Tamanhos

Lembra quando chegamos aos 10, 11, 12, 13 anos e nós e nossos pés começaram a espichar? Lembra quando a gente ficava horrorizada ao perceber que calçados 34 e 35 ficavam apertados, e de repente chegou o 36, e então o 37, e sem mais nem menos, apesar do pavor de chegar ao 38, 39, 40, nosso pé simplesmente parou de crescer? O tamanho dos nossos pés, enfim, foi definido. Mas só Deus sabe quantos anos – pelo menos eu, não sei se vocês também – espremi meus pés nos tamanhos 35 e 36, por achá-los mais femininos e graciosos, e também, porque ainda não havia assimilado o crescimento e o novo tamanho dos meus pés.

Hoje, passados 35 anos, vou logo dizendo que uso 36, 37 ou até 38. Conforme a marca ou o tipo do calçado. Não tenho mais vergonha do tamanho do meu pé. O que importa é ficar confortável. Mesmo que calçasse o 41, assumiria meu tamanho e desfilaria orgulhosa meus pés 41.

Isso se chama aceitação.

Felizmente não existe a pressão ambiental sobre o tamanho dos pés, como existe sobre o tamanho do nosso manequim. (Pelo menos não na nossa cultura e na nossa época. Tadinhos dos nossos pés se vivêssemos na China!!!) Mas, infelizmente na nossa cultura e na nossa época, é difícil reconhecer que saímos da zona do tamanho 40, 42, passamos pelo 44 e de vez em quando frequentamos o 46. Do M ao G e então ao GG. Os anos vão passando, nossas experiências e vivências se acumulam, e por que não dizer, nosso peso também.

Vivemos o inferno de tentar caber num corpo que não é o nosso. Um corpo menor. E para caber neste corpo os sacrifícios podem ser enormes, quando não doentios. Acredito que um corpo leve e na medida certa, além de mais saudável, é mais bonito. Mas qual a medida certa para nosso corpo, nossas vivências, e experiências? Estamos nos apertando em tamanhos que não são nossos? Será que algum dia vamos nos aceitar no nosso tamanho?

Isso se chama esperança!!!!
Que por sinal, é a última que morre.

Jantar Harmonizado

Couvert:
Crepe de cerveja com curry de brócolis e dip de alho.
Vinho: Kriter Brut

Entrada:
Mesclun com julienne de pupunha, queijo de cabra, praline de amêndoas e vinaigrette de cognac.
Vinho: Alain Brumont – Gros Manseng/Sauvignon

Primeiro prato:
Tortellini de brie com molho de pera e zest cítrica.
Vinho: Cuvée Tradition Côtes de Provence Rouge 2006

Segundo prato:
Escalope de filet mignon com ragout de cogumelos, batatas ao creme e molho bordelaise.
Vinho: Chateau Latour de By 2004

Sobremesa:
Pain perdu de brioche com chantilly de coco e caramelo de banana ouro.
Vinho: Sauternes Chateau des Tours 2005

Este foi o meu jantar da última sexta-feira. Harmonizado. Harmonizante. Harmonizador. Har-qualquer-alguma coisa.
O jantar foi uma viagem pelos vinhos e culinária francesa. Os vinhos já estão na adega, aguardo as receitas do menu que foram prometidas pelo Chef Rogério Savietto. Recomendo os vinhos e o menu.
Além da comida, dos vinhos, da companhia de vários enófilos, o humor do somellier Eduardo foi contagiante. Entre um vinho e outro, muitas histórias e expressões únicas, (prometi que da próxima vez vou levar meu gravador, porque depois de alguns vinhos não há memória que retenha tantos termos técnicos e exóticos) aprendi como tontear um bom vinho, como pousá-lo na boca, como identificar aromas, como cheirar a taça e a rolha (e o que deduzir dessa fungada), aprendi a viajar fechando os olhos e estimulando as papilas.
Fiz tudo isso, apenas comendo e bebendo. Sem repeteco de prato, mas com a certeza de que outro jantar assim, pode ser repetido tantas vezes quanto o bolso aguentar. O do meu marido, porque o meu bolso está vivendo uma “Fase Sidarta”. Ou seja, apenas filosofando.

