Momento de contemplação

Bom chegar em casa. E casa, para quem ainda não me conhece, é minha casa antiga, encalacrada no interior do RS. 

Depois de 40 dias em Floripa, retornei ontem. Uma passada rápida de 3 horas na casa de minha mãe e depois, o mergulho no meu xangrilá gaúcho. Quem me aguardava era um gato laranja garfinkeliano, postado feito esfinge sobre o portal de entrada da garagem. Não poderia haver melhor recepção. A casa que me acolhe há mais de 25 anos me inunda de paz, boas vibrações e muita energia. Nela encontro minha alma e quem verdadeiramente sou. Meu Santo Graal. É por isso que sempre retorno. Os próximos 7 dias serão de idas e vindas à casa de minha mãe, compras de Natal (reduzidas por conta da COVID19) e de nutrição uterina. Saio renascida daqui para qualquer canto, desencanto ou desafio. 

Há meses que escrevo pouco, mesmo surgindo temas e insights incríveis. Outros compromissos e interesses roubam minha atenção, os assuntos voam com o vento e se perdem nos dias atribulados e desassossegados. Até minhas leituras pontuais se perderam no decorrer do ano. O sono, as preocupações e a desatenção cobraram seu preço. A sutileza literária deixou suas marcas na lista dos livros lidos em 2020. Meu consolo é que li verdadeiros tijolões, livros recomendados da Oficina Literária e muita alta literatura. Pouca poesia, poucos best sellers e nenhum livro de beira da piscina. Minha erudição literária foi uma seriedade só. Tenho de melhorar isso. Pra 2021 tenho algumas ideias de leitura sérias – Proust, Virginia Woolf e Freud – e muito livro leve e muita poesia e muita receita de comida e muito assunto divertido e enxabido.

O ano, de fato, foi de organização, faxina e arrumação. Interna e externa. Exterior e interior. Iniciei pelo ap de Felipe em SP, em janeiro. Veio a exposição dos  “Diálogos do Inconsciente” no CIC, em Florianópolis, também em janeiro. Depois, veio a crise e a COVID19. Em março me mudei de mala e cuia pra fazer um período sabático no RS. Além da psicoterapia individual, usei o trabalho e a criatividade como terapias alternativas.

Tem épocas na vida, em que a gente precisa de um tempo pra reavaliar a jornada, definir ou confirmar os rumos da vida, pra depois seguir em frente, retroceder ou mudar de direção. Fazer arrumações, reciclagem e arte são uma excelente ferramenta para superar crises, deixar a poeira baixar e recomeçar … A vida precisa destas paradas e avaliações. Por isso, me embrenhei na casa de Lajeado, na casa de minha mãe em Colinas, no jardim da casa dela. E agora, pra finalizar, a casa de Floripa. 

Tenho de admitir que estou exausta de combater cupins, mofos e móveis ressecados e descoloridos; restaurar e sucatear móveis, lavar lustres, tapetes, cortinas, colchas e almofadas; selecionar louças, panelas e todo arsenal doméstico embutidos numa casa. Meus artelhos e unhas não suportam mais a química que desentoca a sujeira impregnada; minhas pernas andam bambas e desanimadas dos “steps” forçados pelo sobe-desce de escadas e escadarias. Cheguei à conclusão que para uma boa dona de casa sou uma excelente psicóloga. Desencavo até parafuso, ferrugem ou ponto de mofo. A ideia, tanto na psicologia como na arrumação das casas é livrar-se de tudo que não mais agrega nem faz bem. 

Recentemente baixei toda minha biblioteca e revisei um por um, cada livro, em busca de poeira, traças e mofos – aproveitei e reli lombadas e contra-capas, e céus, se somar todos os livros não lidos que redescobri nas prateleiras, posso ficar sem comprar pelos próximos 10 anos. Aproveitei também e fiz uma contagem parcial, depois de ler que Susan Sontag vendeu sua biblioteca de 20 000 livros por 1 milhão de dólares. Faltando alguns nichos e prateleiras, cheguei a 780 livros. Devo me aproximar dos 1 000 livros. Pelos meus cálculos, sou a feliz proprietária de 50 mil dólares em livros. Óbvio que em terras tupiniquins, ninguém pagaria uma soma exorbitante destas. Pouco importa. Meus livros são companheiros, amigos para todas as horas. E estes, definitivamente não tem preço.

