Preâmbulo às instruções para dar corda no relógio

“Pense nisto: quando dão a você de presente um relógio estão dando um pequeno inferno enfeitado, uma corrente de rosas, um calabouço de ar. Não dão somente o relógio, muitas felicidades e esperamos que dure porque é de boa marca, suíço com âncora de rubis; não dão de presente somente este miúdo quebra-pedras que você atará ao pulso e levará a passear. Dão a você – eles não sabem, o terrível é que não sabem – dão a você um novo pedaço frágil e precário de você mesmo, algo que lhe pertence mas não é seu corpo, que deve ser atado a seu corpo com sua correia como um bracinho desesperado pendurado a seu pulso. Dão a necessidade de dar corda todos os dias, a obrigação de dar-lhe corda para que continue sendo um relógio; dão a obsessão de olhar a hora certa nas vitrines das joalherias, na notícia do rádio, no serviço telefônico. Dão o medo de perdê-lo, de que seja roubado, de que possa cair no chão e se quebrar. Dão sua marca e a certeza de que é uma marca melhor do que as outras, dão o costume de comparar seu relógio aos outros relógios. Não dão um relógio, o presente é você, é a você que oferecem para o aniversário do relógio.”

(Histórias de cronópios e de famas – Julio Cortázar, p. 27)

 

A repor

Hoje era dia de reposição de duas aulas de cerâmica que perdi no último mês. Poderia participar com a turma da manhã e da tarde. Duas aulas de três perdidas. Amanhã, vou perder a quarta aula do mês. Serão dois dias inteiros pra recuperar quatro tardes de aulas perdidas. Eu bem que poderia ter ido hoje. Preferi colocar o sono, a solidão e a leitura em dia. Verdade, verdade é que eu havia programado perder todas a aulas de cerâmica do mês de outubro – pois estaria no RS – e repô-las em novembro. Ir hoje era ir contra minha programação. Além do mais, não estava com vontade alguma. É como faltar na academia. Pra manter o hábito tem que ir sempre. Mas, voltando à cerâmica. Nas próximas duas semanas preciso recuperar aulas perdidas e colocar em dia todo meu trabalho e peças. Estranho pensar, mas esta conclusão já faz parte do processo de finalização de 2018.

Além da cerâmica, outros temas e metas aguardam suas próprias conclusões.

O ano está acabando. Releio na minha agenda o que havia programado para 2018. Hoje, aquela lista irrealizada não me entristece mais. Sei que ela serve apenas como direção, o norte a seguir. A vida nos coloca frente à tantas questões imprevistas, que o previsto muitas vezes padece em segundo plano e o simples findar do ano, já me alegra. Com o passar dos anos a gente aprende que não pode tudo. A gente aprende que nem tudo depende apenas do querer da gente. As coisas acontecem ou não acontecem. E sim, a gente pode brigar, insistir, persistir. Ou pode simplesmente, aceitar que não era mais aquilo ou aquele não era mais o momento. Aprendi a desistir. Aprendi a esperar. Aprendi que tudo e todos tem seu tempo. Em parte, devo à cerâmica este aprendizado. Assim como ela, eu também tenho meu tempo e meus momentos.

Por isso, cá estou eu, terminando de ler o livro de crônicas de Miriam Leitão, “Refúgio no Sábado”. Aliás, naquela lista da agenda 2018, um dos itens era escrever no mínimo uma crônica por mês. Pelo que pesquisei no blog, atendi a contento este item. Já, o item escrever pelo menos um conto por mês, fracassou completamente. Quem sabe em 2019.

O tempo da cerâmica

Quando comecei a fazer o curso de cerâmica em agosto de 2017, pensei que fosse fácil e rápido concluir as peças e levá-las para casa. Imaginava meus trabalhos espalhados pela casa, embalados em presentes de Natal. Passados doze meses (corridos, e não exatamente trabalhos) ainda não trouxe nada pronto para casa. Com exceção de fotos.

Um ano.