“Jesus, o maior psicólogo que já existiu”

Acabo de ler o livro “Jesus, o maior psicólogo que já existiu.” De Mark W. Baker.
O livro estava no meu criado mudo há bastante tempo. Comecei sua leitura diversas vezes mas nunca consegui dar continuidade e finalizá-lo, apesar de suas apenas 191 páginas e seu conteúdo fácil e compreensível, tão típico dos livros de autoajuda. Possivelmente, este seja um dos motivos para seu abandono frequente. Quem leu cinco leu todos os livros de autoajuda que existem!!!!!!!!
Então, para quem gosta de livros de autoajuda, casos clínicos e frases de efeito, recomendo a leitura. O diferencial possivelmente seja a relação entre religião e psicologia que é bastante coerente.
Na pilha de livros do meu criado mudo estão vários outros livros aguardando ser concluídos. Volta e meia dou uma pegada mas eles voltam para a pilha dos rejeitados. São livros técnicos, de autoajuda, romances, contos.
Não é que não sejam bons.
Acredito que não são bons neste meu exato momento de vida, de necessidade ou de função. De repente, ao retomar – depois de tantas vezes – a leitura flui e chego à conclusão de que o livro é muito bom e não entendo como demorei tanto tempo para finalizá-lo.
E é por isso que não os devolvo à estante. Com raras exceções, a maioria valeu a pena ser lido em etapas. Não é como eu gosto de ler. Prefiro a leitura voraz das noites em claro e a expectativa da página seguinte. Sempre.
Mas nem todo livro é, nem pode ser assim.
Alguns precisam ser degustados e digeridos aos poucos.

RESPIRA FUNDO, SE ACALMA E PENSA

Meu amigo Santana pediu que eu postasse uma situação inusitada ou algo de interessante em seu blog. Lembrei da minha viagem ao Canadá, muitos anos atrás, e que começou de um jeito muito atrapalhado.

Promessa é dívida.
Depois de muito pensar, resolvi pagá-la relatando um momento muito significativo em minha vida, que ficarei feliz em compartilhar com toda esta galera “up” que frequenta seu blog, igualmente “up”.
Costumo dizer que para viajar, além de vontade, disposição e curiosidade, basta cash (de qualquer espécie) e documentos. Apenas isso. E com apenas isso toda e qualquer viagem acontece. Roupa, maquiagem, mala, livros, calçados, qualquer coisa se compra. Já perdi – e/ou já perderam – e esqueci tudo que se pode imaginar como imprescindível numa viagem. Possivelmente, alguns dirão, que podemos viajar até sem cash e sem documento. Não duvido. Outros desistem de viajar por não dominarem o inglês ou o idioma do país visitado. Descobri que a língua apenas complica. Nada mais que isso. Ela não impossibilita a viagem.
Porque a língua mãe de todo o planeta é a linguagem internacional dos gestos. E todos nascemos habilitados e aptos a usá-la.
Anos atrás, logo após o 11 de setembro em NY, tive que renovar meu visto americano. Íamos – meu marido e eu – a um congresso em Montreal, no Canadá, e planejamos passar uma semana nos USA. Uma semana antes da viagem, implantaram a entrevista obrigatória no consulado americano. E é obvio, que minha viagem e minha entrevista entraram em conflito de agenda e acabei viajando sem o visto. Por sorte nossa passagem era São Paulo – Toronto. Só fiquei sabendo da falta do meu visto americano a bordo do avião, a 14.000(?) metros de altitude. Meu marido se assegurou de que eu não tivesse outra opção. Ou melhor, até tinha: poderia nem desembarcar e retornar imediatamente ao Brasil. Consciente do meu inglês precário e rudimentar – apesar das aulas no Yazigi – decidi que no máximo eu passaria uma semana dormindo no hotel. O que não era uma má ideia, pois na época eu trabalhava em torno de dez horas diárias e estava exausta.
Em Toronto desembarquei sozinha com minha mala, meus documentos, meu inglês capenga e dinheiro suficiente para me hospedar no melhor 5 estrelas da cidade, por uma semana.
Frente a situações assim costumo dizer: RESPIRA FUNDO, SE ACALMA E PENSA. Não adiantava matar meu marido, nem gritar nem chorar.
Troquei algum dinheiro e fui de táxi ao centro de Toronto, próximo à embaixada americana. Já estava anoitecendo e precisava me sentir segura num espaço fechado. Chegando ao hotel e já desencavando meu inglês enferrujado e horroroso, me instalei confortavelmente na cama King Size onde assisti a várias partidas de tênis. Precisava baixar a adrenalina de toda aquela tensão e a bolinha hipnotizante do tênis, indo e vindo, simplesmente me acalmou. Adormeci com a batida seca da bolinha no saibro da quadra de tênis.
Quando amanheceu fui conhecer – e apenas isso – a embaixada americana e a brasileira e confirmei que ficaria sem o visto americano e com uma semana inteira de Toronto.
RESPIRA FUNDO, SE ACALMA E PENSA.
E mergulhei em Toronto. Saí do Sheraton e me hospedei no Hotel Bond. Um três estrelas muito bem localizado. Estudei o guia e os mapas da cidade, comprei um dicionário inglês&espanhol, afinei o ouvido, exercitei a memória e o maxilar, andei de ônibus, metrô, bonde, barco e a pé. Conheci Toronto de todas as maneiras que se pode conhecer uma cidade. Sozinha. E mal e mal falando inglês.
Gosto deste momento da minha vida, pois no final daquela semana, tive a certeza de que posso ir a qualquer lugar e me comunicar com qualquer pessoa de qualquer parte do planeta.
Gostaria de falar mais e melhor o inglês. Mas já desisti. Cheguei à conclusão de que conhecimento pouco usado, atrofia. Me viro com o que sei e o pouco que sei não me impede de viajar. Além das palavrinhas mágicas “Sorry”, “Escuse-me”, “Please”, “Thank You” duas frases são fundamentais: Can you speak slowly?” e “How much is this?”.
Do resto, a linguagem internacional dos gestos dá conta. Me comuniquei em chinês, japonês, italiano, espanhol, alemão, sueco …….. sem palavras. Compreendi e fui compreendida. E isto é o que importa.
Próximo destino? Qualquer lugar do planeta.

