Peeling

A primeira vez que fiz fazem cinco anos. Na época entrei de gaiata na intervenção. Em fevereiro daquele ano, numa consulta de revisão com minha dermato, ela sugeriu que eu fizesse o procedimento naquele inverno para homogeneizar minha pele e eliminar algumas manchas de sol. Marquei sem questionar ou entrar em detalhes. Julho chegou e quando vi estava no consultório da médica para fazer meu procedimento, na última semana antes de me mudar para a Venezuela. Também minha última semana como terapeuta de vários pacientes. Assim que entrei na sala recebi um termo de autorização e orientações caso alguma herpes se manifestasse. “Oh-oh”. Pensei. O que é mesmo que vou fazer? Minha médica explicou sobre a queima da pele por ácidos e depois o renascimento de uma pele de “bundinha de bebê”. Vamos lá. Assinei a autorização confiante em seu bom senso e profissionalismo. O procedimento iniciou e senti meu rosto em brasa. Foi a sensação no restante daquele dia. No outro dia a ardência permanecia. Liguei. “É assim mesmo”, me responde a secretária. Mais um dia e amanheço com o rosto repuxado liso, brilhoso, inchado e quente com dificuldade para abrir a boca e falar. Ligo novamente. “É assim mesmo.” Na terceira manhã amanheço com a pele marrom igual a leitão à pururuca. Fico horrorizada e ligo novamente. “É assim mesmo. E amanhã possivelmente quando acordares seu rosto vai estar craquelado e sua pele vai começar a descascar. Serão alguns dias até sua pele normalizar. Não se preocupe, é assim mesmo.” “Algo mais vai acontecer?” “Teoricamente não, mas qualquer coisa você liga”. Dito e feito. Na manhã seguinte amanheci com a aparência da Múmia, com mais de 3000 anos de idade. “É assim mesmo” pensei, resignada. Onde é que eu estava com a cabeça quando topei fazer este tal de peeling? Sequer podia remarcar meus pacientes e cada um que chegava era recepcionado com um “Não se assuste. Fiz um peeling. E é assim mesmo.” Como a grande maioria dos meus pacientes era mulher, a conversa sobre o dito cujo prosseguia ainda alguns longos minutos. A semana passou, eu sobrevivi, minha pele descascou inteirinha e fiquei com a pele de bundinha de bebê. Passados cinco anos, remarquei o procedimento que faz parte dos meus preparativos para o casamento de minha filha, em março de 2012. Hoje acordei com a pele descascando. Ainda bem que sei, porque é assim mesmo.

Terceira semana

UFA. Apesar dos pesares, continuo firme. Dos 11 dias úteis faltei a apenas um. Já não me sinto mais uma completa estranha no ninho. Ao chegar, a recepcionista me surpreende com um “Bom dia Suzete. Tenha uma boa aula.” E na saída escuto uma convencido “Até amanhã”. Ela parece acreditar no meu retorno e isso tem um estranho poder sobre mim. Me compromete. A terceira semana inaugura a primeira sem entrevistas e testes. Meus programas estão definidos, minhas aulas também. A aula de “Localizada” é uma das eleitas. Segundas e sextas-feiras às 10 horas. A surpresa se deu pela troca do professor. Juno saiu do turno da manhã. O novo professor, de nome comum e deletado, é todo sorrisos. Pegamos pesos para braços e pernas. Continuo com os pesos mínimos. 500 gramas para braços e os azuis para as pernas (possivelmente 500 gramas também). Diferentemente da maioria naquela sala, computo meu próprio peso extra no somatório total. Professor diferente é igual a aula diferente. Certo? Certíssimo!!!!!!!! Resumindo o show, sinto-me um guindaste enferrujado numa repetição extenuante de levantamento de pesos. Mas não sou a única. Na turma dos fundos – que é onde fico, por não servir de modelo pra ninguém – pernas, braços e pesos descambam e jazem fora do ritmo e sequência. Esparramam-se vencidos sobre o tapete azul da academia. Músculos novos foram descobertos e não gostaram de aparecer assim, de supetão e aos gritos de “Vamos lá meninas, tá doendo?” Sáááaáááádico. Termina a aula e somos um só grupo. Abatido e abalado. Me arrasto até a esteira. Programa A1. Quatro minutos na velocidade cinco intercalados por dois minutos na velocidade sete. Quarenta minutos sentindo as coxas inchando e desinchando. Pra finalizar, trinta minutos de “Alongamento”. Na saída “Até amanhã”. Penso “Assim espero”. Até amanhã.