Impaciente e acelerada do jeito que sou em algumas questões, tive de aprender a domar minhas urgências e aguardar o tempo que a cerâmica precisa para ser trabalhada e finalizada. Em torno de 1 a 2 meses para criar e dar acabamento (conforme o tamanho da peça), deixar secar para biscoitar (é a primeira queima), pintar/esmaltar e queimar uma segunda vez. O somatório dá muito tempo. Haja tolerância à frustração e perseverança. Estou contando os dias que faltam pra trazer a primeira remessa de trabalhos prontos.

Além do tempo do próprio ateliê – que deixa acumular uma quantidade razoável de peças para serem queimadas juntas – tem o meu tempo, ainda limitado às 3 horas semanais de aula, para fazer. É neste tempo que aprendo a teoria desta arte milenar, o uso de diferentes tipos de ferramentas, as diversas técnicas, e também, é onde faço e desfaço peças. Tem peça que quebra. Tem peça que fica feia e desmancho. Tem peça que dá muito trabalho.

É neste tempo que posso e pretendo interferir, organizando meu próprio atelier, comprando ferramentas e me exercitando em casa. O que já estou providenciando. Enquanto isso não acontece, o jeito é aguardar. E, ter paciência.

Ontem contei as peças que trabalhei neste ano e que estão na esteira de acabamento. Foram 20 Kg de argila trabalhada e 34 peças produzidas. Segundo as entendidas, um bom trabalho.

 

Jornada Arteterapêutica – Para viver o tempo

Já visualizo textos encadernados, ciclo fechado, fins de semana livres e nada de correria de última hora em busca de materiais, sucatas e textos. Depois do Sound Book, da Síntese Arteterapêutica, enfim a Jornada em Arteterapia. Depois, e quase por último, o Artigo Científico, com data de entrega para abril de 2017. Meu tema? A Arteterapia como terapia, escrita em 1a pessoa: o relato do que foi meu curso, as vivências, insights e aprendizados pessoais. Se eu quiser colocar a mão em mais um certificado, a de Arteterapeuta reconhecida e cadastrada pela Associação dos Arteterapeutas, um cem número de horas de estágio e supervisão me aguardam. Durante o ano que passou, quando algumas colegas iniciaram seus estágios, optei por esperar para quando estivesse atendendo em consultório.

A ideia original ao escolher e fazer o curso de Arteterapia era me reaproximar e retornar à Psicologia (depois de tempo demais longe do consultório), sem muita cobrança e exigências, mas, sempre com muito prazer. Terminar o curso – pelo menos a parte teórica – era o tamanho ideal. Assim, o título de Arteterapeuta, em nenhum momento, pesou para a evolução e finalização do curso. Sabia que participaria dos 3 anos de formação. Como psicóloga, vejo a Arteterapia como um acréscimo bárbaro no atendimento clínico. E pra quem pensa que Arteterapia é tipo uma Terapia Ocupacional, está muito enganado. Eu mesma me surpreendi com o efeito de muitas técnicas e entendimentos psicodinâmicos. São ferramentas e técnicas de trabalho que ampliam e diversificam ainda mais o meu fazer terapêutico, assim como o Coaching Pessoal e tantas outras formações realizadas ao longo do caminho. Sem contar, no passeio que fiz pela teoria analítica de Jung (e que pretendo transformar numa grande expedição), outro referencial teórico que certamente fará alguma diferença.

Enfim… o tema e a própria jornada.

material publicitário usado para divulgação da jornada.
material publicitário usado para divulgação da jornada.

“Jornada Arteterapêutica de finalização do curso de formação de terapêutas em Arteterapia pelo instituto Incorporar-te:Espaço Terapêutico Corpo Artes, no qual foi vivenciado o tempo com mais prazer e consciência. Essa vivência aconteceu no dia 03/12, em Florianópolis. As terapeutas em formação : Andréa Mosqueta, Carol Schesari, Giovanna de Medeiros Cargrin, Helen Cristina Ferreira, Margareth Amud, Marina Luz Rotava Paim, Nanci Hass da Cruz e Suzete Herrmann, conduziram essa vivência.”

momento de falar de expectativas
momento de falar de expectativas
Trabalho em argila.
Trabalho em argila.
O olho de Deus.
O olho de Deus.
Musicoterapia, dança, exercícios respiratórios, meditação.
Musicoterapia, dança, exercícios respiratórios, meditação.

