Toda hora chega

Rodei o carro e o corpo. Rodei à baiana.

Foi preciso, mais que necessário.

Tem comentário e impertinência que merece a ira dos Deuses e o asco dos mortais.

Tem gracinha que alastra maledicência.

Subserviente não sou, não sei, não serei jamais.

Engolir sapos e trasgos. Arrrrrggggg Vomito. Estrebucho. Grito. Sapateio. 

Soco a pele delicada dos sentimentos.

Me afeto, me rasgo, me esparramo inteira. 

Retalhada, me arrasto em busca de colo e fala mansa.

Me remendo em pontos grandes e mal feitos.

A pele afetiva se emenda, se remenda, se regenera no sussurro das palmeiras, no pio dos bentevis.

Vou ficar de orelha em pé, nada de chorar as pitangas, nem andando de rédea solta, muito menos no cabresto, como dizem na minha terra.

Vou largar campo afora o que me desforra.

Por ora, espero a hora.

Um dia, toda hora chega.

Raivosa

Acordei com a pá virada.

Igual à pá dando patadas no terreno

da obra, eclodindo feito tempestade, do ladinho do quarto.

O dia mal surge por detrás das cortinas de linho 

acinzentado.

Salto da cama, tonta ainda.

O espelho confirma o temporal que se aproxima.

Os martelos se apresentam. 

Faço café e uma longa lista de afazeres.

“Pq vc não vai pra casa de sua mãe?” Fui. 

Seiscentos quilômetros de olhos esbugalhados,

Chorumela e raiva,

chego no meu refúgio. 

Ainda raivosa, descarrego o carro. Desabo inteira.

Abro portas e janelas. 

O silêncio me abraça. A brisa leve, afaga. O sol abranda e me embala.

Me acalmo. A longa lista de afazeres cresce.

Calmamente.