Vozes

Meu maior desejo e cobiça, por ora,

é que as vozes que me possuíram e me habitaram, neste último mês,

me abandonem. Por inteiro e por completo.

Que se partam e partam em paz. Deixem-me comigo mesma.

Me preencho das minhas próprias ausências,

em meio à solidão, cercada de silêncio.

Em meio a este desdém, minha voz jaz acabrunhada,

clama pelo brado estrondoso e retumbante.

Asfixiada goela abaixo. Calada. Submissa.

Entorpecida ainda, pressinto-a revivescer.

Às vozes que partiram, obrigada pela presença.

À minha voz, por favor, não demore.

Mexa-se.

Inzibida colorida …

Inzibida colorida come casca de ferida.

assim mesmo: inzibida. Nada de exibida.

inzibida com o jogo de café feito com as próprias mãos,

a partir de um punhado de barro

– sovado, socado, esculpido, queimado –

que virou pedra cerâmica.

pintado de azul da cor do mar, cor de areia por todo lado.

na concha, um amuleto.

Um seja bem vindo. A praia e a casa de braços abertos.

Era assim que era quando eu era criança. Bastava estar satisfeita e orgulhosa com alguma coisa que o versinho era recitado: inibida colorida come casca de ferida. Feliz e satisfeita com meu novo aparelho de café!

Vai um cafezinho aí?

Rupi Kaur

Li num tapa – num final de semana – os dois livros da poetisa indiana Rupi Kaur.

“Outros jeitos de usar a boca” preencheu minha insônia de sexta-feira e “O que o sol faz com as flores” foi leitura entre as sonecas de domingo à tarde. O projeto gráfico era exatamente o que eu imaginaria para um livro de poesia: poesia forte e contundente + ilustrações do próprio punho da artista. Igualmente fortes e contundentes.

“Outros jeitos de usar a boca” é intenso e explícito. Temas como a pedofilia, o relacionamento sexual e afetivo entre homem e mulher, o rompimento e o resgate pessoal encontram na poética de Rupi Kaur, leveza e profundidade. A fisgada é imediata. A identificação, idem.

“O que o sol faz com as flores” amplia o espectro e aborda a luta dos pais imigrantes num país estranho, a dor, o amor, o abandono, as decepções e a crença em recomeços.

Ambos os textos são divididos em ciclos bem definidos: luta/perda/sofrimento, aceitação/recomeço e resgate da autoestima.

São livros de poesia. Poderiam ser livros de autoajuda. Aliás, excelentes livros de autoajuda.

By by “siesta”

Viviane passando o aspirador de pó:

Pluf, fssslll, schssssss, paft, poft, zummmmmm, fssssllll.

Parece que uma miríade de insetos foi convocada

pra respirar o pó e desassossegar o silêncio.

É um bate, trumbica e cai.

Lá fora um martelo bate, escadas também.

Batem todos onde e quando não deveriam bater.

Os carros cantam pneus, estão atrasados ou apressados.

A piscina imita o riacho entre pedras.

A corredeira programada movimenta a água azulejada azul caribe.

O jardineiro, felizmente perdeu a hora.

Certamente, vem amanhã de manhãzinha,

acordar a mamãezinha,

com aquele berro horripilante ao nascer do sol.

Aspiradores asperam as poeiras

da casa, do jardim, da vida da gente.

Asperam gente que só queria uma “siesta” silenciosa.

Xispem todos os aspiradores.

E voltem, voltem …

Somente, somente …

quando a poeira baixar.

Águas marinhas

Hoje o mar não estava para conchas,

estava para as águas marinhas. Estendidas e desovadas na areia.

Melhor assim.

Inofensivas, entumecidas e inchadas,

vibrantes cor de rosa, lilás e roxo. Azul claro,

de cauda azul marinho desfiada em pura maçaroca.

Ardidas ao sol. Doídas no desamparo da dura e seca areia da praia.

Melhor ainda, sob o olhar satisfeito de toda uma gente.

Também eu, sorri inebriada. Agradeci aos céus.

Sim, me senti horrorosa e maravilhosamente sádica.

Como dizem, vingança é um prato que se come frio.

Doí tempos atrás com a pegada displicente da linda, colorida e ardida água marinha.

Ardi numa dor traiçoeira sem saber do que, como, onde ou porque.

Chorei de dor.

Pois que ardam no calor do sol, na areia seca e no olhar satisfeito de toda uma gente.

Como dizem, vingança é um prato que se come frio. Me lambuzei.

Morsas

A temporada está no olhar:

Morsas peludas e peladas,

brancas e rosadas espraiam-se na areia.

Olho-as com aquele olhar de quem entende:

o inverno foi frio e longo.

Vinhos, pastas e “fondues” aqueceram o corpo,

agasalharam a alma e saciaram o apetite por calor e amor.

E aí a primavera chegou, tá passando

e o verão acena sem meias verdades.

A verdade inteira é:

Dieta à vista.

“timming”

caminhando pela orla de jurerê

eis que encontro na areia, baiacus, tartarugas e pinguins.

mortos.

o mar os expulsou, ou simplesmente,

perderam o “timming”.

a onda voltou e eles ficaram a mercê.

gaivotas, urubus, caranguejos e fragatas

lembraram-me:

a cadeia alimentar é implacável.

sigo meu caminho.

A sobrevivência não admite vacilos.