Retornando a São Paulo

Estou voltando a São Paulo com as malas cheias: muitos papos cabeças, cafés, chimarrões e chás entre amigas, muitos pontos bordados e costurados, muitas noitadas em frente à lareira e muitos vinhos saboreados, horas de sono regadas ao barulho do silêncio e da chuva, muita mordomia gostosa que só minha assistente doméstica (de mais de 17 anos) sabe dar, massagens de relaxamento e de ego, muita bergamota comida do pé, pinhão graúdo, pipoca com melado e suflês de queijo, o som gostoso do violão e da música clássica. Muita, muita, muita coisa volta comigo a São Paulo.
Possivelmente terei excesso de peso ao embarcar. Literalmente e em todos os sentidos. Mas é o melhor excesso de peso que existe. O da felicidade e do prazer satisfeito.
Mesmo assim me sinto leve e pronta para recomeçar a segunda metade do ano. Descansada e sossegada.
Estou com saudades de São Paulo. Cheia de ideias e de energia. É só chegar, usar e gastar.
É ótimo voltar pra casa. Minha outra casa.

A força da natureza

Esta é Lajeado inundada pelo Rio Taquari.

Depois de uma quarta-feira chuvosa a preguiçosa, a quinta-feira amanheceu cinza e cheia. Cheia de água, sujeira, gente, carros e ônibus. Lajeado fica espremida quando o Taquari reclama suas margens, e sem ter para onde ir, o rio simplesmente se apossa de tudo e as pessoas se resignam a ceder o espaço roubado.
E assim o centro da cidade fica resumido a apenas 3 grandes artérias de escoamento de carros, caminhões e ônibus.
Por onde se olha, vêem-se pessoas procurando paradas inexistentes, caminhões e camionetes transportando móveis e famílias, ambulâncias, pessoas curiosas e assustadas. A midia local informa de hora em hora o quanto o rio já subiu e as previsões para as próximas horas. Todos ficam aflitos e excitados com a chegada anual do verdadeiro dono daquelas terras.
Nesse ano ele se agigantou 26 metros acima do berço por onde ele desliza tranquilo a maior parte de sua existência.

A água que ruge raivosa sob a ponte Estrela-Lajeado é de uma beleza assustadora. O rio passa por lá como um gigante seguro de si. Arranca e carrega consigo tudo o que cruza seu caminho.
Ao mesmo tempo em que apavora sua imagem de gigante ensandecido e descontrolado, sua fúria avassaladora transmite uma serena tranquilidade. Ele mostra o quanto está vivo e forte. O quanto ele, apesar de tudo, repete seu ciclo milenar de se expandir e fertilizar as terras por onde passa. Ele e sua natureza selvagem são mais fortes e vibrantes do que a ganância, a irresponsabilidade e a inconsciência humana, que insistem em ficar em seus domínios.