Uma das ferramentas usadas na Arteterapia é a contação de histórias. O conto escolhido foi o fio mágico.

Um pouco de teoria: Aión, Cronos, Kairós e Anenké. Os deuses do tempo.
Um pouco de teoria: Aión, Cronos, Kairós e Anenké. Os deuses do tempo.
O tempo segundo grandes pensadores da história da Humanidade.
O Tempo, segundo grandes pensadores da história da Humanidade.

 

Os deuses do tempo

Como muito bem disse Rubem Alves: “O tempo pode ser medido com as batidas de um relógio ou pode ser medido com as batidas do coração”.

Na mitologia grega se encontravam vários titãs descendentes de Gaia. O caçula era Cronos, a personificação do tempo. Também existia Aión (ou Eón, para os romanos), o tempo eterno, em contraste a Cronos, como o tempo empírico dividido em passado, presente e futuro. Entre essas deidades temporais também tinha Kairós. Kairós é um conceito da filosofia grega que representa um lapso indeterminado em que algo importante acontece.

Aión era o deus das eras, das décadas e dos milênios. Representa o eterno ciclo do tempo e a evolução da humanidade. É a própria eternidade. Por ser o criador do tempo, e de tudo o que existe no universo, os gregos consideravam que a humanidade era filha de Aión, portanto, uma vez que é impossível fugir ao tempo, todos seriam mais cedo ou mais tarde, vencidos por ele.

Os gregos antigos tinham ainda duas outras palavras para o tempo: Cronos e Kairós. Enquanto Cronos faz referência ao tempo cronológico, sequencial, o tempo que se mede; Kairós é o momento indeterminado no tempo, em que algo especial acontece, a experiência do momento oportuno.

Kairós, o deus da oportunidade, era filho de Zeus – o deus dos deuses e de Tykhé, a divindade da fortuna e prosperidade. Descrito como um belo jovem calvo com um cacho de cabelos na testa, ele era um atleta e tinha uma agilidade incomparável. Resplandecente e com a flor da juventude, Kairós tinha duas asas nos ombros e nos joelhos. Sempre sem roupas, ele corria rapidamente e só era possível alcançá-lo agarrando-o pelo topete, ou seja, encarando-o de frente. Depois que ele passava, era impossível perseguí-lo, pegá-lo ou trazê-lo de volta. Entre os romanos era chamado de Tempus, o breve momento em que as coisas são possíveis. Kairós tinha o poder do movimento rápido que podia passar despercebido aos olhos desatentos, tornando impossível recuperar a visão de sua passagem. Dada à sua natureza difícil, raramente proporcionava uma segunda chance. Na filosofia grega e romana é a experiência do momento certo e oportuno. Kairós era descrito como um jovem que não se importava com o relógio, o calendário e o tempo cronológico. Ele era o tempo que não podia ser cronometrado, o tempo que não pertencia a Cronos porque não previsível, apenas acontecia, por isso era chamado de momento ou oportunidade. Kairós é o tempo divino que o vento traz, a vida conspira, decide acontecer sem tempo, sem hora marcada, se manifesta instante a instante e permanece eterno. Kairós marca os momentos que se tornam eternos, ainda que tenham sido breves. Os gregos acreditavam que com Kairós poderiam enfrentar o cruel tirano Kronos.

Cronos era um titã que se tornou senhor do céu após destronar seu pai (Urano), e a partir desse acontecimento os titãs passaram a governar o mundo. 
O mito do Cronos ilustra temas como envelhecimento, mudança entre outros elementos relacionados ao tempo. “Chronos devora ao mesmo tempo que gera”. Essa é uma alusão ao mito que ele devorava todos os filhos assim que deixavam o ventre sagrado da mãe. De acordo com a mitologia ele temia uma profecia segundo a qual seria tirado do poder por um de seus filhos pois não queria que ninguém lhe sucedesse, além dos próprios filhos devorava os seres e o destino.

