Muito além do inverno – Isabel Allende

Da autora li vários livros: O caderno de Maya, Afrodite, Paula, Zorro, O amante japonês e A casa dos Espíritos. Isabel Allende é com certeza uma das minhas escritoras favoritas. “Muito além do inverno” aborda o tema da imigração ilegal. O relato da travessia e a permanência ilegal de Evelyn, uma guatemalteca, nos USA se mescla com um assassinato e as vidas entrecruzadas de Richard e Lucia. A questão da morte e das perdas dos personagens está presente em toda a narrativa. “Muito além do inverno” é um texto pesado, triste e penoso.

Selecionei este parágrafo que conta um pouco da crença de Evelyn e seu povo da América Central, sobre os rituais necessários para fazer a passagem da vida para a morte.

“Com muita dificuldade, tropeçando nas palavras, Evelyn conseguiu dizer que ao menos seus irmãos Gregorio e Andrés haviam sido enterrados com a devida reverência, embora poucos vizinhos tenham comparecido ao velório, por temor da quadrilha. Na casa de sua avó, haviam acendido velas e queimado ervas aromáticas, cantaram, choraram, brindaram com rum por eles, enterraram-nos com algumas das suas coisas para que não lhes faltasse na outra vida, e haviam sido rezadas missas por eles durante nove dias, como é o costume, porque nove são os meses que a criança passa no ventre da mãe antes de nascer e nove são os dias que o finado demora para renascer no céu. O túmulo de seus irmãos estava em terra consagrada, onde sua avó ia deixar flores aos domingos e levar-lhes comida no Dia de Finados. (p. 200)

A vida segue em frente

Segue mesmo. E por mais que tentemos resgatar algo que ficou pra trás, resgatamos apenas pedaços de um todo que já não existe mais. Esse algo completo, esse todo, faz parte do passado. Compreendi enfim, que é lá que deve ficar. Qualquer resgate será sempre parcial. A completude daquilo que vivemos no passado, só é completo lá. No passado. Decidi seguir em frente e só olhar pra trás por precaução. Não quero ser atropelada por lembranças perdidas num outro tempo. Decidi viver o aqui e o agora, atenta ao que a vida apresenta. Tem coisa boa? Tem. Tem coisa ruim? Também tem. Sou eu quem escolho. Aqui e agora é meu presente. Sou eu que escolho gostar ou não gostar. Decidi que gostar ajuda a superar o passado, o presente e o futuro, e seguir em frente.