É claro que me entristeço ao presenciar a inundação e destruição de casas, móveis e carros. Flagelados amontoados, esperando ansiosos o momento de retornarem ao lugar que julgam ser seu. E lá verem o trabalho – muitas vezes de uma vida – devastado em poucas horas. Isso quando não acontecem mortes e outras atrocidades.
Ano a ano a história se repete.
E me pergunto. Porque? Até quando?
O Taquari vai manter seu percurso e seu ciclo, enquanto for vibrante e saudável. E sinceramente
torço e espero por isso.
Quem sabe seus posseiros decidam se afastar e respeitar o verdadeiro espaço de que ele precisa.
Talvez só assim, o homem e o rio viverão em paz.

O perfeito dia de inverno

O perfeito dia de inverno é com chuva e sem compromisso. É com fogo na lareira e pipoca com melado. Infelizmente, uma delícia calórica bombástica e irresistível. Dinamite pura na minha dieta já detonada.

Quando amanheceu em minha cama as 10:30h, coloquei o nariz na janela e decidi que estava de férias e que todos compromissos do dia seriam cancelados, adiados e reprogramados. Meu programa oficial de férias é descansar, curtir o fogo da lareira e a boa vida.
É nesta sala que eu adoro bordar e escrever até altas horas. Com café ou vinho e a presença, agora estilizada, do meu gatinho sumido – o Lolinho – em meu avental de arteira.

Este é meu bySuzete, confeccionado no último sábado. “Cadê meu Lolinho” é uma homenagem a meu gatinho desaparecido. Agora é este avental bordado com patchwork com um gato preto com olhos de botões amarelos que me acompanha em minhas artes.

Vinho, chinelo de pelo, fogo, preguiça, barulho da chuva e a certeza de que qualquer coisa que eu tenha que fazer, vai ter que esperar a chuva e a preguiça passar, o fogo apagar e o vinho acabar.

Amigas

Essa aí sou eu de dieta!!!! Felicíisima.

Quem tirou esta foto foi uma querida amiga que não quer ser identificada, pois foi ela que me levou pro mau caminho, e juntas devoramos croassants divinos e capuccinos regados a amarula e chantilly(pelo menos eu), e assim ambas dinamitamos nossas dietas.
Amanhã começo de novo. De novo.
Foi aí que lembrei de uma crônica bem antiguinha, mas que gosto muito, que é sobre quem são minhas amigas.
Este post, cara amiga, é em sua homenagem.