Cronos era descrito como o velho, o Senhor do tempo, das estações, da pressão das horas ordenadas pelo relógio e pelos dias, meses e anos determinados pelo calendário. Cruel e tirano, Cronos controlava o tempo desde o nascimento até a morte, aquele tempo comum, real, visível e rotineiro. O Tempo Cronos era o ditador da quantidade de coisas realizadas durante o dia, o tempo burocrático, o tempo humano, o tempo que nunca é suficiente, o tempo que escraviza, preocupa e estressa. Cronos deu origem ao cronômetro e aos medidores do tempo, o tempo dos homens. Vivemos no contexto de Cronos, do tempo linear, o tempo que corre sempre para frente. Observamos a nossa idade avançar, o desenrolar de acontecimentos, mudanças, declínios e ascensões. Estamos tão condicionados à necessidade de cumprir as expectativas do tempo imposto pelo relógio, que não nos permitimos ser naturais: tornamo-nos mecanizados pela força do tempo que exige de nós cada vez mais tempo. Cronos nos torna menos humanos e nos torna mais máquinas, porque está sempre ao nosso encalço exigindo pontualidade, estabelecendo ritmos e metas. Pagamos um alto preço para cumprir as normas do tempo.

Em nossa vida estamos sempre lutando contra o tempo tentando distribui-lo entre as nossas diversas atividades diárias. A sensação de estar perdendo tempo com alguma coisa, seja o trabalho, a faculdade, um relacionamento, um livro ou filme ruins ou pouco prazerosos, mostra a nossa preocupação com o tempo que escorre e nos deixa insatisfeitos. Porque para sermos felizes, é preciso mais do que usar o tempo com eficiência.

Kairós está relacionado à qualidade do tempo vivido, um tempo divino, presente nos momentos especiais e inesquecíveis, que não se perdem no tempo do calendário. Ele flui, vai e retorna, marcando os momentos emocionantes. Refere-se a um instante, ocasião ou momento, que deixa uma impressão forte e única por toda a vida. Por isso, Kairós refere-se a uma experiência atemporal na qual percebemos o momento oportuno em relação à determinada ação.

Quantos momentos Kairós deixamos de viver, por estarmos preocupados com o tempo Cronos: o primeiro sorriso de um filho, uma mão estendida no momento oportuno, o abraço confortante no momento de tristeza, um carinho que arranca a tristeza do coração em um momento de infelicidade. São muitos momentos Kairós, que apesar de breves, fazem a diferença. Quantos momentos Kairós são lembrados depois que alguém se foi e, independente do tempo Cronos que tenhamos vivido com essa pessoa, são os momentos Kairós que deixam as lembranças inesquecíveis. São as recordações dos momentos Kairós que nos fazem sentir saudade. Quando estamos vivendo os momentos Kairós queremos que Cronos permaneça imóvel, porque queremos que o tempo pare para eternizar o momento.

O momento passado é único, mas pode ser revivido quando se fecha os olhos para senti-lo novamente. E por permitir sentir novamente, ele também se relaciona ao ressentimento, que é a face negativa de Kairós.

Trazendo o mito de Kairós para o nosso passado, certamente iremos constatar que muitas vezes o tempo das oportunidades se fez presente e o deixamos escapar. Bons negócios, possibilidades de estudos e relacionamentos, chances de perdão e reconciliação, são algumas das aberturas que ocorreram, que poderiam ter atenuado a implacabilidade de Cronos.

Quando vivemos no tempo Kairós aumentam as oportunidades em nossa vida. Basta repensar como surgiram nossas melhores oportunidades: de certa forma, estávamos desprogramados das exigências do tempo cronológico. Para os gregos Cronos representava o tempo que faltava para a morte, um tempo que se consome a si mesmo. Por isso, seu oposto é Kairós: momentos afortunados que transcendem as limitações impostas pelo medo da morte. Sempre que agimos sob o tempo kairós, as coisas costumam dar certo porque sabemos a hora certa de estar no lugar certo. Por exemplo, quando estamos quase desistindo de algo e resolvemos dar um tempo para a pressão, do nada surgem as pessoas certas que nos ajudam com soluções reais e práticas.

Kairos é o tempo oportuno, livre do peso de cargas passadas e sem ansiedade de anteceder o futuro. Ele se manifesta no presente, instante após instante. Esse tempo mágico ou oportuno é um convite para nos despojarmos da razão exagerada, cronológica e voltarmos a brincar com o tempo e vivê-lo com leveza e intensidade.