"Comer, rezar, amar"

Livro ou filme. Já li e vi duas vezes. A melhor foi a primeira vez que li. Livro indicado para várias amigas e pacientes por retratar muito bem o funcionamento feminino frente a crises. Fiquei encantada com a coragem e o desprendimento com que Elizabeth Gilbert relata sua experiência sabática na Itália, India e Bali. Deu vontade de fazer o mesmo, pois na época, vivia meu próprio período sabático. Um deles. O livro é recheado de reflexões, experiências e sacadas inteligentes e escrito com uma simplicidade cativante. No cinema Julia Roberts e Javier Bardem interpretam Liz e Felipe, seu amor gaúcho/brasileiro encontrado em Bali. O filme chega a ser monótono e, como acontece muitas vezes, deixa a desejar para quem leu o livro. Dela li também o livro “Comprometida” em que Elizabeth fala de seu casamento com Felipe e faz um apanhado da história e dos costumes ao redor do planeta no que se refere à instituição matrimonial.

Um dilema sem Abstrações

“Pois é, estou com a cabeça cheia de caraminholas. A vida toda disse aos quatro ventos que era terminantemente contra a retaliação do corpo. O que pra mim é a mesma coisa que me transformar em outra pessoa.
“Mas você vai fazer mesmo?”
“Vou. Pela primeira vez é como olhar para o céu à noite e ver as estrelas e a lua.”
“Então vai em frente!”
“Mas, como vou olhar para quem me conhece e sabe da minha história e do meu discurso?”
“As pessoas ficam diferentes com a idade. Porque você não pode ficar?”
“É que parece ser pra pior.”
“Não vejo porque. Você vai ficar um mulherão. Quem não quer isso?”
“Odeio mulherões. Peito, bunda, coxas. Pose e cabeça cheia de miudezas. Isso não sou eu.”
“Então porque você vai fazer?”
“Está mais do que na hora. Musculação, ioga, caminhadas, dieta, shakes, drenagem linfática, tudo que já fiz não está resolvendo. Continuo uma broaca horrorosa que ninguém quer.”
“Mas você é um anjo.”
“As pessoas, as empresas, todos preferem mulheres magras e bonitas. É a moda. Quem se importa com o que tem dentro da cabeça ou do coração?”
“Não é bem assim. Sua família, seus amigos te veem como uma pessoa 10.”
“Obrigada. Mas já estou com 40 anos, sem trabalho fixo, sem namorado, sem amanhã.”
“E você acha que recortando o corpo vai ficar diferente?”
“E porque não? Há anos que espero acontecer e não acontece verão. É sempre inverno. Quero calor e gente, quero corpo e cabeça. ”
“Já marcou a data?”
“Já.”
“Quando?”
“Hoje à tarde. Preciso de um responsável que fique comigo no hospital. Você pode?”
“Você quer?”
“Tenho que querer.”
“Não, você não tem que querer. Tem que querer ser você como é.”
“Não me quero mais assim e não coloca mais caraminholas na minha cabeça. Você pode ou não pode ir comigo?”
“Vou perguntar de novo. É o que você quer?”
“ “.
“É o que você quer?”
“ “.
“É. Venha logo e fica com a boca fechada até amanhã.”
“Combinado.”

