Tristeza

Na Pinheiro Seco, fazenda de amigos meus,

descobri os mirtilos e as caixas de abelhas. Um adoçando o outro.

Foi o que salvou o passeio de moto para o frescor das montanhas.

As uvas não vão dar. As ovelhas fedem. O lago está cheio de sapos. O campo cheio de bosta de vaca. O barulho – de água correndo – da fonte das carpas vermelhas atrapalhou o silêncio. Sem contar os quacquac e os gluglu dos patos, gansos, galinhas e perus. O mau humor e as notícias de Brumadinho me afundaram no sofá. A fragilidade e o descaso  pela vida e o peso da morte me hipnotizaram frente à TV ligada o dia todo. Mal vi as araucárias. Minha coluna entortou e a bateria da moto arriou.

Devia ter ficado e mergulhado nas ondas.

Dor e Tristeza

Dizem que estamos vivendo a Era da Felicidade. Sentimentos como dor, frustração, desapontamento e tristeza parecem ETs da modernidade, antinaturais e anormais. Um mal a ser evitado ou medicado. A regra é ser feliz, ou melhor, mostrar que se é feliz. A realidade porém, é bem diferente: todos sofremos e nos entristecemos. Sofrimentos vem e vão, são substituídos, diluídos, absorvidos. O melhor remédio, dizem, é o tempo: infinito, insensível, temperamental. Ideal seria mesmo, exterminar estas malditas dores e tristezas ingratas, de imediato! Quando meu filho entrou na sala de cirurgia por causa de uma fibrose no cotovelo esquerdo que limitava seus movimentos, pensava eu em como seria bom se já tivesse passado um ano, o resultado esperado+alcançado, as sessões de fisioterapia, as dores, o choro, as reconsultas, os exames, tudo, tudo fosse coisa do passado. Queria um parênteses para nele aprisionar meu sofrimento, um vácuo que engolisse minha dor. O mesmo aconteceu com outras doenças, crises, perdas, as coisas ruins+dolorosas e inerentes à vida humana. Tudo o que queria era minha vida de volta. Queria a felicidade que julgava ter direito. É o que todos queremos e acreditamos merecer! Queria uma trégua da vida – sabendo de antemão – que viria a temperança! Que o tempo tudo abrandaria! Mas a travessia sempre é difícil e doída! Tarefa pessoal e intransferível, ninguém pode ultrapassá-la por nós! Deste turbilhão saímos fortalecidos ou destroçados. Melhorados ou piorados. É assim que é! Uma forma de avaliar a dor é dar-lhe um tamanho, um número. Do tipo, se é um é pouco, se é oito, já é bastante. Os números nos dão uma medida, daquilo que teoricamente, não tem medida. Tornando objetivo o subjetivo, nos impermeabilizamos e vemos tristeza e dor –  externas e controláveis – em tempo de digeri-las e sobreviver a elas. Caso persistam, convém se perguntar: pra que serve o que estou sentindo? Que lugar estes sentimentos ocupam e que função tem na minha vida? Nem sempre encontramos as respostas, e talvez, seja necessário encontrar quem possa ajudar. Família, companheiros, filhos, amigos. Quem sabe um profissional. Dor e tristeza são necessárias para crescer e amadurecer. Porém, devem ser passageiras e transitórias, jamais um Estado Permanente.

                                                               Lajeado, maio de 2007.