Lá fora agora, ouço o barulho irritante do cortador de grama e do podador das unhas de gato que recobrem os muros da casa. Coincidiu também da PML fazer a limpeza das ruas para o Natal. O barulho é infernal. Mal ouço o CD de Rimsky – Korsakov que toca no aparelho de som. Quem me acalma são os incensos de Alecrim que me cercam. E sei, reconheço e quero que o jardim tenha seus cuidados: gramas desinçadas e aparadas, galhos podados, plantas tratadas. O verão com o sol escaldante, temperaturas exorbitantes e chuvas torrenciais (assim espero) acenam para os próximos dois meses. 

Enquanto isso, olho à minha volta. 

Muito ainda por fazer e providenciar. Devo ter comentado, senão, comento agora: Tenho trazido para meu Xangrilá móveis e utensílios antigos, gastos e estropiados. A ideia é comprar o mínimo de coisas novas e reciclar, reavivar a história de toda a vida que faz parte deste lugar. Tem coisas para sucatear. O tampo de mosaico aguarda finalização. Algumas telas precisam vir para cá. Aqui é o lugar delas. Também aqui é o meu lugar. Como também é o lugar de muitas novas histórias que estão por vir.

 

 

 

“Uma vida só faz sentido para quem a viveu”

Esta não é uma crônica qualquer. É uma crônica em forma de psicoterapia. Ela foi pensada, repensada, adaptada e endereçada a ALGUÉM muito especial. Depois da leitura do livro “A vida que ninguém vê” de Eliane Brum (trechos em itálico) – trazido e sugerido pela própria paciente, muito mobilizada e impactada pelas palavras da cronista, li o livro e depois, trabalhei diversos temas, em psicoterapia. Em meio a um longo trabalho psicoterapêutico, na saída das férias de final de ano, e não querendo perder os ganhos da “biblioterapia” até aquele momento, busquei os fios soltos, alinhavei e costurei trechos e idéias da autora, com a vida e os sentimentos da minha paciente e redigi este texto intercalando palavras da autora (em itálico) com questionamentos terapêuticos. Dei o texto de presente para que ela refletisse durante o período de férias.  Muito mais poderia ser extraído do livro, que expressava literariamente e ludicamente sua problemática existencial. Bastava buscar outras perspectivas ou ângulos. Na época em que escrevi a crônica imaginei que a lente usada, tinha sido a adequada. Relendo a crônica agora, anos mais tarde, imaginei que ela poderia ser endereçada a muitas pessoas.

Uma ótima leitura e ótimos insights!!

O mundo é salvo todos os dias por pequenos gestos. Diminutos, invisíveis…… O mundo é salvo por um olhar.  Que envolve e afaga. Abarca. Resgata. Reconhece. Salva. Inclui. Esta é a história de um olhar. Um olhar que enxerga. E por enxergar, reconhece. E por reconhecer, salva.

Quais as pessoas que te viram (e vêem), te enxergaram (e enxergam) e reconheceram (e reconhecem) tuas necessidades? Necessidade de carinho, afeto e reconhecimento? Necessidade de aceitação, acima de tudo.

Porque em todo lugar, por mais cinzento, trágico e desesperançado que seja, há sempre alguém ainda mais cinzento, trágico e desesperançado.

Ainda bem!!!! Por pior que se esteja, sempre existe alguém pior do que a gente. Horrível pensar assim. Desumano até. Mas enquanto tivermos um teto, comida e nossas necessidades básicas atendidas, podemos ter a certeza de que muitos não os têm, e estão em situação pior do que a nossa. E isso, por mais insignificante que seja, mantém zilhões de pessoas onde e como estão. Por medo de perder o básico, não ousam sair do lugar cinzento que os nutre.

O enjeitado da vila enjeitada. A imagem indesejada no espelho.

O que vejo quando me olho no espelho? O que você vê? A imagem te agrada? Te anima? Ou é melhor nem se ver, apenas olhar e nada ver?

Desregulado das idéias, segundo o senso comum.

O que os outros pensam de ti, por ser quem e como és?

Acabou tomando para si a missão de juntar os pedaços da cidade. Vai de lixeira em lixeira, até onde alcança recolhendo nacos de pau e de canos, ventiladores estragados, vasos quebrados, brinquedos abandonados……….as sobras de suas vidas…

Dando valor ao que não tinha…….deu valor a si mesmo. Colecionando vidas jogadas fora……..salvou a sua.

