Quarentena

Dizem os antigos que 40 dias é o tempo que nosso corpo precisa pra se recuperar de qualquer cirurgia. Os médicos mais modernos afirmam que 15 dias é tempo suficiente. Depois de 3 intervenções cirúrgicas, fico com os antigos. 40 dias é o  tempo. Talvez um meio termo. Um bom número que permite alguma oscilação. Para mais, para menos. Alguma variação conforme o procedimento, conforme a pessoa, conforme as complicações. Ou seja, algumas variáveis podem alterar esta estimativa. Mas, para mim, 40 dias tem sido uma boa referência. Por esses dias, começo a confiar mais nos resultados e desconfiar menos das intercorrências. O corpo dá mostras de se aceitar e querer coisas novas. Existem fomes e desejos latentes que gritam por expressão e vida. O período ferido busca graça e energia. Quer sair de si e reencontrar seu eu mais inteiro e completo. Quer voltar ao mundo e ser. Procura por planos, projetos e possibilidades. Se aventura em experimentações consigo próprio. Quer sentir a saúde e o bem estar em cada célula. Quer a confirmação de que já pode muito. Quase tudo. Mas não tudo ainda. Já aprendi a respeitar este tempo. Talvez tenha algo de antigo em meu corpo, em minha alma. O certo é que me percebo quase lá, saindo do corredor da recuperação. Um clichê, em pleno fim da quarentena. Mas assim que é. Sento, levanto, faço caminhadas, compras, trabalhos leves, dirijo, vou ao cinema, visito amigos, traço planos e metas. Sinto que já posso. Ouso sem medo.

Dor e Prazer

Não sou sádica, nem masoquista!!!! Pelo menos, nada exagerado e doentio. Que eu saiba apenas o normal. Afinal, infligir-se e afligir dor pode ter um lado prazeroso. Ontem, comentei que meu maior prazer tem sido não sentir dor. Depois de 33 dias da minha cirurgia – dos quais elejo os primeiros quinze como os melhores – deparo-me diariamente com algo novo doendo ou se manifestando em meu corpo. Depois dos pontos rompidos, nada de preocupante. Apenas o corpo se readaptando, cicatrizando  e se acomodando. O que não significa não ter dor. Talvez o termo mais adequado seja desconforto doído. Neste período, mesmo que meu médico tenha me liberado pra fazer de tudo, percebo que não posso tudo, e algumas vezes, por ainda não conhecer o tudo que meu corpo pode, acabo extrapolando. Aos poucos estou retomando minhas caminhadas, e quando caminho mais tempo numa velocidade pouco mais elevada, meu corpo me repreende. Prende músculos e me dá uma sensação estranha de estar amarrada num corpo novo que ainda não se permite grandes movimentos ou explorações. O último email que enviei a meu médico inicia assim: “Um mês se foi. Que bom que não pedi muitos detalhes, senão acho que não teria me aventurado a fazer tudo o que fiz. Mas fiz e não me arrependo. Acho que o resultado vai ficar excelente.” Esta introdução tem a ver com meu pós operatório e com tudo implicado neste período: desconforto doído, cicatrizes frescas e feias, cremes, curativos, bandagens e cuidados diários. Um simples banho requer uma logística diferenciada. Sentar, levantar, deitar, erguer braços, caminhar. O fazer diário passa por um complexo e inconsciente cuidado maior para evitar a dor e o desconforto. Tudo gira em torno do lento e do atencioso. De evitar a dor. Pra quem tem medo da cirurgia, sinto informar: o pós operatório é muito pior. A dor não é nada do outro planeta. Totalmente suportável. O doído é o desconforto, a rotina ditada pelo novo imaturo que ainda se limita, se aprisiona e requer cuidados. Mas já temos um mês. Dia a dia fica melhor e computo meus avanços: ontem caiu o ponto das costas por onde entrou a fina cânula da lipoescultura. Algo menos pra incomodar e doer.