Amanhã

Sabe aquele dia em que a preguiça parece ditar todas as regras?

Eu bem poderia alegar cansaço, desânimo ou depressão…

Mas não.

O dia é da mais pura e genuína preguiça.

Poderia fazer qualquer coisa.

Qualquer coisa é tudo que dispenso.

Tudo o que quero se resume a nada.

Silêncio e inatividade.

A total apatia. O fundo do poço.

É onde encontro pé para saltar o maior de todos os saltos:

O amanhã.

Tantos amanhãs. Tantos saltos.

Por isso, hoje é hoje.

A apatia sossega a vida. Repousa.

Espreita o amanhã.

Ele certamente virá.

Qualquer dia …

2a , que poderia ser 3a , qualquer dia da semana.

Amanheço cansada e desanimada.

Quando avisto o horizonte da semana, tremo em partes.

Começos assustam.

Algumas partes se excitam.

O ar de semana nova convida a abrir o cadeado e sair da mesmice de todos os dias e semanas.

Apesar do corpo engaiolado e aprisionado,

a promessa chega de mansinho como o sol que nasce

e depois se põe, devagarinho.

Importa ter a coragem de puxar as cortinas, abrir as venezianas e escancarar os vidros.

A sinfonia da natureza é um espetáculo sensorial cativo e diário: o chiar do sol, o rumor do vento, o cantar dos pássaros, os sons do silencio, o rugir das ondas, o resfolegar dos galhos, arvores e flores.

A preguica é uma gaiola sem janelas ou vistas panorâmicas.

A porta, única passagem para o universo vibrante que todos os dias prometem ser.

Permita-se passagem. Atravesse.

Do resto, o universo se encarrega.

“1000 xs

… me esparramar frente ao fogo crepitante da lareira, vestindo luvas e cachecol, meia-calça, segunda pele, gola alta e “cashmere”. Definitivamente, o verão não é minha praia. Nem os vestidos frescos, tops e shorts rasgados são a minha cara. Eles até são bonitos e tem seu charme, mas o suor grudento, o calor abrasador e escaldante das ruas, casas e praias tórridas de gente, sol e verão, acabam gelando qualquer iniciativa. Pra mim, o verão é uma ode à preguiça e à procrastinação. (Devia era ter nascido mais acima da linha do Equador). As exceções à regra – felizmente elas existem e salvam o cansativo verão do inferno – são os chapeus, os amigos-ratos-de-praia e os “sauvignon blancs”. Divinos nos dias ensolarados e noites enluaradas.”

jurerê com jacinta

Ócio Criativo

… pois este tipo de assunto me assunta nas segundas-feiras … mistura de sono, cansaço, preguiça e tédio. Um ambiente mental e espiritual perfeito para divagações e reflexões. Segunda-feira é o dia em que gosto de escrever, fazer pic nic na cama, acordar tarde, não marcar compromissos – desde que parei de clinicar, o máximo que faço é colocar roupa e louça nas máquinas -, leio, releio, medito, penso. Quase de noitezinha, me recupero deste ambiente espectral e imagético. Se pudesse, viveria em permanente ambiente de ócio criativo.

Preguiça reparadora

Sete de setembro. Dia da independência, pois, feriado nacional. Planejei não deixar só e acabei comigo mesma nesta quinta-feira morna e preguiçosa. Minha essência não reclamou. Precisava deste tempo pra recuperar do agito, da dor, das horas e das palavras. O silêncio acalma. A preguiça recupera. Amanhã meu estoque de energia estará no nível. Ontem já sentia a exaustão integral se apoderar de cada célula e pensamento. Hoje, pantufa no pé, pijama de pelúcia, rosto lavado e limpo, cabelo solto e nada pra fazer. Cochilos, leituras, escritas. Um filminho talvez. A velocidade média no apartamento é arrastada. A noite foi de sono doído e entrecortado. O dia promete recuperar e abastecer. Uma simples preguiça? Alguns pensam em virose, outros numa gripinha chegando, stress e esgotamento para outros. De tempos em tempos, temos dias assim. Que bom quando coincide com feriado ou fim de semana. Anos atrás li o livro da analista junguiana Clarissa Pinkola Estés “Mulheres que correm com lobos” e encontrei um sentido ancestral, selvagem e muito natural para estes dias. Segundo ela, a palavra “alone” (só em inglês) antigamente era escrita em duas palavras “all one”, e significava estar inteiramente em si, em sua unidade. Simplificamos e abreviamos a palavra e por tabela, perdemos seu significado. Então, diferentemente do que pensamos, estes dias de solidão voluntária, ensimesmamento e preguiça, não são ausência de energia ou ação. Estar só, quieto ou parado é uma forma preventiva e paliativa que ajuda a curar a fadiga e prevenir o cansaço – certamente, meu dia era ontem. Em unidade, deveríamos ouvir nossas próprias necessidades, orientação e conselhos interiores, coisas que dificilmente conseguimos em meio a tantos estímulos, responsabilidades, atividades, compromissos e burburinhos do nosso dia-a-dia. No entanto, quando ficamos assim, nos sentimos doentes ou em vias de. Nem suspeitamos que nosso corpo iniciou seu processo de autocura e regeneração. Aprendi a respeitar e me permitir esses dias. Amanhã estarei inteira.