Os restos, a sucata, o lixo transformado em arte, te salvaram quando parecia que você não era importante para a pessoa que você amava. Ela fazia você se sentir um lixo; alguém usado, abusado, explorado e jogado fora quando não parecia mais ser útil. Quando você redescobriu seu próprio valor, o dela sumiu. E com ela sumiu a necessidade de trabalhar com os restos.

Ele passara a vida tentando abrir aquele cadeado. Quando conseguiu, virou as costas. Em vez de mergulhar na liberdade, desconhecida e sem garantias……..caminhou até o restaurante lotado de visitantes

E……

O macaco havia virado um homem.

Depois…..

O aterrador é que, como homem, o macaco virou as costas para a liberdade. E foi ao bar beber uma.

Como acontece com muitos. Com uma infinidade de pessoas que tem medo de viver a liberdade e encontram no bar a solução para a sua covardia, seu conflito, seu medo, sua preguiça, e sabe lá quais e quantos motivos (desculpas?????) levam alguém para o bar beber uma ao invés de viver a vida.

À espreita, lá onde os olhos se misturam com a mente, há o mais perigoso tipo de fúria. A da impotência.

Impotência de que? Incapacidade para o que?

Quando nasceu Rayban, ela fez o que as mães costumam fazer: ensinou a ele a arte de resignação.

A arte de aceitar ser o que os outros, ou a própria mãe, quer que sejamos. No seu caso, uma boa menina, comportada e recatada. Aquela que não faz a mamãe passar vergonha na frente dos outros.

E convenceu-se de que implacável é a punição para quem ousa dar um passo além do permitido.

Onde foi parar a adolescente cheia de idéias revolucionárias? Qual a punição dada que arrancou sua energia e determinação? A fome de vida, de justiça, quem sabe de aventuras e de, um grande amor? Onde está aquela jovem espoleta e cheia de vida que serviu de modelo para muitas meninas recatadas e comportadas? A punição por ousar ir além do permitido foi o confisco dos seus sonhos e desejos?

………., no cativeiro,os animais se humanizam. O cárcere lhes arranca a vida, o desejo e a busca.

Concordo plenamente. Os humanos também sofrem a conseqüência do cárcere imputado ou auto-imputado. Ou seja, não importa quem nos aprisiona, a prisão rouba nossa alma, nossos sonhos e desejos. Mesmo quando nós mesmos nos aprisionamos e jogamos a chave fora.

O que aconteceria se você encontrasse a chave do cadeado invisível de sua vida? O que aconteceria se você saltasse o fosso de sua rotina? O que aconteceria se você desse o passo da elefanta?

O que lhe aconteceria??????????????????????????????????

Bem, talvez seja melhor caminhar até o balcão e beber uma.

Será? De novo não. Repito: o que vai acontecer na sua vida se você abrir o cadeado invisível com a chave invisível que pode estar contigo?

Acostumado à tragédia de pagar por tudo que tem, inclusive o afeto……………..

Quanta coisa você bancou, pagou, aceitou. Acredito que desta fase você já passou… Estou certa ou enganada?

Perdeu a inocência no instante da descoberta.

Descobrir que existe a sexualidade e que ela pode se expressar de várias formas foi um golpe duro e difícil de agüentar.

E também os que arriam por desistência. Até mesmo os que morrem porque esqueceram de viver.

Esta é uma opção que faz muitos irem ao balcão do bar beber uma: desistir. Desistir dos sonhos e da vida. Você já fez isso muito mais do que deveria.

Esse Thierri humilde, que muita gente arrelia, entendeu que não havia nada mais nobre do que dar importância na morte mesmo a quem não a teve em vida. Ele, que conhece na pele e na herança a desigualdade da sina, inventou um jeito de igualar a todos pelo menos no último dia.

E você, conhece na pele, no corpo e na alma a herança, a sina de ser diferente? Desigual? Ser do seu jeito de ser? Ser homossexual?

O que empresta cor à sua vida virou uma sentença de morte.

Deixar de ser quem se é, pode ser pensado como uma forma de morte em vida?

Os cascos da realidade esmagaram os sonhos do menino.

