A paz dos inquietos ou a tranquilidade dos agitados?

Se alguém me pedir se sou calma ou agitada vou dizer que sou calma. Talvez a definição melhor seja calma com algumas pitadas de agitação. Afinal, sou capaz de passar um dia lendo sem sair da cama; sou capaz de passar o dia sentada, atendendo na maior alegria; sou capaz de assistir os três filmes do box “O senhor dos Aneis” numa noite chuvosa. Sim, sou capaz de ficar quieta no meu canto e curtir intensamente a tranquilidade do momento ou situação. Ao mesmo tempo, quando o bicho carpinteiro começa a comichar, sou capaz de organizar a casa + trocar a decoração de lugar e os tecidos dos sofás + fazer uma especialização + um curso de aperfeiçoamento + escrever + bordar + scrapear, tudo ao mesmo tempo. Se estiver trabalhando no consultório, dependendo da carga horária e da vontade, também. Pensei sobre uma definição para este modo de funcionamento bipolar, ao ler o artigo da Danuza Leão “A paz dos inquietos” e fiquei intrigada. Preocupada, não. Vivo bem entre a paz e o agito e consigo fazer tudo que gosto e terminar tudo que começo. Sou disciplinada e determinada. Gosto de inovar, aprender, reformar, transformar e mudar. Enjôo da mesmice do dia a dia. Ao mesmo tempo, adoro a tranquilidade da rotina. Dificilmente fico de mãos abanando – normalmente tenho algum tipo de agulha na mão – principalmente quando olho televisão. Se as mãos não estiverem ocupadas, os pés marcam o ritmo dos pés inquietos.  Adoro ver a casa arrumada, mas vira e mexe, troco tudo de lugar. Depois, troco de novo e volta tudo pro mesmo lugar. O prazer de mudar e ver como fica é suficiente pra arregaçar as mangas. Talvez esteja intrigada por estar construindo uma casa nova, quando tenho uma casa que adoro. Por trocar de vida quando a vida que tenho está organizada e é adorável. Talvez tudo não passe de falta de acomodação. Do  prazer e da satisfação pelo novo. Da busca incansável da felicidade. De melhorar sempre.

Quando a vida muda – e ela sempre muda – lá vou eu. Quando as necessidades mudam, lá vou eu de novo. E assim, oscilo entre a tranquilidade e a agitação. Entre o sentir e o fazer. Entre o ouvir e o dizer. Entre o planejar e o realizar. Como cada um dá conta da transmutação da própria vida e da vida em si, é questão pessoal.

Se conhecer, se aceitar, mudar – quando a vida pede – é processo, é busca constante. É chegar sempre e jamais. A eternidade da vida está nesta inconstante e permanente busca.

Os prazeres do sexo

Aos 40 anos, sexo não é mais um bicho de sete cabeças. Ele é o que é. Prazer. Sensações. Orgasmo. Expedições e descobertas. Toque. Sensualidade. Entrega total.  Intimidade. Pena que nem todas nos permitimos chegar a este estágio de maturidade sexual. Para aquelas que se permitem, os prazeres da cama passam a ocupar um espaço novo e diferente em suas vidas. Mesmo com o corpo marcado pela vida, pelas gravidezes e partos, pelo efeito sanfona, pelos hábitos não saudáveis, pela vida que levamos até então, o sexo pode ser maravilhoso. Ele pouco depende do corpo.  Depende muito da cabeça de cada uma, e muitas vezes, do que sobrou do relacionamento, e do tipo de parceiro que escolhemos. Quando os adultos se permitem, o sexo passa a ser uma agradável e relaxante brincadeira de gente grande. Basta sabermos brincar, soltar nosso lado lúdico, nossas amarras. As regras já conhecemos. Nossos limites também. Ao longo dos anos atendi muitos casais, muitas mulheres e muitos homens. Todos sofrem, ou por ter ou por não ter amor. Quase sempre os conflitos pessoais e conjugais giram em torno do amor e do sexo. Obviamente a vida não gira apenas em torno desta dupla dinâmica, mas quando nossa vida afetiva e sexual vai bem, todo o resto se encaixa. Trabalho, saúde, amigos, filhos, família. Quando podemos ser quem somos, quando podemos nos desnudar totalmente, tirando tanto a roupa do corpo como a roupa da alma, quando podemos nos entregar sem medo de se perder, quando nos aceitamos e aceitamos nosso parceiro, diria que temos os ingredientes perfeitos para um relacionamento harmonioso e uma vida plena. Acredito que muitas mulheres e homens que fazem a opção de ficarem sozinhos o fazem não tanto por opção, mas principalmente por não terem encontrado alguém que lhes complemente. É do ser humano buscar outro ser humano que lhe dê um contorno, que lhe dê a sensação de completude e de pertencimento. A vida é bem mais leve e saborosa quando feita a dois, assim como o sexo. Pena que muitas pessoas não tiveram a sorte, a paciência, a tenacidade de construir relacionamentos gratificantes. Ou passaram a vida buscando algo que não existe, algo que criaram em sua fantasia. O relacionamento harmonioso e o sexo quente e prazeroso é resultado de trabalho, esforço e dedicação. Penso que muitas pessoas gostariam de contar suas histórias de vida com “Era uma vez,        ,e viveram felizes para sempre”. Aquilo que fica entre as vírgulas preferem não ver, não relacionar, não viver.  E é justamente o que está entre as vírgulas que dá o tempero, que dá o enredo de nossas vidas. Assim, quando chegamos aos 40 não importa se chegamos casadas, separadas, divorciadas, viúvas, solteiras, ou, como dizia uma amiga, “tico-tico no fubá”. Importa chegarmos inteiras para o amor e para o sexo. Esta dupla dinâmica faz maravilhas na vida de qualquer pessoa, independentemente de idade e corpo.

