Sogras

A minha era venenosa. Literalmente e venturosamente.

Talvez a benção dos velhos seja falar o que tem vontade, não importando o lugar, a pessoa, a situação. À  medida que aprendi a conviver pacificamente com ela – e imagino que ela me adorava – soube como evitar e desviar dos seus botes. Porque ela não poupava ninguém. De todas as coisas que lembro é que a sopa dela, é até hoje, a melhor que já provei; a galinhada tinha seus dias divinos e o sagu era simplesmente de comer ajoelhada, retorcida e com colherão. O melhor sagu de vinho do mundo!!!! Sempre a admirei pela capacidade de receber qualquer um a qualquer hora, não importando o que estava planejado para o dia. Uma benção da idade, certamente. Ela recebia sem cerimônia nem exageros: um chimarrão e um prato com doces. Qualquer doce de pacote de padaria. Nada de luxos ou surpresas. 

Para ela isso bastava. E era o suficiente. 

Uma das suas frases marcantes era a de que Deus nos deu dois ouvidos: um para deixar entrar e outro pra deixar sair o que quer que fosse dito, falado, comentado, aventado, gritado, sugerido. Nada de engolir em seco, muito menos caraminholar ou surtar. Sei que ela usou este mantra durante toda sua vida. Ou me fez parecer que era assim que ela administrou sua vida afetiva, até se tornar venenosa. Ela soube se blindar e quando chegou na reta de chegada, seu aniversário de 90 anos, ela simplesmente entregou os pontos e jogou a toalha. Foi apagando feito luzinha de Natal até partir para o outro plano sem muito sofrimento, mas muito choro de familiares amigos, vizinhos e parentes. Entendi que todos a respeitavam e que ela faria falta.

Eu bem que tentei colocar em prática este mantra. Nunca me bastou. Talvez por ser de caraminholar tudo e todos e surtar de vez em quando. Não aceito nem permito que façam dos meus ouvidos uma privada. Enquanto psicóloga, sim. Enquanto ser humano, não.

Acredito que todos temos direito a opinar, aceitar e discordar. Ter ideias e sonhos próprios. Metas, ritmos e objetivos pessoais. Ser o que se é ou se quer ser.

Este tem sido meu mantra. Possivelmente não chegue aos 90 anos como minha sogra. Também não chegaria se fizesse como ela fez. 

Somos mulheres de outros tempos.

Percebo porém e aos poucos, que tornar-se sogra e por tabela, venenosa, é uma questão de tempo.  

Me perdoa?

  • Amor da minha vida, tudo bem?
  • Tudo bem mesmo?
  • Hã, hã. Por que? Alguma coisa errada?
  • Errada?
  • É. Errada. O que está acontecendo?
  • Acontecendo? Nada.
  • Fala logo. Te conheço.
  • Tá. Liguei pra sua mãe.
  • E?
  • Pedi pra ela ficar num hotel. Eu não aguentaria conviver com ela um mês inteirinho, com você viajando o tempo todo. Você sabe como ela pega no meu pé. Critica tudo. Diz que minha comida é horrível, que parece uma lavagem, que não cuido bem de você. Vive cobrando netos e insinuando que sou estéril e egoísta. Ela me detesta. Você sabe disso, não sabe?
  • Você está exagerando.
  • Exagerando? Eu? Você é um insensível!É fácil falar quando se sai segunda-feira às oito horas e volta no sábado pela manhã. É fácil falar quando se é o filho perfeito e favorito…. o queridinho da mamãe.
  • Isso não é verdade.
  • É verdade e você sabe disso.
  • Em que hotel ela vai ficar?
  • No “Aconchego Inn”. Me perdoa?
  • Na pensão da dona Marcelina?
  • Foi o mais em conta que encontrei. É por um mês, lembra?
  • Mamãe vai me matar! Você tem coragem de me chamar de insensível?
  • Ela vai adorar. Você vai ver. Tem sempre uma fofoquinha….
  • Você já falou pra ela?
  • Mais ou menos. Ela sabe que reservei um hotel pra ela ter mais privacidade. Mas não disse que seria na pensão da Dona Marcelina. Me perdoa?