Chove

chove lá fora!

a grama cresce. eu escuto.

os pingos caem. eu sinto.

 folhas se amassam no vento que canta.

cães latem, gatos miam.

as nuvens escuras da noite se chocam.

estrondam

como carros que deslizam nas pedras da noite,

molhadas e lavadas

– na prata da luz –

brilhosa e lustrosa.

rebrilham sussurros perdidos

e,

sons esquecidos.

chove na noite que cai.

no sono que vai.

Nina pula na minha cama.

Flores

Gosto de todas.

Mas minha companheira

de muitas eras,

que embeleza minha casa e minh’alma,

é uma guerreira

que seca,

fica mais linda e atrevida:

“Estatices”

brancas, roxas, rosas, brancas, amarelas.

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Quando ela chega

embrulhada em jornal velho,

é aquela festa.

Ela vem da roça,

não é madame cheia de melindres.

Quer ser banhada e

mergulhada em água.

Depois de um pouco,

almeja outro elemento:

ela quer a secura e a crueza

do ambiente e da vida.

Então ela resplandece,

viceja e floresce.

Endurece na cor

e se cristaliza como flor.

Queria ser como ela.

Brincadeira

Olho redondo

Ágata dourada

Pupila negra

Espiralando em rodelas

Maiores ou menores

“Quer brincar?

Quer brigar?”

Nina me engole com o olhar

Suga o instante

A ágata vira ônix

Granada de puro atrevimento

O olho

Agora negro como petróleo

O pelo

Preto cintilante da noite.

O rabo batendo no compasso.

Ela quer arranhar.

Ela quer brincar.

Ela quer ser minha.

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Fujonas

Tem dias que tenho assunto

Não tenho palavras.

Ou o assunto é difícil,

Ou simplesmente

as danadinhas – as palavras –

Brincam de esconde-esconde

ou cabra cega.

São gigantes indomáveis em fuga.

Fico muda,

quando muito, gaga.

Disléxica, talvez.

Preferiria a sonora dislalia.

Dis-la-lia. Lia.

Então vou ler, caçando fujonas.

Às vezes, as encontro

em parágrafos que não são meus

em ideias, não minhas.

Elas sabem onde se esconder.

Deixo-as em paz.

Saudade

Dizem que hoje é o dia da saudade:

Trinta e um de janeiro de todos os anos.

E saudade, lá tem dia?

Tem dia pra qualquer saudade:

Do gato que morreu

Da avó, do amigo, avô ou pai

Que também morreram.

Saudade de filho, filha, mãe, amiga.

Saudade de comida, de café,

de rotina, de agenda.

De beijo, de sexo, de viagem,

Saudade do que se foi

Ou pretende ser.

De escolhas, tempos e momentos.

Tem saudade que dói.

Tem saudade que mata.

Às vezes, morro.

O resto é passado.

Viajando

No aeroporto de novo

Gente falando inglês, francês, alemão

E eu, português.

Um dia aprendo francês,

Aprimoro meu inglês,

Desenferrujo meu alemão.

Gente calada, gesticulando,

Caminhando com vagar ou pressa.

Mascando chicletes

Arrastando malas

Olhando souvenirs

Contando moedas

Passando cartões

Mostrando passaportes

Ouvidos atentos caçando destinos

entre resmungos e sotaques.

Já está na hora?

Documentos e formulários em prontidão

Olho no olho

Querem saber se a foto confere comigo.

Feinha, eu sei. Foto de Passaporte é

Como foto de RG.

Diferente do perfil do Face.

Mas sou eu mesma.

Lá se vão as mochilas,

Relógios, telefones, notebooks, ipads.

Raio X que invade a vida que se leva no avião.

Sou barrada para uma inspeção frente e verso.

Tenho lá cara de terrorista?

Explosives, cato no caça-palavras.

Liberada, sem explosivos.

Vou relaxar antenada.

Bangcock no inglês australiano

Soa Béncóc.

Vamos de Qantas poltronas 33 F e G.

Oh my god!

No miolo do avião.

Como foi que isso aconteceu?

Férias.

Feito sardinhas em lata, lá vamos nós.

Nada de movimentos bruscos

ou gestos espaçosos

Meus vizinhos de lata?

Um pai indiferente

Uma menina de cinco anos. ?

Ai, ai, ai

Vou ler “Metamorfose” e kafkanear.

Mamy, mamy, mamy.

Pleeeease.