Eu sei bem como é isso. A realidade é dura e esmaga rapidinho os nossos sonhos se não formos fortes, persistentes e determinados. (Gostei dos cascos. Realmente a realidade pisoteia nossa ingenuidade)

– Não aguento mais. Mas que coisa horrível. Só fazem projetos que não prestam.

Essa frase e essa insatisfação com nossos políticos é sua marca adolescente mais intacta. Amadureceu e envelheceu contigo. Pena você não pensar em fazer parte da massa política e renovar a classe no Brasil. Tenho certeza de que você seria incorruptível, competente, e acima de tudo, humana o suficiente para lutar pelas minorias. Sei, sei, estou delirando!!!!! Mas admiro sua indignação e sua disposição de infernizar a “vidinha mesquinha destes políticos indecentes”.

Bem, sempre que alguém não se encaixa no mundo da maioria, é logo chamado de maluco.

Nunca te perguntei, e se você falou, esqueci: já te disseram que você é maluca?

Perseguida por um diagnóstico médico: esquizofrenia. Poderia ser confinada em um manicômio. Ou ficar esperando a vida acabar em uma clínica. Preferiu inventar uma Frida. E, de algum modo, a família compreendeu. Num mundo que se especializou em esmagar, eliminar e encarcerar a diferença, o melhor para Nilza era ser Frida. E a deixaram à vontade.

E “você” se tornou “cê”, que se tornou “cezinha”. Qual o diagnóstico? Ser diferente? Hiperativa? Homossexual? Você é muito mais do que isso. Mas também é isso.

Esta é a história de uma mulher que cometeu um crime que a humanidade não perdoa. Recusou-se a ser vítima.

Adoro pessoas assim. E você é assim. Para não ser vítima, você se anestesiou para a vida. Ou como você gosta de dizer: HIBERNOU. Nunca pensou se não teria sido melhor ser vítima?

Decidiu que não seria coitada. Que o mundo se virasse com isso. Que o mundo achasse outras vítimas para preencher seu horror.

Concordo com isso. Quem não gostar que se retire. Quando você vai pensar assim também?

Só sabe que decidiu que não se submeteria. Que reinventaria seu destino. Reinventaria a si mesma.

É onde precisamos chegar, caso você decida sair da hibernação. Como você se imagina? O que e como você gostaria de ser? Pense sobre isso. Ninguém melhor do que você para saber quem você é e gostaria de ser. Pode contar comigo. Nessa repaginação eu sou companheira. Com uma condição: que você seja genuinamente você mesma.

…… descobriu nesse momento que era capaz de reescrever seu destino.

Você acredita em destino? Qual é o seu destino?

Logo…… aprendeu que a independência é areia movediça. Território a ser tomado e retomado dia após dia.

E haja determinação e persistência. Como diz um ditado popular, “é matar um leão por dia” (não me lembro bem da frase, mas o espírito é esse).

– Em primeiro lugar, eu não vou desistir. Em segundo, a vida é um risco. Não só para mim. Mas para todo mundo.

Palavras sábias desta anônima corajosa de “A vida que ninguém vê”. Cabe um plágio aí. Sem risco de processo.

Exilados do outro, exilados de si mesmos.

Longe de si mesma. Como é viver longe de si mesmo?

Então, as horas mortas iam lhes solapando a consciência e a vontade. Iam lhes roubando o sentimento e o sentido. Um dia se exilavam. Primeiro, morria a mente. Depois, o corpo.

E o prazer, o desejo e a vontade também morrem. Sabia?

Quando aparece alguém de olhos brilhantes, dá vontade de parar, pedir licença e intimar: o que você está escondendo atrás dessas pestanas?

…..tem olhos brilhantes. ……. Sabe por quê? Porque …… tem um sonho. Descobriu que tinha aos nove anos e conseguiu realizá-lo aos 55. Sim, por que sonhos não se encontram nas prateleiras, não basta atirar o cartão de crédito no balcão e sair com um debaixo do braço. Sonhos são touros xucros. Tem de pegar à unha. É isso ou ficar pelos cantos exercitando a autocomiseração , chapinhando na apatia.