Agir no tempo regido por Kairós é similar a um ato mágico.

 relogio-afundando

 

 

 

 

O fio Mágico

Era uma vez uma viúva que tinha um filho chamado Pedro. O menino era forte e saudável, mas não gostava de ir à escola e passava todo o tempo a sonhar acordado.

— Pedro, com o que estás sonhar a uma hora destas? — perguntava-lhe a professora.— Estava a pensar no que serei quando crescer — respondia ele.

— Sê paciente. Tens muito tempo para pensar nisso. Depois de crescido, nem tudo é divertimento, sabes? — dizia ela.

Mas Pedro tinha dificuldade em apreciar alguma coisa que estivesse a fazer no momento e ansiava sempre pelo que vinha a seguir. No Inverno, ansiava pelo retorno do Verão; no Verão, sonhava com passeios de esqui e trenó. Na escola, ansiava pelo fim das aulas, para poder voltar para casa; e, nas noites de domingo, suspirava dizendo: “Ah, se as férias chegassem depressa!” O que mais o entretinha era brincar com a amiga Lise. Era uma companheira tão boa como qualquer rapaz e a ansiedade de Pedro não a afectava nem ofendia. “Quando crescer, vou casar-me com ela”, dizia Pedro consigo mesmo.

Costumava perder-se em caminhadas pela floresta, sonhando com o futuro. Às vezes, deitava-se ao sol sobre o chão macio, com as mãos postas sob a cabeça, e ficava a olhar o céu através das copas altas das árvores. Uma tarde quente, quando estava quase a adormecer, ouviu alguém a chamar por ele. Abriu os olhos e sentou-se. Viu uma mulher idosa, de pé, à sua frente. Ela trazia na mão uma bola prateada, da qual pendia um fio de seda dourado.

— Olha o que tenho aqui, Pedro — disse ela, oferecendo-lhe o objecto.

— O que é isso? — perguntou, curioso, tocando o fino fio dourado.

— É o fio da tua vida — retrucou a mulher. — Não toques nele e o tempo passará normalmente. Mas, se desejares que o tempo ande mais depressa, basta dares um leve puxão ao fio e uma hora passará como se fosse um segundo. Mas devo avisar-te: uma vez que o fio tenha sido puxado, não poderá ser colocado de volta dentro da bola. Ele desaparecerá como uma nuvem de fumo. A bola é tua. Mas se aceitares o meu presente, não contes a ninguém; caso contrário, morrerás no mesmo dia. Agora diz-me, queres ficar com ela?

Pedro tomou-lhe das mãos o presente, satisfeito. Era exactamente o que queria. Examinou-a. Era leve e sólida, feita de uma única peça. Havia apenas um furo de onde saía o fio brilhante. O menino colocou-a no bolso e foi a correr para casa. Quando chegou, depois de se certificar da ausência da mãe, examinou-a outra vez. O fio parecia sair lentamente de dentro da bola, tão devagar que era difícil perceber o movimento a olho nu. Sentiu vontade de lhe dar um rápido puxão, mas não teve coragem. Ainda não.

No dia seguinte, na escola, Pedro imaginava o que fazer com o seu fio mágico. A professora repreendeu-o por não se concentrar nos deveres. “Se ao menos”, pensou ele, “já fossem horas de ir para casa!” Tacteou a bola prateada que se encontrava dentro do bolso. Se desse apenas um pequeno puxão, logo o dia chegaria ao fim. Cuidadosamente, pegou no fio e puxou. De repente, a professora mandou que todos arrumassem as suas coisas e fossem embora, organizadamente. Pedro ficou maravilhado. Correu sem parar até chegar a casa. Como a vida seria fácil agora! Todos os seus problemas haviam terminado. Dali em diante, passou a puxar o fio, só um pouco, todos os dias.

Entretanto, logo se apercebeu que era tolice puxar o fio apenas um pouco todos os dias. Se desse um puxão mais forte, o período escolar estaria concluído de uma vez. Poderia aprender uma profissão e casar-se com Lise. Naquela noite deu, então, um forte puxão ao fio e acordou na manhã seguinte como aprendiz de um carpinteiro da cidade. Pedro adorou a sua nova vida, subindo aos telhados e andaimes, erguendo e colocando, à força de marteladas, enormes vigas que ainda exalavam o perfume da floresta. Mas, às vezes, quando o dia do pagamento demorava a chegar, dava um pequeno puxão ao fio e logo a semana terminava, já era a noite de sexta-feira e ele tinha dinheiro no bolso.