Quem são minhas verdadeiras amigas?
Já tentei responder a esta pergunta inúmeras vezes. Nunca consegui. Afinal, o que realmente faz de alguém ser ao não ser amigo ou amiga?
Apesar de muitas pessoas dizerem que não temos mais do que uma mão cheia de verdadeiras amigas (ou seja, cinco amigas), eu discordo veementemente desta afirmação. Acredito em diversos formatos de amizade.
Não acredito que um único tipo de amizade possa dar conta de todas nossas necessidades, de preencher todas nossas expectativas. Cada uma tem sua peculiaridade, seu jeito único e especial de preencher seu espaço e de se tornar nossa amiga.
Tem a amiga mãe, a amiga filha, a amiga irmã, a amiga prima, a amiga avó. Uma mistura de sentimentos únicos. Amor e ódio. Interesse. Dedicação. Ciúme. Inveja. Gratidão. Companheirismo. Cumplicidade. São as amigas que não escolhemos. Elas são nossas mesmo que não as queiramos. E por mais que brigamos, nós as adoramos. Nossas vidas acabam girando em torno delas, e as delas, em torno de nós.
Tem a amiga sogra, que pode ser uma excelente aliada. Depende muito de nós os rumos desta relação explosiva. Adoro a minha sogra! Verdade!
Tem aquela amiga com quem é ótimo passar horas ao telefone. Você fala, ela fala, você fala, ela fala. Cada uma aguardando sua vez de falar. É uma conversa sem cobrança, sem exigências. Funciona como uma catarse, pura associação livre. O conteúdo da conversa é o de menos, o importante é ter com quem falar sobre qualquer coisa. O simples conversar faz bem para as duas.
Tem aquela amiga com quem é ótimo sair para almoçar, comer pizza ou ir ao café colonial. Ela não fica reparando no quanto você está comendo, nem fica fazendo comentários sobre dietas, calorias, etc. Assim como você, ela também está farta do policiamento. Ela é perfeita porque você pode comer sem culpa. Uma raridade!
Existe a amiga que é sua fiel companheira de caminhadas, academias e dietas malucas. Existe uma troca de estímulos e incentivos de parte a parte.
A amiga com quem é ótimo ir ao cinema! Como você, ela não suporta comentários durante o filme, deixando-os para depois.
Tem a amiga com quem é ótimo ir ao shopping. Ela não te obriga a comprar o que você não quer, não alfineta suas escolhas, e se não encontrar nada do gosto, não fica dizendo para todo mundo que você está dura, ou então, que você não sabe o que quer.
Tem a amiga com quem é ótimo falar e desabafar sobre os filhos, aquela que é ótima para desabafar sobre o marido, e tem até a que é perfeita para falar mal da própria mãe e da sogra.
Tem amiga que te acha o máximo, ela é a verdadeira massagista do teu ego. É sua fã incondicional.
Tem a amiga que te inveja, e aquela que você inveja.
Tem aquelas amigas que mantém tua caixa de entrada do Outlook lotada de piadas e mensagens engraçadas e picantes. Elas são a garantia de uma boa gargalhada diária.
Tem amiga colega com quem trocamos idéias e dificuldades profissionais.
Tem a amiga terapeuta para quem falamos quase tudo, e que nos ouve pacientemente e incondicionalmente.
Tem a amiga secretária que organiza a agenda e a semana.
Tem a amiga empregada que organiza a vida doméstica, faz a comida preferida e deixa tudo do jeito que você gosta. Não me separo da minha nem por decreto.
Tem a amiga de alma. Mesmo com pouca relação, basta um olhar, e tudo já foi dito. São como vidas eclipsadas. Ao mesmo tempo em que esta amizade é tranqüilizadora, ela também assusta. Acontece apenas por identificação.
Tem as amigas de infância, de adolescência, das baladas, da universidade, do trabalho, da escola.
Tem pacientes amigas.
Para mim todas são amigas.
Cada uma é amiga de uma maneira muito especial.
Não penso que este jeito de ver as amizades seja uma forma dissociada, compartimentalizada. Penso apenas que desta forma podemos usufruir das amizades aquilo que elas têm de melhor.
Afinal, ninguém é perfeito. Nem nossas amigas.
Lajeado, fevereiro de 2007.

Jardim interior

Esta arvorezinha graciosa dá as boas vindas a todos que chegam em nossa casa, em Lajeado – RS. Ela está vermelha assim, desse jeito, porque adora o frio. E como nas duas últimas semanas fez um friozão por aqui, ela está toda exibida. Eu a chamo de miniplátano.
Nossa bergamoteira é uma fartura só. Todo ano ela fica tão carregada que para não quebrar mais e mais, amarramos todos os galhos a seu vizinho palmito. Que nunca reclama desta exploração. Já a jabuticabeira é uma miséria. Nunca deu um fruto sequer. São 17 anos na maior moleza. Sobreviveu a todas as ameaças, pregos e cortes. Hoje ninguém espera mais nada dela. Apenas sua beleza e sua função de cerca viva a mantém de pé. Enquanto as bananeiras continuam imbatíveis em fertilidade e produção. Tanto quanto a bergamoteira. São cachos e mais cachos abastecendo a vizinhança, virando bananada, schimier, bala e vitamina.
Os kaizucas são divinos. Ano a ano eles ficam mais bonitos, exuberantes e cheirosos. Eles dão o toque europeu à nossa casa tupiniquim gaucha. Já os palmitos dão um ar tropical à área da piscina. Quem pensa que eles dão pouco trabalho, está muito enganado. De tempos em tempos eles dão cachos infernais de coquinhos, que na fase flor, intoxica a piscina e suas tubulações. O jeito é ficar atento e, assim que o cacho aparece no envelope de palha que se abre, o jeito é decepá-lo sem dó nem piedade, a facão.

Adoro nossos buganvilles. A primeira árvore foi arrancada pelo vento anos atrás. O jeito foi plantar uma nova. A antiga era lilás. A nova é cor de rosa. Nas duas vezes comprei gato por lebre. O que eu sempre quis foi um buganville com flores vermelho carmim. Espero não ser enganada na próxima vez que for repô-lo.
Nestes 17 anos vivendo em casa, nosso jardim já passou por três adequações. Aprendi muito com os jardineiros e paisagistas que me serviram.
Planta é como gente. Precisa se adaptar ao lugar em que é plantada. E nem sempre o lugar escolhido é o certo para ela. Perdi plantas caríssimas ao desrespeitar esta regra básica. Ela mingua, perde o viço e a cor. E por fim, morre.