Quais seus sonhos, projetos e metas para ter olhos brilhantes e satisfeitos? Lambuzados do prazer da meta vencida, do obstáculo vencido e da vida em andamento. Lembre-se, levou 46 anos para esta pessoa realizar o seu sonho de menina. Ela não desistiu. E você? Onde deixou seus sonhos? Trancados em algum lugar, sem chances de recuperar a chave, jogada fora ou perdida no fundo do baú? Quem sabe já perderam a perspectiva e precisam ser renovados? Duvido que você tenha esquecido verdadeiramente seus sonhos de menina. Permita-se resgatá-los.

Porque há coisas que não devem ser ditas……. aprendeu há muito tempo que lembrar é viver de novo.

Fazer terapia é isso. Existem coisas ainda não ditas?

Dando ao proprietário daquelas recordações a chance de dar marcha à ré no tempo.

Sabe aquela idéia de encontrar no tempo e na história o fato que desenrolou (ou desencadeou) o filme da sua vida? Uma chance para dar marcha à ré e mudar o futuro, a história? Lembra do filme “O efeito borboleta”? Infelizmente, não podemos rebobinar a fita, e localizar o ponto, deletar, cortar, suprimir. Aliás, que filme reflete o que você viveu até hoje?

O que se desejaria a uma moça em 1955? Um marido, provavelmente.

Era esse o desejo de sua família?

Um álbum em branco é todo possibilidade. Como são as vidas em seu início. As vidas ainda por viver.

A vida enquanto estamos vivos é cheia de possibilidades. Tanto faz a idade ou as experiências que tivemos até aqui.

As moças – as de ontem e as de hoje, as de sempre – sonham com  uma vida que não seja a de suas mães.

Concordamos?

As pequenas conquistas que tecem uma vida verdadeira. Porque a vida nada mais é do que essa trama de detalhes que só fazem sentido para quem os viveu.

Imagino quantos detalhes fazem parte da sua vida. Imagino o sentido que tudo tem ou deve ter para ti. Pode parecer que não sinto ou não entendo este lado da sua vida que ninguém vê. Muito pelo contrário. Eles te dão um colorido único.

Rostos somem e outros aparecem, e outros que sumiram reaparecem mais tarde, e outros nunca mais. E poucas vezes esse entra e sai faz algum sentido, por que na vida tudo é caos e descaminho, tudo é encontro e desencontro.

Existem fatos como o abuso, o deboche; e pessoas, como a Fulana, a Sicrana, a mãe da Beltrana, as freiras do colégio, que talvez estejam superdimensionados.  Temos que redimensioná-los. Hiberná-los. Congelá-los. Novos personagens e acontecimentos devem invadir e habitar sua vida. Talvez provoquem um novo caos. O que você acha?

Uma vida só faz sentido para quem a viveu.

Quando li esta frase sabia que seria o título desta crônica. Só você sabe o sentido da vida que você escolheu viver. Qual o sentido desta vida?

São os acasos que mudam tudo na tua vida, detalhes que acontecem e poderiam não acontecer.

Tipo Sicrano, o abuso, o deboche, a mãe castradora, etcetcetcetcetcetc. Como seria se estes acasos não tivessem acontecido?

“Esperando na fila da existência”.

Você está esperando O QUÊ ?

E o que a rotina faz com a gente é encobrir essa verdade, fazendo com que o milagre do que cada vida é, se torne banal.

Sabia que você é uma pessoa importante e querida para muitas pessoas? Que você, assim como eu, somos um milagre e uma bênção para amigos e familiares?

E cada pequena vida, uma Odisséia.

Não diminua a vida que você teve ou tem até aqui. Ela é o reflexo das suas escolhas. Apenas isso. Sempre podemos escolher coisas novas e mudar drasticamente nossas vidas. Ou, quem sabe, apenas trocar o tempero suavizando ou apimentando nossa existência.

Porque nada é mais transformador do que nos percebermos extraordinários – e não ordinários como toda miopia do mundo nos leva a crer.

Ou seja, se valorize, goste de você do jeito que é.

Olhar dá medo porque é risco. Se estivermos realmente decididos a enxergar não sabemos o que vamos ver.

Então, porque espiar? A surpresa, o novo, o desconhecido dão medo, assustam? Mas só assim conseguimos mudar o curso de nossas vidas.

Tudo o que somos de melhor é resultado do espanto. Como prescindir da possibilidade de se espantar?