Lise também se mudara para a cidade e morava com a tia, que lhe ensinava os afazeres do lar. Pedro começou a ficar impaciente a respeito do dia em que se casariam. Era difícil viver, ao mesmo tempo, tão perto e tão longe dela. Perguntou-lhe, então, quando se poderiam casar.

— No próximo ano — disse ela. — Eu já terei aprendido a ser uma boa esposa.

Pedro tocou com os dedos a bola prateada dentro do bolso.

— Ora, o tempo vai passar bem depressa — disse, com muita certeza.

Naquela noite, não conseguiu dormir. Passou o tempo todo agitado, virando-se de um lado para o outro na cama. Tirou a bola mágica que estava debaixo do travesseiro. Hesitou um instante, mas logo a impaciência o dominou, e ele puxou o fio dourado. Pela manhã, descobriu que aquele ano já havia passado e que Lise concordara afinal com o casamento. Pedro sentiu-se realmente feliz.

Mas, antes de que o casamento pudesse realizar-se, recebeu uma carta com aspecto de documento oficial. Abriu-a, trémulo, e leu a notícia de que deveria apresentar-se no quartel do exército na semana seguinte, para servir por dois anos. Mostrou-a, desesperado, a Lise.

— Ora — disse ela — não há nenhum problema, basta-nos esperar. Mas o tempo passará depressa, vais ver. Há tanto que preparar para nossa vida a dois!

Pedro sorriu com galhardia, mas sabia que dois anos durariam uma eternidade a passar.

Quando já se acostumara à vida no quartel, entretanto, começou a achar que não era tão má assim. Gostava de estar com os outros rapazes e as tarefas não eram tão árduas como a princípio. Lembrou-se da mulher que o aconselhara a usar o fio mágico com sabedoria e evitou usá-lo por algum tempo. Mas depressa voltou a sentir-se inquieto. A vida no exército entediava-o, com as suas tarefas de rotina e a sua rígida disciplina. Começou a puxar o fio para acelerar o decurso da semana, a fim de que chegasse logo o domingo ou o dia da sua folga. E assim se passaram os dois anos, como se fosse um sonho.

Terminado o serviço militar, Pedro decidiu não mais puxar o fio, excepto por uma necessidade absoluta. Afinal, era a melhor época da sua vida, conforme todos lhe diziam. Não queria que acabasse assim tão depressa. Mas deu um ou dois pequenos puxões ao fio, só para antecipar um pouco o dia do casamento. Tinha muita vontade de contar a Lise o seu segredo; mas sabia que, se contasse, morreria.

No dia do casamento, todos estavam felizes, inclusive Pedro. Mal podia esperar para lhe mostrar a casa que construíra para ela. Durante a festa, lançou um rápido olhar na direcção da mãe. Percebeu, pela primeira vez, que o cabelo dela estava a ficar grisalho. Envelhecera rapidamente. Pedro sentiu uma ponta de culpa por ter puxado o fio com tanta frequência. Dali em diante, seria muito mais parcimonioso no seu uso, e só o puxaria se fosse estritamente necessário.

Alguns meses mais tarde, Lise anunciou que estava à espera de um filho. Pedro ficou entusiasmadíssimo, e mal podia esperar. Quando o bebé nasceu, ele achou que não iria querer mais nada na vida. Mas, sempre que o bebé adoecia ou passava uma noite em claro a chorar, ele puxava um pouco do fio para que o bebé tornasse a ficar saudável e alegre.