“Precisamos falar sobre o Kevin”

“Precisamos falar sobre o Kevin” foi a leitura da última semana. Lionel Shriver, autora de “O mundo pós aniversário” tem um jeito muito especial de escrever e retratar suas histórias e opiniões. Expressões fortes e temas polêmicos. Não tem como sair ileso das páginas trabalhadas com o afinco do bom escritor. Enquanto “O mundo pós aniversário”, inicialmente confuso (ao menos para mim) evoluiu para uma história com duas possibilidades e finais, “Precisamos falar sobre o Kevin” é a história de uma mãe que fala de seu filho assassino (versão High School Columbine) que mata e fere colegas, professores……. O tema é pesado, difícil, cheio de questionamentos sobre culpas, sociedade, a maldade humana. O texto é excelente, a história também. Através de cartas, a mãe de Kevin escreve ao pai do menino sobre seus sentimentos, percepções, reflexões e fatos vividos desde o momento em que decidiu ser mãe até a quinta-feira fatídica, dia em que a vida dá uma guinada colossal na vida de toda sua família. O livro transita pelo passado, presente e futuro.
É uma surpresa página à página.

Projeto 5.0

Poderia ser 10.0, Nota mil, Iso 900000000. Tanto faz o número associado. O importante é a ideia. Anos atrás, trabalhando em uma escola, entrei para o universo dos projetos. Havia projetos específicos para pais, alunos, professores. Escola de Pais, Curtindo a Adolescência, Até Logo, Acompanhamento ao professor. Eram trabalhos especificados com tarjas, objetivos, cronogramas, atividades propostas e tudo que se lê em qualquer projeto escrito só que colocado em prática diariamente e avaliado semanalmente e semestralmente. Adorei meus projetos e meu trabalho, mas acima de tudo, amei a metodologia usada para terminar o ano letivo com objetivos alcançados.
Costumo iniciar o ano com metas a serem atingidas nos próximos 365 dias. Divido até por categorias: familiar, conjugal, pessoal, saúde, profissional, acadêmico, lazer. Subdivido as categorias por atividades propostas: perder peso, viajar para determinados países, fazer check up, cursos, finalizar trabalhos manuais, ir mais ao cinema, mudar de visual, trocar as cortinas, etcetcetcetc. Ano após ano, fico feliz com meus avanços e sucessos e desapontada com meus fracassos. Onde eu mais costumo trancar é na parte do “emagrecer X quilos, atividades físicas regulares e alimentação mais saudável”. Vira e mexe, como mais doces do que deveria e caminho muito menos do que precisaria. A conta é fácil de fazer. Continuo fofinha, muitas roupas que adoro não passam dos joelhos, a balança continua hedionda e cruel, e eu me sentindo A Fracassada.
Assim surgiu a ideia do Projeto 5.0. Às vésperas de fazer 50 anos, decidi entrar na metade do meu século de vida com tudo em cima. Depois do check up total, procurei um endócrino e uma academia. Gastei uma pequena fortuna em medicamentos e academia. Agendei consulta com cirurgião plástico e reservei um mês para intervenções e recuperações. Acho que agora não tenho mais volta.
Mas acima de tudo, escolhi que precisava mudar e me adequar a minha nova vida. Escolhi cuidar do meu corpo como cuido da minha mente, cultura, casamento, família, filhos e projetos profissionais/ acadêmicos e de lazer. Decidi que ficar bonita e atraente é um projeto que vale à pena. Cansei do eterno discurso fracassado e engraçadinho do “de novo”, “de novo”, “de novo”. É hora de mudar de discurso e de resultados.
Assim sendo, hoje foi meu primeiro dia de academia. Em plena segunda-feira chuvosa. Nove horas da manhã. Uma hora de esteira e bicicleta + uma hora de exercícios localizados com peso. Se esperasse mais uma hora, faria a aula de hidroginástica. Se fizesse isso, possivelmente amanhã eu não sairia da cama. Amanhã a proposta é esteira e bicicleta + yoga + hidroginástica. Se conseguir sair da cama.

