Vozes

Meu maior desejo e cobiça, por ora,

é que as vozes que me possuíram e me habitaram, neste último mês,

me abandonem. Por inteiro e por completo.

Que se partam e partam em paz. Deixem-me comigo mesma.

Me preencho das minhas próprias ausências,

em meio à solidão, cercada de silêncio.

Em meio a este desdém, minha voz jaz acabrunhada,

clama pelo brado estrondoso e retumbante.

Asfixiada goela abaixo. Calada. Submissa.

Entorpecida ainda, pressinto-a revivescer.

Às vozes que partiram, obrigada pela presença.

À minha voz, por favor, não demore.

Mexa-se.

Presente do mar

Anne Morrow Lindberg

O livrinho, pequeno em tamanho e gigantesco nas reflexões, foi originalmente escrito em 1955, e reeditado em 1975. A autora buscou na solidão de uma ilha e no contato com as conchas, um bálsamo para seus conflitos pessoais.

conchas 2

“Pois ser mulher é ter interesses e obrigações que irradiam em todas as direções a partir de um núcleo materno central, como os raios que partem do centro de uma roda. O padrão de nossas vidas é circular em sua essência. Precisamos estar abertas a todos os pontos da circunferência: marido, filhos, amigos, casa, comunidade: tensionadas, expostas, sensíveis a cada apelo, como uma teia de aranha que balança a cada brisa que sopra. Como é difícil alcançarmos um equilíbrio entre tantas tensões contraditórias! E, ao mesmo tempo, esse equilíbrio é essencial para o funcionamento adequado de nossas vidas.” (p. 37-38)

“E aqui me confronto com um estranho paradoxo. Instintivamente, a mulher quer se doar; no entanto, fica ressentida por se dar em pequenas doses. Seria este um conflito básico? Ou eu é que estaria simplificando demais um problema muito mais complexo? Acredito que a mulher não se ressinta tanto por se dar em pequenas doses, mas por se dar em vão. Não receamos o fato de que nossa energia possa estar sendo escoada por pequenas brechas, mas que possa estar se perdendo pelo caminho. O problema é que não vemos os resultados de nossa doação de forma tão concreta, como acontece com o homem em seu trabalho.” (p. 53)

“Na verdade, este é um dos momentos mais importantes de nossas vidas – quando estamos sozinhos. Algumas fontes começam a jorrar apenas quando estamos sós. O artista precisa ficar só para criar; o escritor, para elaborar seus pensamentos; o músico, para compor; o santo, para rezar. A mulher precisa de solitude para reencontrar sua verdadeira essência, núcleo indispensável a partir do qual será tecida toda uma gama de relações humanas. Ela precisa encontrar a quietude interior que Charles Morgan descreve como “a quietude da alma em meio às atividades da mente e do corpo, para que ela se torne tão serena como o eixo de uma roda em movimento.”(p. 57)

“As ondas ecoam atrás de mim. Paciência, fé, compreensão. É isto que nos ensina o mar. Simplicidade, solitude, intermitência … Mas há outras praias para se explorar. Há outras conchas para se encontrar. Este é apenas o começo.”(p. 127)

Espaços

Tempos atrás vi ou ouvi, não lembro mais, que existem distâncias que as pessoas precisam ter umas das outras pra não se sentirem invadidas. Por exemplo, o australiano e o europeu (na sua maioria) precisa ter de 1 a 2 metros entre ele e o outro  (óbvio que estou falando do contato cotidiano entre colegas e amigos. Imagino que a intimidade permita maior aproximação em qualquer nacionalidade). Brasileiros gostam de estar próximos, gostam de beijos e abraços, beirando muitas vezes ao exagero. Mas daí, perdi o fio da meada. O rumo da conversa. O espaço também.  Percebi então, ao ler posts antigos do meu blog, depois de ler a frase de Clarice Lispector “eu me dou melhor comigo mesmo quando estou infeliz: há um reencontro. Quando me sinto feliz, parece-me que sou outra. Embora outra da mesma. Outra estranhamente alegre, esfuziante. Levemente infeliz é mais tranqüilo.”o quanto ando deprimida, down, pra baixo. Sei das minhas oscilações de humor, hormônios, menopausa, tireóide, stress. Coisas de mulher de meia idade, ninho vazio, mudanças e recomeços. Cheguei à conclusão de que, ou só escrevo quando estou deprê, ou, não escrevo quando estou superanimada e feliz. (Quem convive comigo sabe que sou uma pessoa essencialmente feliz e bem humorada!!!) Quer dizer que ensimesmada fico mais reflexiva? Fico – ou pareço – mais depressiva? Só sei que preciso de espaço pra fazer crescer idéias, atos e fatos. Preciso de espaços gigantescos pra abrir as asas e voar, pra criar meu mundo e me realocar. Sem este espaço o outro me aprisiona, me anula, me faz ser quem não sou. E aí me perco de mim mesma pra me reencontrar de novo no espaço indeterminado do silêncio e da solidão.

