Cruzada, Facebook e outras guerras contemporâneas

O filme Cruzada é um dos épicos de que mais gosto. Além de Orlando Bloom e os olhos azuis violeta de Eva Green, as cenas de guerra – e suas estratégias – são o que mais chamam minha atenção.

Além de coragem e sangue frio, estratégia é tudo para o sucesso no campo de batalha.

Em campo aberto, os peões/soldados são os que se lançam ao combate corpo a corpo. São os que mais se expõe usando de todas as armas que tem. A garantia de vida é pouca, os ferimentos homéricos e as cicatrizes eternas. Os comandantes, se preservam. Via de regra, eles se mantem à distância. Olham de longe. Planejam estratégias. Avançam ou recuam. Discursam para motivar soldados. Em último caso, partem para o combate ou batem em retirada caso a derrota seja eminente.

Participei da campanha eleitoral presidencial em 2018, e muitas vezes me senti uma soldada em combate. Aliás, algumas amigas eram “Soldada Fulana, se apresentando.” Participei e não me arrependo. Existem batalhas cruciais, onde o número de soldados faz a diferença. Era o caso. Oscilei entre soldada de ataque e de defesa. O ataque me desgasta. Me estressa. Em tempos de mídias sociais, a agressividade e a insensibilidade foram armas implacáveis, de ambos os lados. Depois do resultado positivo nas urnas, me recolhi. Voltei a digladiar em algumas situações para em seguida me recolher novamente.

A sensação hoje é de assistir as batalhas de longe, do alto de uma montanha. Diariamente curto postagens que refletem o que penso. De vez em quando, posto eu mesma. Sei que vou levar pedrada, não importa a distância em que esteja. Aprendi a desviar. Observo diariamente como aliados e não aliados se posicionam e o quanto continuam agressivos, distribuindo pedradas, socos e pontapés. A guerra está longe de terminar. As batalhas são diárias. Percebo de ambos os lados, cansaço. Todos sabemos que morremos um pouco cada dia. Morrem amizades e afinidades. Sangramos todos. E por mais que muitos discursem sobre a necessidade de posicionamento, a verdade é que muitos estão numa guerra na qual não queriam estar. Conhecem as consequências de cada batalha travada e o preço de tomar partido. Literalmente. Não precisava ser assim. Mas é e está assim. Por tempo indeterminado.

A escolha de assistir à distância nada tem a ver com covardia ou desistência. Tem a ver com sobrevivência afetiva e emocional. Afinal, nem todos somos feitos para a guerra. Felizmente, guerras e batalhas, podem ser travadas em várias frentes.

A diplomacia é uma delas. Decidi atuar por aí.

Getúlio

Ontem, uma hora antes do debate entre os presidenciáveis na Globo e a entrevista do Bolsonaro na Record, assisti ao filme “Getúlio”, na Netflix. Política é bicho esquisito desde sempre. E quanto mais vemos e lemos, menos entendemos; mais nos assustamos, mais nos decepcionamos.

O filme, continua … muda o cenário, os protagonistas, as artimanhas, as maquinações. Mas o apetite pelo poder continua o mesmo, ou até pior. Devastador e aniquilador. O país e o povo, que se fodam. Importa a soberania sobre a riqueza deste país. Da carta testamento – recomendo a leitura do texto completo – escrita horas antes do suicídio de Getúlio Vargas, reverberam ainda suas últimas palavras: “Serenamente dou o primeiro passo no caminho da eternidade e saio da vida para entrar na história.”

Terminado o filme – que também recomendo -, assisto o final da entrevista de Bolsonaro na Record. Depois, assisto alguns minutos do debate na Globo. Desligo a televisão. Desligo meu desejo de entender.

Quem sabe um dia, a História explique. Ou justifique.