapatos, carros, computadores …

Pessoas de verdade são muito mais apaixonantes. Podem ser paixões de longa duração. Podem ser  momentâneas e passageiras. Podem durar a eternidade da vida ou do sentimento.

Deveriam, tão somente, enfeitiçar e trazer magia à nossas vidas, tornando-se paixões possíveis de tão impossíveis.

 São Paulo, novembro de 2007.

Desencanto

De tudo, um grande nó.

Sou uma encantada pela vida, pelas pessoas,

animais, sentimentos, coisas.

Uma apaixonada ingênua.

Sangro minhas paixões

me rasgo, me escalpo, me arrebento.

Vivo o cosmos

da minha plenitude.

Sempre e sem medidas.

Até…………….

Cair, cair, cair, cair e

 espatifar

no chão da terra da realidade.

No aço. No concreto,

Na vida.

O encanto se perde,

escorre, evapora, some.

O desencanto grita, apunhala

e crava em mim,

sem dó nem piedade,

sem desculpas ou meias-verdades

sua verdade inteira.

Me desapaixono

e abandono o que era tudo,

que virou um quase nada,

Até ser nada.

Dói e sangra e dilacera.

Abre novas brechas

Evoca novas paixões.

Um nó.