Cuido para não perder nem o viço, nem a cor. Jamais minguar ou morrer. O jeito é se adaptar. Assim como perdi muitas plantas, recuperei outras tantas e hoje estão mais lindas do que nunca. Que o digam nossas fênix, cicas, dracenas, buxos, bromélias e outras tantas, que renasceram ao ser relocadas e transplantadas. Hoje reinam majestosas cheias de cor e luminosidade.
Também estou me relocando e me transplantando. Assim como minhas plantas estou procurando o meu novo lugar.
Assim como elas, pretendo me adaptar e reinar majestosa, cheia de cor e luminosidade.

Palavrão

Crianças, me perdoem! Do fundo do meu coração, da minha alma, da minha pessoa, de mim mesma. Perdoem-me. Me desculpem. Mas, acho que não tem mais jeito. Vou ter que usar a palavra “foda-se” de vez em quando.
A vida toda ensinei que era palavrão. E ainda é. Mas todo mundo usa. Só eu que ainda não.
Todos usam. Até Luiz Fernando Veríssimo, Martha Medeiros e Lia Luft. Jorge Amado já usava há séculos. Todo mundo fala. Só eu que ainda não.
“Vai tomar no ..” nem pensar. Mas todo mundo diz. Só eu que não. AINDA NÃO.
Estranho estar pedindo permissão. Mas como posso falar se a vida toda proibi que vocês falassem?
Então, como posso?
Posso?

A minha saga e As Outras Sagas

Eu não podia perder nem deixar de ir ao lançamento mundial de Harry Potter – As Relíquias da Morte – parte 2. Desde sempre e desde muito, sou fã assumidíssima do bruxinho e de sua criadora, J. K. Rowling. Li todos os seis livros e assisti a todos os oito filmes. Harry Potter foi meu tema de conclusão na Especialização de Psicoterapia Psicanalítica da Criança e do Adolescente, realizado na UNISINOS. Assim como o vampiro Edward, da Saga Crepúsculo, Harry despertou em mim uma curiosidade intrigante e fui buscar em Bruno Betthelheim (A Psicanálise dos Contos de Fadas) a resposta para tanto sucesso e euforia. E por mais que entenda a veia e o cerne do que é ativado nas duas histórias – Harry Potter e Crepúsculo – fico imaginando e desejando a genialidade de transpor para o papel o universo de fantasia e simbolismo inconsciente que ambas exploram de forma ímpar. São contos de fadas contemporâneos para todas as faixas etárias, despertando em cada leitor seus complexos e conflitos mais profundos de forma lúdica e simbólica. Quer tenham 5 ou 50 anos.
Sem dúvida J. K. Rowling e Stephanie Meier são mestras ao misturar o antigo e o novo, a fantasia e a realidade , os medos e os desejos de cada um numa alquimia invejável e divina. Durante o filme, numa sala de cinema lotada, a luta entre o bem e o mal com seus mocinhos e bandidos lutando e morrendo, receberam palmas e gritos vibrantes e empolgados nos momentos mais esperados. O bem representado por Harry Potter derrotou o mal, representado por Lord Voldemort . É isso que todos esperamos e desejamos no nosso dia a dia. O bem sobrepujando o mal. É assim que esperamos que as coisas terminem.
Na sexta-feira, dia 15 de julho, também vivi a minha própria saga. Ou melhor, minha mini-saga.
Decidida a ir de ônibus a Porto Alegre, já que voltaria de carona com meu filho Felipe, a ideia do ônibus, era sem dúvida a mais acertada e coerente. Mas, se não fossem os mas, seria tudo perfeito.
Mas, ao chegar na rodoviária a constatação de que o ônibus (daquele horário) era do tipo comum. Rasga-roupa. Pinga-pinga. Ok, sem problemas. Chegaria a tempo, apesar das paradas frequentes. Quando o ônibus chegou na rodoviária de Lajeado, metade desembarcou e outra metade embarcou. Inclusive eu. Depois de mais de 15 dias de chuva no sul, sexta-feira foi o primeiro dia de sol, então, ao entrar e me deparar com aquele corredor azul, senti o bafo do mofo e do fedor de gente molhada bater de frente. Fechei o nariz e fui até o fundo, desejando que o cheiro melhorasse ou que eu me acostumasse.
Infelizmente, um dos meus sentidos mais aguçados é o olfato, e meu nariz de perdigueira identificou toda espécie de odores e fedores. Ao me sentar, cheirei a poltrona e a cortina. Nada. O cheiro nauseante que impregnava o ar era uma mistura de vômito, titica de galinha, ração molhada, mofo, umidade e Fandangos. Senti-me numa gaiola sobre rodas que não era limpa há dias, e imaginei o quanto pode ser sofrida a prisão dos pássaros. Arrrrgggg.
Sorte a minha ter agido como francesa e me encharcado com um francês marcante. Organza. Minha “sobre-leg” recém comprada, serviu de sobre-boca e sobre-nariz. Sobrevivi e cheguei nauseada em Porto Alegre.
Ao desembarcar do ônibus, a sensação era de que na frente o cheiro era outro. De pastel frito e coca cola recém aberta.
Livre da gaiola sobre rodas respirei o ar gelado e inodoro (daquela hora) de Porto Alegre.