Se Sicrano não tivesse reagido como reagiu, outra teria reagido de igual maneira. Mas, como você reagiu à reação de Sicrano? Com espanto, pavor? De quem? De VOCÊ mesma? Já não está na hora de se reconhecer e se aceitar do jeito que é, sem espanto?

Medo é necessário, faz sentido. Só não dá para ter medo de ter medo, paralisar e deixar as histórias passarem sem encontrar quem as conte.

Por mais que você escolha não viver, a vida te agarra em alguma esquina. O melhor é logo se lambuzar nela, enfiar o pé na jaca, enlamear os sapatos. Se quiser um conselho, vá. Vá com medo, apesar do medo. Se atire. Se quiser outro conselho, não há como viver sem pecado. Então, faça um favor a si mesmo: peque sempre pelo excesso.

Acho que não preciso dizer mais nada. Este parágrafo diz tudo o que penso e acredito. Não tenha medo. Apenas vá em frente e viva. Viva a vida que você quiser. Pode ser a vida que ninguém vê, mas é aquela que faz sentido para ti. Apenas viva e seja feliz. Reencontre seus sonhos, se adone da chave invisível do cadeado invisível para quando estiveres pronta para abri-lo. Seu destino, suas novas escolhas, seu EU estará lá. Espero que tenhas gostado da brincadeira séria. Sua terapia está inteira nestas linhas.  Seu tema de casa para trazer respondido no papel é a resposta a todas as perguntas feitas no decorrer da crônica. Brincadeirinha!!!!!!!rsrsrsrsrsrsrsrrsr Apenas, pense sobre cada uma delas. Se puder e quiser, as respostas serão muito bem vindas!!!!

Estudo de Caso

I. CASO CLÍNICO

George é um jovem de 16 anos, transferido para o hospital a partir de um centro de detenção juvenil, após uma séria tentativa de suicídio. De algum modo, ele atara cadarços de sapatos e tiras de tecido em torno de seu pescoço, causando prejuízo respiratório, sendo encontrado cianótico e semiconsciente. O jovem dera entrada no centro de detenção naquele dia e os funcionários haviam percebido que ele se mostrava bastante retraído. Na admissão, George relutou em falar, exceto para dizer que iria matar-se, e ninguém poderia impedi-lo. Entretanto, ele admitiu uma história de 2 semanas de humor  deprimido, dificuldade para dormir, diminuição do apetite, menor interesse por tudo, sentimentos de culpa e ideação suicida. De acordo com seus pais, George não teve dificuldades emocionais até os 13 anos, quando então se envolveu com drogas, principalmente LSD, maconha e sedativos não-opióides. Suas notas caíram drasticamente, ele fugiu de casa em diversas ocasiões após discussões com seus pais, e fez um gesto suicida tomando uma superdosagem de aspirina. Um ano depois, após uma discussão com o diretor, foi expulso da escola. Incapaz de controlarem seu comportamento, seus pais fizeram com que fosse avaliado em uma clínica de saúde mental, sendo recomendada a colocação em um albergue de grupo.Ele, aparentemente, saiu-se bem ali, e seu relacionamento com os pais melhorou imensamente com aconselhamento familiar. Ele era bastante responsável, mantendo um emprego e freqüentando a escola, e não esteve envolvido em quaisquer atividades ilegais, incluindo o uso de drogas. Seis meses antes da admissão no hospital, entretanto, George novamente começou a usar drogas e, ao longo de duas semanas, engajou-se em 10 arrombamentos, sempre sozinho. Ele recorda que na época estava deprimido, mas não consegue recordar se a alteração no humor ocorreu antes ou depois da volta ao envolvimento com drogas. Então foi enviado para o centro de detenção juvenil, onde se saiu tão bem que recebeu alta e foi colocado sob a tutela dos pais 3 semanas antes. Um dia depois de voltar para casa, saiu impulsivamente com seus colegas em um automóvel roubado, para uma viagem ao Texas, sendo detido e readmitido no centro de detenção. A depressão de George começou logo depois, e, de acordo com ele, a culpa com o que fizera aos pais o levou à tentativa de suicídio.

II. DINÂMICA DO CASO

Apesar de não haverem dados suficientes para formular um entendimento psicodinâmico detalhado, várias são as observações e reflexões possíveis, levando-se em consideração os dados conhecidos. Continuar lendo “Estudo de Caso”