Os tempos andavam difíceis. Os negócios iam mal e chegara ao poder um governo que mantinha o povo sob forte opressão e pesados impostos, e não tolerava oposição. Quem quer que fosse tido como agitador era preso sem julgamento, e um simples boato bastava para se condenar um homem. Pedro sempre fora conhecido por dizer o que pensava, e logo foi preso e lançado na cadeia. Por sorte, trazia a bola mágica consigo e deu um forte puxão ao fio. As paredes da prisão dissolveram-se diante dos seus olhos e os inimigos foram arremessados à distância, numa enorme explosão. Era a guerra que se insinuava, mas que logo acabou, como uma tempestade de Verão, deixando o rasto de uma paz exaurida. Pedro viu-se de volta ao lar com a família. Mas era agora um homem de meia-idade.

Durante algum tempo, a vida correu sem percalços, e Pedro sentia-se relativamente satisfeito. Um dia, olhou para a bola mágica e surpreendeu-se ao ver que o fio passara da cor dourada para a prateada. Foi olhar-se ao espelho. O cabelo começava a ficar-lhe grisalho e o seu rosto apresentava rugas onde nem se podia imaginá-las. Sentiu um medo súbito e decidiu usar o fio com mais cuidado ainda do que antes. Lise dera-lhe outros filhos e ele parecia feliz como chefe da família que crescia. O seu modo imponente de ser fazia as pessoas pensarem que ele tinha perfil de chefe. Possuía uma certa de autoridade, como se tivesse nas mãos o destino de todos. Mantinha a bola mágica bem escondida, resguardada dos olhos curiosos dos filhos, sabendo que, se alguém a descobrisse, seria fatal.

Cada vez tinha mais filhos, de modo que a casa foi ficando cheia de gente. Precisava de a ampliar, mas não dispunha do dinheiro necessário para a obra. Tinha também preocupações. A mãe estava a ficar idosa e, com a passagem dos dias, ia parecendo mais cansada. Não adiantava puxar o fio da bola mágica, pois isto só lhe aceleraria a chegada da morte. De repente, ela faleceu, e Pedro, parado diante do túmulo, pensou no modo como a vida passara tão rapidamente, mesmo sem fazer uso do fio mágico.

Uma noite, deitado na cama, sem conseguir dormir, pensando nas suas preocupações, achou que a vida seria bem melhor se todos os filhos já estivessem crescidos e com carreiras encaminhadas. Deu um fortíssimo puxão ao fio, e acordou no dia seguinte vendo que os filhos já não estavam em casa, pois tinham arranjado empregos em diferentes pontos do país, e que ele e a mulher estavam sós. O cabelo estava quase todo branco e doíam-lhe as costas e as pernas quando subia uma escada, ou os braços quando levantava uma viga mais pesada. Lise também envelhecera, e estava quase sempre doente. Ele não aguentava vê-la sofrer, de tal forma que lançava mão do fio mágico cada vez mais frequentemente. Mas, sempre que um problema não se resolvia, já outro surgia em seu lugar. Pensou que talvez a vida corresse melhor se ele se aposentasse. Assim, não teria de continuar a subir aos edifícios em obras, sujeito a lufadas de vento, e poderia cuidar de Lise sempre que ela adoecesse. O problema era a falta de dinheiro suficiente para sobreviver. Pegou na bola mágica, então, e ficou a olhar. Para seu espanto, viu que o fio já não era prateado, mas cinza, e perdera o brilho. Decidiu ir para a floresta dar um passeio e pensar melhor no significado de tudo aquilo.

Já fazia muito tempo que não ia àquela parte da floresta. Os pequenos arbustos haviam crescido, transformando-se em árvores frondosas, e foi difícil encontrar o caminho que costumava percorrer. Acabou por chegar a um banco no meio de uma clareira. Sentou-se para descansar e caiu num sono leve. Foi despertado por uma voz que o chamava pelo nome: — Pedro! Pedro!

Abriu os olhos e viu a mulher que encontrara havia tantos anos e lhe dera a bola prateada com o fio dourado mágico. Aparentava a mesma idade que tinha no dia em questão, exactamente igual. Ela sorriu-lhe.

— E então, Pedro, a tua vida foi boa? — perguntou.

— Não tenho a certeza — disse ele. — A sua bola mágica é maravilhosa. Nunca na minha vida tive de suportar qualquer sofrimento ou esperar por qualquer coisa. Mas tudo foi tão rápido! Sinto como se não tivesse tido tempo de apreender tudo o que se passou comigo; nem as coisas boas, nem as más. E agora falta tão pouco tempo! Já não ouso puxar o fio, pois isso só anteciparia a minha morte. Acho que o seu presente não me trouxe sorte.

