Vozes

Meu maior desejo e cobiça, por ora,

é que as vozes que me possuíram e me habitaram, neste último mês,

me abandonem. Por inteiro e por completo.

Que se partam e partam em paz. Deixem-me comigo mesma.

Me preencho das minhas próprias ausências,

em meio à solidão, cercada de silêncio.

Em meio a este desdém, minha voz jaz acabrunhada,

clama pelo brado estrondoso e retumbante.

Asfixiada goela abaixo. Calada. Submissa.

Entorpecida ainda, pressinto-a revivescer.

Às vozes que partiram, obrigada pela presença.

À minha voz, por favor, não demore.

Mexa-se.

Silêncio

Amo o silêncio

O quieto, o reservado, o parado. A vida no vácuo, no compasso, na espera.

É onde me encontro.

Encontro também o que conta. O que importa.

A mais profunda e verdadeira interioridade.

Mas tem silêncio sinistro.

Que acorda no meio da noite.

Que amedronta no meio do dia.

Que cala o vento e o mar, a folha que cai e o pio do sabiá.

Que enregela o fluir da vida.

Um silêncio de morte, de vida que esvai.

De esperança que emudece, some, desaparece.

Odeio este silêncio.

Ele oprime, deprime.

Mata.

 

Espaços

Tempos atrás vi ou ouvi, não lembro mais, que existem distâncias que as pessoas precisam ter umas das outras pra não se sentirem invadidas. Por exemplo, o australiano e o europeu (na sua maioria) precisa ter de 1 a 2 metros entre ele e o outro  (óbvio que estou falando do contato cotidiano entre colegas e amigos. Imagino que a intimidade permita maior aproximação em qualquer nacionalidade). Brasileiros gostam de estar próximos, gostam de beijos e abraços, beirando muitas vezes ao exagero. Mas daí, perdi o fio da meada. O rumo da conversa. O espaço também.  Percebi então, ao ler posts antigos do meu blog, depois de ler a frase de Clarice Lispector “eu me dou melhor comigo mesmo quando estou infeliz: há um reencontro. Quando me sinto feliz, parece-me que sou outra. Embora outra da mesma. Outra estranhamente alegre, esfuziante. Levemente infeliz é mais tranqüilo.”o quanto ando deprimida, down, pra baixo. Sei das minhas oscilações de humor, hormônios, menopausa, tireóide, stress. Coisas de mulher de meia idade, ninho vazio, mudanças e recomeços. Cheguei à conclusão de que, ou só escrevo quando estou deprê, ou, não escrevo quando estou superanimada e feliz. (Quem convive comigo sabe que sou uma pessoa essencialmente feliz e bem humorada!!!) Quer dizer que ensimesmada fico mais reflexiva? Fico – ou pareço – mais depressiva? Só sei que preciso de espaço pra fazer crescer idéias, atos e fatos. Preciso de espaços gigantescos pra abrir as asas e voar, pra criar meu mundo e me realocar. Sem este espaço o outro me aprisiona, me anula, me faz ser quem não sou. E aí me perco de mim mesma pra me reencontrar de novo no espaço indeterminado do silêncio e da solidão.

Este espaço não tem medidas físicas. É puramente sensorial.

Magistralmente essencial.