Este espaço não tem medidas físicas. É puramente sensorial.

Magistralmente essencial.

Família e Solidão

Uma das funções da família é dar a seus membros um sentido de individualidade. A experiência humana de identidade possui dois pontos importantes: um sentido de pertencer e um sentido de poder ser/estar separado. Quando pensamos no sentido de pertencer a um grupo familiar, pensamos que é condição humana estar inserido num grupo para garantir a sobrevivência e a perpetuação da espécie. As formas de ingressar e existir dentro do grupo familiar podem ocorrer através do nascimento, casamento ou adoção. É neste grupo que encontramos nossa história passada e vivida, costumes, mitos, padrões de funcionamento, linguagem e políticas próprias, que chamamos de bagagem familiar. Toda família se forma a partir de um sistema que se decompõe em vários subsistemas: conjugal, paternal, maternal, filial, fraternal. Estes subsistemas podem englobar várias gerações, fazendo com que cada membro grupo – de uma maneira ou outra – esteja sempre ligado a alguém. Os relacionamentos formados intra e inter membros/grupos, refletem a relação primária dos seres humanos: a relação entre a criança e a mãe ou mãe substituta. A base desta relação está no modo como a mãe se liga à criança, e o modo como isto acontece tem a ver com a própria bagagem familiar materna. Esta vivência pode acontecer de diferentes maneiras: uma delas pode reproduzir a relação simbiótica, onde a mãe vê no filho uma extensão do próprio EU, onde tudo o que o bebê faz, é visto como seu. Não há diferenciação entre mãe/filho. Pode também acontecer o oposto: a mãe não consegue se ligar ao filho, nem perceber suas necessidades. A diferenciação é extrema. Nem mãe, nem criança, conseguem se vincular, instalando-se o isolamento na relação primária. Independente do tipo de vivência que a mãe tenha com a criança, a presença do pai é fundamental, pois é ele quem trará para a relação, sua própria bagagem familiar, podendo servir de ponto de equilíbrio. As diferentes formas de relacionamentos familiares servem de modelo, pano de fundo para futuros relacionamentos. Assim, podemos viver numa casa sentindo-nos  pertencentes ao grupo familiar, ou ao contrário, nos sentindo sós e isolados.

A distinção entre o estado de solidão e a capacidade de estar só é importante.

O estado de solidão se caracteriza pela presença de sofrimento, angústia, ansiedade. É quando nos sentimos à margem do nosso grupo familiar, isolados, não compreendidos, não aceitos. Esta dificuldade no relacionamento pode ser individual ou própria do grupo familiar. Já “a capacidade de estar só” é alcançada com a maturidade emocional, quando desenvolvemos “a capacidade de ouvir a si mesmo”. É quando nos é permitido e nos permitimos estar com nossos pensamentos e sentimentos, independente do grupo familiar.

No nosso dia-a-dia, quantas vezes estamos sós porque queremos, ou estamos sós, por não termos outra opção?

Ambas são formas de estar no mundo. E ambas são necessárias para o desenvolvimento humano.

Solidão e a “capacidade de estar/ficar só”

É fundamental distinguir o que é o estado de solidão e a “capacidade de estar/ficar só”, muito bem desenvolvida pelo pediatra e psicanalista infantil Dr. D. W. Winnicott.