— Mas que falta de gratidão! — disse a mulher — Gostarias que as coisas fossem diferentes?

— Talvez se me tivesse dado uma outra bola, em que eu pudesse puxar o fio para fora e para dentro também. Talvez, então, eu pudesse reviver as coisas más.

A mulher riu-se.

— Estás a pedir muito! Achas que Deus nos permite viver as nossas vidas mais de uma vez? Mas posso conceder-te um último desejo, meu tonto exigente.

— Qual? — perguntou ele.

— Escolhe — disse ela.

Pedro pensou bastante.

Ao fim de bastante tempo, disse:

— Gostaria de voltar a viver a minha vida, como se fosse a primeira vez, mas sem a sua bola mágica. Assim, poderei experimentar as coisas más da mesma forma que as boas, sem encurtar a sua duração. Pelo menos, a minha vida não passará tão rapidamente e não se parecerá com um devaneio.

— Seja — disse a mulher. — Devolve-me a bola.

Ela esticou a mão e Pedro entregou-lhe a bola prateada. Em seguida, ele recostou-se e fechou os olhos, exausto.

Quando acordou, estava na sua cama. A sua jovem mãe debruçava-se sobre ele, tentando acordá-lo carinhosamente.

— Acorda, Pedro, não vás chegar atrasado à escola. Estavas a dormir como uma pedra!

Ele olhou para ela, surpreendido e aliviado.

— Tive um sonho horrível, mãe. Sonhei que estava velho e doente e que minha vida passara como num piscar de olhos sem que eu sequer tivesse ficado com algo para contar. Nem ao menos algumas lembranças.

A mãe riu-se e fez que não com a cabeça.

— Isso nunca vai acontecer — disse ela. — As lembranças são algo que todos temos, mesmo quando somos velhos. Agora, anda, vai-te vestir. A Lise está a tua espera, não deixes que ela se atrase por tua causa.

A caminho da escola, em companhia da amiga, observou que estavam em pleno Verão e que fazia uma linda manhã, uma daquelas em que era óptimo estar-se vivo. Em poucos minutos, estariam a encontrar os amigos e colegas, e mesmo a perspectiva de enfrentar algumas aulas não parecia tão desagradável assim. Na verdade, ele não cabia em si de contente.

William J. Bennett
O Livro das Virtudes
Editora Nova Fronteira, 1995 (adaptação)

foto da internet
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Senhor do Tempo

Dezembro acaba de bater na porta. É o fim de mais um ano, 12 meses, 365 dias.

É o tempo que devora a vida e o próprio tempo.

Lembrei assim, de Caetano Veloso.

Lembrei também de Cronos e Kairós.

Quem ousaria disparar o tempo para depois devorá-lo sem decência e clemência?

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relogio

“Quando nasce o dia,
O tempo dispara.
Ou será que pára,
Pra ver o sol se levantar?
Quem será que manda na vida?
Quem dá a partida?
Quem que reinventa a luz?
Quem que faz esses azuis?
Como é mesmo que anda o tempo?
Será, sempre assim, tão lento?
Será que passa é por dentro de nós?
Será que é o sol que ordena,
E o tempo que obedece?
Ou será que o sol só desce,
Quando o tempo eleva a luz?
Vós! Passa o tempo, passa a estrada,
Ou será que nada passa?
Nada conta além da graça do amor.
O Amor que é raio e centro,
Eternidade e momento,
Nosso solidário redentor.
Único Senhor do Tempo, Amor!
Como é mesmo que anda o tempo?
Será, sempre assim, tão lento?
Será que passa é por dentro de nós?
Será que é o sol que ordena,
E o tempo que obedece?
Ou será que o sol só desce,
Quando o tempo eleva a luz?
Vós! Passa o tempo, passa a estrada,
Ou será que nada passa?
Nada conta além da graça do amor.
O Amor que é raio e centro,
Eternidade e momento,
Nosso solidário redentor.
Único Senhor do Tempo, Amor!”
Senhor do Tempo- Caetano Veloso

relogio2