Final de tarde

Enquanto lia “Clarice Lispector – Pinturas” de Carlos Mendes de Sousa,

o corpo cansado e dolorido descansava no estaleiro chamado cama.

O dia foi de arrumação e limpeza. Tipo excessivamente trabalhoso.

À minha volta, tapetes de caixas, roupas e calçados…

Deveria arrumar, sei disso. Mas, não dá. Blá-blá-blá, blá-blá-blá.

Vamos dar um mergulho? Caminhar? Sair de casa? Convida meu marido.

Levanto. A lombar grita. Os joelhos estralam …

Vamos. Vamos caminhar.

As pernas protestam. 

Os braços balançam abobalhados como eu. Eu e minha vontade.

Sim. Vamos. Vamos caminhar sim. 

Jurerê, terça-feira, 23 de fevereiro de 2021, 

em plena pandemia de COVID19, final de dia e temporada. 

São poucos os caminhantes,

poucos são os banhistas e turistas.

A maré está baixa. 

O mar cinza espelha o céu nublado e mal ondula no horizonte.

Caminhamos ao Il Campanário, um pouco mais … Regressamos. Suamos. Cansamos.

Jogamo-nos ao mar de águas mornas e ondas serenas.

Alguns peixes cambalhotam em volta, de olho num cardume de peixinhos em trânsito.

Compreendo as pinicadas e tropeçadas destes minúsculos seres,

devem estar apavorados com os peixões que nos cercam, batendo em retirada.

Batendo em nós também.

Me distraio com o sol que começa a baixar por entre nuvens e montanhas.

Sublime como todo por do sol,

o por do sol em Jurerê, com a Fortaleza de São José da Ponta Grossa,

  • vulgo forte da Praia do Forte – e a montanha, atiçam o olhar.

De repente, num virar de corpo e piscar de olhos

surge, rente ao horizonte, a um dedo do agora, mar azul petróleo, gaivinas do mar anãs.

Quem sabe são gaivinas de faces brancas ou gaivinas de asa branca, 

talvez gaivotas do bico preto. 

Não sei ao certo. Sou péssima conhecedora de pássaros. 

Se tem penas, bico e asas é pássaro. Qualquer pássaro.

Mas, que pássaro seria aquele, que, em bando, vários bandos,

mais de vinte bandos, pareciam regressar, em bandos, para um mesmo lugar?

Continuei pesquisando que pássaro era aquele. Tem penas, bico e asas … (Descobri que eram talha-mares, conhecidos também como corta-água, talha-mares-pretos, corta-mar, bicos-rasteiros, gaivotas-de-bico-tesoura ou paaguaçus. Ou, como diriam no Pantanal, taiamãs).

O que sei, de verdade, é que tanto eles quanto nós, precisavam retornar.

Voltar pra casa foi o espetáculo daquele final de tarde.

Voltar pra casa deveria ser sempre um grande espetáculo.

Também nós retornamos.