A “capacidade de estar só” é um fenômeno que ocorre no início da vida e serve como base para a maturidade emocional. Há vários tipos de experiências que levam à formação da “capacidade de estar só”, porém, existe uma – que é básica – e sem a qual, esta capacidade não se desenvolve: é a experiência de ficar só –  como lactente ou criança pequena – mesmo na presença da mãe. É quando o bebê fica acordado, sozinho em seu berço, olhando para um ponto qualquer que lhe chama a atenção. Muitas vezes a mãe – ou quem a substitui – por suas necessidades e não pelas do bebê, tira-o destes momentos únicos e ricos para seu autoconhecimento. Estes momentos a sós criam um tipo especial de relação consigo e com o mundo: é quando o bebê ou a criança pequena que está só, percebe a mãe/ou sua substituta, representada pelo berço, carrinho de bebê ou pela atmosfera geral com cheiros e características conhecidas. É o ambiente seguro.

Maturidade e “capacidade de estar só” significam que o indivíduo teve oportunidade de construir a confiança num ambiente bom e seguro onde as suas necessidades foram decodificadas e respeitadas. A sintonia entre os desejos e necessidades da mãe e do bebê vai criando um ambiente seguro onde a imaturidade do bebê vai sendo compensada pelo apoio da mãe. Esta nem sempre decodificará o que seu bebê necessita, mas se ela estiver disponível alcançará o objetivo da díade mãe/bebê. O clímax desta capacidade é atingida com a maturidade emocional que permite “ouvir a si mesmo”. Portanto, é fundamental ser capaz de estar só com as próprias vontades, desejos, dificuldades, tristezas e todo tipo de pensamentos e sentimentos, desde bebê.

A forma de lidar com a solidão propriamente dita,  varia conforme a capacidade de ter ou não desenvolvido a “capacidade de estar/ficar só”, com confiança em si e no outro. Atualmente, mesmo com a facilidade de comunicação do mundo moderno, as pessoas tem se isolado, por inúmeros motivos (competição, timidez, vergonha, insegurança, etcetc). Tornou-se mais fácil e simples a comunicação via computador, sem contato. Ou via televisão, onde recebemos informações sem precisar expressar nossas ideias e sentimentos. Vale salientar que os meios de comunicação devem ser usados como auxiliares no relacionamento entre  as pessoas e não como substituto delas.

Solidão

Concordo com o poeta:

A solidão precisa ser preservada.

É ela quem dá contorno, delimita e transforma.

Nos torna indivíduos. Unos. Únicos.

Cresço dentro dela e me construo outra:

Melhor, inteira.

Quem somou solidão com depressão

não entendia da matemática afetiva.

Quem associou as duas, enganou-se.

Talvez sigam paralelas,

por vezes perpendiculares.

Quase sempre um par divorciado.

E não, como pensa a maioria,

um casal apaixonado,

de mãos dadas.

Necessidade de solidão

Sempre gostei de ficar sozinha, de momentos a sós comigo mesma.  Sem pai, sem mãe, sem filhos, sem amigos, sem marido ou namorado. Egoisticamente só.  Solamente sola. Muitos não entendem este gosto pelo ensimesmamento, pela solidão. Lendo, vendo televisão, olhando revistas, jogando jogos de computador, cozinhando, arrumando armários, gavetas ou no jardim podando plantas, caminhando pelo bairro, perambulando pela casa.  Sozinha sem conversar e em silêncio. Até mesmo o som do rádio ou da música tornam-se invasivos. Por mais que entenda e respeite esta necessidade, muitas vezes pensei nesta estranheza. Talvez fosse da minha natureza introvertida, da minha timidez. Talvez uma fuga da minha atividade diária de estar sempre com e de ouvir muitas pessoas. Lendo o excelente livro da analista junguiana Clarissa Pinkola Estes “Mulheres que correm com lobos” encontrei um sentido ancestral, selvagem e muito natural para esta necessidade. Continuar lendo “Necessidade de solidão”