                                                                            Los Canales, outubro de 2006.

Comida é o novo sexo

Esta frase de Bruna Lombardi, do filme “Onde está a Felicidade”, tem martelado minhas ideias e compreensões, desde que sai do cinema, no último sábado. Companhia diária e voraz, fica fungando minha nuca espreitando minhas escolhas alimentares. Na noite em que a adotei, logo aconchegou-se no meu colo e exigiu espaço em meu olhar. Depois do filme fomos no Galeto’s alimentar o corpo de branco e verde. Prato bonito e saudável.Ao lado, uma família procurava fazer o mesmo. Um avô debochado, pai e mãe obesos e uma filha magra desertada. Apenas seu prato indicava sua presença. Mas aquela presença ausente inundou a mesa. Sob o olhar sorridente do avô a irritação atingiu a obesidade dos pais em cheio. Frente aos pratos nus, aquele transbordante delatava a deserção da filha. Olhares aflitos aguardavam impacientemente sua chegada, celular mudo, os pais levantam-se para sumir do olhar sarcástico do avô e do prato sorridente a sua frente. Vão em busca da fujona consumista. Neste meio tempo, eis que surge a menina. O avô apenas comenta da aflição dos pais, com olhar sarcástico. Entre uma garfada e outra do verde saudável, ela localiza os pais. Já está na mesa com o avô, é toda sorrisos e satisfação. Os dois não tardam a chegar. Desmontam sobre suas cadeiras. O olhar perscrutador revela o instinto assassino e sanguinário frente a filha independente e o prato recém tocado. Além de independente a menina revela-se muito inteligente. Com gestos suaves e olhar tranquilo ela descarrega seu meio frango desossado no prato do pai, sua porção de creme de espinafre no prato da mãe. O avô, antes sorridente, se cala. Começa a mexer nos casacos, mostrando sua pressa ante o prato vazio. Percebeu que a neta não o calaria com comida. Ele não merecia, afinal foi um mero espectador do teatro familiar. Assim como eu. Saímos antes do “gran finale”. A cena cimentou a frase. Comida é prazer, descoberta, fuga, companhia, perdão, obsessão. Preenche qualquer falta qualquer corpo qualquer necessidade.Saindo da Praça de Alimentação bisbilhotei outras mesas, restaurantes, cafés e lanchonetes. O olhar e o corpo repousado depois da orgia consumista e gastronômica era só sorrisos, satisfação, sensualidade e provocação. A energia libidinal era palatável e transmitia uma saciedade civilizada. Desviei meu olhar voyer e numa busca inocente por sinalização para dar o fora dali, me deparei com as placas de Praça de Alimentação. Poderíamos chamá-las de Motel Tentação ou Prazer A Qualquer Hora ou Preliminares Doces E Picantes ou……….Sirvam-se. Sentadinha no carro, com o estômago satisfeito e a cabeça cheia de ideias, pensei na noite propriamente dita. Cama e sexo? Ou apenas o relaxamento sensual e provocante e o sono gostoso dos prazeres satisfeitos?
Tenho que me livrar dessa adoção urgentemente.