Ai do Arnaldinho

Um misto de euforia e frustração tomaram conta de Júlia, naquela manhã de quinta-feira. Era dia de retirar sua BMW importada, vermelha, acabamento manual no volante e nos bancos de couro. Após meses de espera, seu marido não poderia acompanhá-la. Como de costume, nos últimos vinte e cinco anos, um imprevisto foi mais importante que ela. No mínimo, algum cliente reclamando…… Assim, ela foi sozinha, retirar seu presente de Bodas de Prata. Na saída da concessionária, embriagada com o cheiro inconfundível do couro e fascinada com os detalhes daquela joia alemã, Júlia tomou a segunda faixa à esquerda da Marginal Pinheiros, sem perceber a camionete, que para evitar bater, freou bruscamente cantando os quatro pneus. “Ops”. Júlia acariciou o volante do carro imaginando a tragédia que poderia ter acontecido. Olhou para trás pensando em fazer sinal para se desculpar e agradecer, mas o que viu foi a Toyota colada em sua traseira, fazendo sinal de luz e buzinando alucinadamente. Júlia deu a seta para sair da avenida movimentada e se afastar do mau humorado e impaciente motorista. Surpresa, viu que o dito cujo teve a mesma ideia, e antes de qualquer coisa, viu-se ultrapassada pela camionete, que além de cortar-lhe a frente, freou de forma tão assassina, que ela mergulhou livre e desimpedida em sua traseira. Saiu cambaleante de sua BMW e viu seu presente – com menos de 20Km rodados – amassado como papel e sucateado como ferro velho. O homem que saiu de dentro da Toyota estava encolerizado. “Sua barbeira, o que é isso? Comprou a carteira?” Ele a olhava e gritava um rosário de impropérios machistas, cercando-a como um felino, enquanto Julia, só tinha olhos para seu carro destruído, imaginando a cara do marido quando soubesse de sua proeza. “Moço, eu não tive culpa. Acabei de sair da agência…..nunca ando por estes lados …. Não percebi que o senhor estava do lado, tão pertinho….” “Tenha dó, né madame, acho bom a senhora chamar seu seguro ou seu marido. Se é que tem um.” “… Meu marido é quem deveria ter assinado e saí da agência………….sem seguro…. Céus, o Arnaldinho vai me matar”. “Ou eu, se a senhora não assinar, agora mesmo, um cheque pra pagar a despesa.” “Como?” “Pensa que sai por aí fazendo barbeiragem e fica por isso mesmo?” “Moço eu nunca bati….” “É? E esse carro metido a supositório na traseira da minha camionete é o quê?” “Foi o senhor que brecou deliberadamente para que eu batesse.” “Prova isso.” E antes que Julia pudesse pensar no que dizer ou fazer, o homenzarrão circulou o que restou do seu carro, deu chutes e pontapés na lataria antes acetinada, vermelha e brilhosa. “Nunca bateu, é? E esses amassados, o que são?” “Acho bom o senhor parar agora mesmo, porque estou chamando a polícia.” “Ótimo. A senhora sabe que quem bate na traseira é sempre o culpado.” “Vamos ver.” “Ficou valente, é? Se não sabia dirigir porque se meteu neste trânsito pesado?” Julia emudeceu. Olhava desolada sua BMW destruída, o coração batendo na cabeça prestes a explodir e a lembrança de tudo que ouviria: barbeira, imprestável, burra…. Arnaldinho tinha um jeito tão cruel de falar com ela, e agora, aquilo. Sem contar, aquele troglodita que passou a olhá-la enviezado com um sorrisinho debochado. Igual ao Arnaldinho. E a polícia que não chegava. E quando chegasse, certamente olhando a cena, diria que ela era a culpada, e junto com o troglodita e seu marido imprevisível e imprestável – que diferença fazia isso agora? – diria que era uma barbeira que deveria ficar em casa lavando panelas. “Como é que é, vai chamar o seguro ou o marido? No mínimo o maridão está muuuuuuito ocupado.” Julia mirou-o. Entre ele e o caminhão truck embalado – que se aproximava sinuosamente na pista ao lado – apenas alguns metros. Entre ela e ele, míseros centímetros. Em segundos, seu ódio desvairado empurrou o idiota da Toyota com tamanha força, que era exatamente o que faria com Arnaldinho da próxima vez que surgisse algum imprevisto. Ouviu o PLOFT com os olhos fechados e o corpo tremendo. Esparramou-se na calçada e esperou a calma e a polícia chegar. E ai do Arnaldinho se abrisse a boca e fizesse qualquer comentário.