“Liberdade”

Terminei de ler o livro de Jonathan Franzen – Liberdade – em plena madrugada chuvosa e gelada, sete dias depois de começar a ler o mais novo best seller do momento. 605 páginas com praticamente todas as dicas e ferramentas aprendidas durante quatro meses de escrita criativa.
O livro é denso e ao mesmo tempo abrangente. Cansativo muitas vezes, estimulante outras tantas. Minha maior chateação certamente foi a falta de um grande clímax – no início, meio ou fim, tanto faz. Senti que o clímax difuso e fragmentado definitivamente não combina comigo. Me desanima e frustra.
Prefiro a intensidade à serenidade. Literária. E outras tantas. Não todas.
Para quem tem fôlego recomendo a leitura.

Velha e enferrujada

Infelizmente é assim que me sinto. Há algum tempo. Mais do que gostaria de admitir. Minha cabeça continua cheia de ideias, mas meu corpo não compartilha do mesmo entusiasmo. Parece querer sossego e para tanto, me impõe um número: 49.2 . Ainda não 50. Anos.
Dane-se. Meu corpo de 49.2 anos que aguente o tranco e meu entusiasmo sem idade. Braços, costas e ombros que se acomodem e me deixem dar vida a tantos planos e projetos. Prometi a eles sessões de musculação e ioga. Pediram para ser fortalecidos, sentem que estão perdendo massa muscular, força, amplitude e elasticidade. Insistem que estão ficando velhos e enferrujados.
Minhas pernas até que tem me dado sossego. Quatro horas semanais de caminhadas parecem satisfazê-las. Não do ponto de vista estético. Nem imagino onde se escondem meus músculos. Certamente nas profundezas do meu ser. Para serem resgatados e/ou ressuscitados vão exigir mais horas de musculação do que o planejado. Mas acredito que o conjunto da obra vai agradecer este acréscimo. Começo a odiar os “bullegum” que dia a dia se instalam aqui e acolá, sem ser convidados. Simplesmente aparecem. Sem autorização, permissão e sem cerimônia. Como uma visita indesejada e inconveniente.
Felizmente domei a falta de pigmento dos meus cabelos. Tenho oferecido uma incrível variedade de cores a cada três semanas. Eles tem me cobrado mais frequência. Agora a operação pigmentação capilar é quinzenal, devido à revolta das raízes.
Ainda reluto ao uso dos óculos. Idiotice e cretinice total. Não enxergo nada com menos de 0,5 cm de tamanho. O que é enorme. Na minha bolsa – já entulhada e atulhada – carrego nada menos que três óculos: meu Vitor Hugo máscara solar, meu multifocal Kelvin Klein tonteador e minha salvação pirata-de-farmácia de R$30,00, que só serve para ler, e que é uma delícia (cai-cai, não quebra, não risca, não nada. Apenas faz enxergar em toda sua extensão). Então é um troca-troca cansativo e pouco produtivo. Juro que a partir de amanhã vou perder o pirata e usar o titular, prescrito pelo oftalmo. Que se dane a tontura e a enxaqueca. O preço vale o sacrifício e eu hei de me acostumar.
Pior do que os “bullegum” não vai ser.
Se minha memória não estiver arriada é isso aí.
Só e por enquanto.