Cuca Fundida

A noite foi de sono moído e por isso li até quase o dia raiar, mesmo sabendo dos vários compromissos e pendências da exposição Diálogos do Inconsciente, em Lajeado. Enquanto espero pela livreira Stela, meu olhar cruza com o livro “Cuca Fundida” de Woody Allen. A identificação foi imediata.

Do autor li o brilhante “Adultérios”.

“Cuca fundida” é estranho. Literatura fantástica estranha. Estranhamente, é só o que tenho a dizer.

Camaleões humanos

E quem já não se sentiu plagiado ou roubado como ser humano?

Quando a própria identidade é o objeto a ser saqueado e tomado.

“Examinemos esse autêntico arquétipo que, esperamos, venha a figurar um dia nos manuais, constituindo uma nova noção psicológica, o zeliguismo, a exemplo do que ocorreu com o masoquismo (derivado de Sacher-Masoch) ou com o dom-juanismo (a partir do mito de Don Juan. O termo pode até soar mal, mas designa de forma apropriada uma realidade significativa.

Psicanalista de origem polonesa, Helene Deutsch foi pioneira na descrição de um tipo análogo de personalidade, que ela batizou de personalidade as if (“como se”). Nestes indivíduos a identidade é flutuante, mal-ancorada. Eles conseguem se estabilizar apropriando-se da imagem de um outro, espelhando-se de maneira mimética em pessoas próximas. Procurar agir, pensar e sentir como quem está diante deles dá a esses indivíduos uma consistência, um simulacro de coerência. Essa imitação extrema impede a experiência de ruptura, da errância, permite a eles unificar-se, integrar pensamento e sensação.

As personalidades as if nos parecem inconsistentes. São sede de uma energia não orientada que pode se traduzir em percepções estranhas: impressão de ser atravessado por correntes elétricas, sensação difusa de dor, etc. Essas personalidades não tem de fato objetivos, mas isto não está relacionado à dificuldade de assumi-los, que é uma dificuldade central nas neuroses. Imitar a imagem, as palavras, os gestos do outro, agarrar-se a um texto são modos de concentrar numa direção, canalizar um pouco estes fluxos e de dar a estes indivíduos uma coerência, preenchendo-os.

Helene Deutsch explica a superficialidade de suas emoções: “Aderindo com grande desenvoltura aos grupos sociais, éticos e religiosos, eles procuram mediante essa adesão, dar conteúdo e realidade à sua vida interior e estabelecer a validade da sua existência por meio de uma identificação.” Na qualidade de camaleões desprovidos de referências interna, eles se fundem ao cenário, não ferecem nenhuma resistência ao meio. Homossexuais entre os homossexuais, héteros entre os héteros, provisoriamente sadomasoquistas ou abstinentes segundo o contexto, esses indivíduos se moldam de acordo com os modismos, os gostos daqueles a sua volta, sem fazer valer uma posição diferenciada.”

(Como Woody Allen pode mudar sua vida – Grandes lições de vida através da visão de um dos maiores gênios do cinema, Éric Vartzbed, p. 53/54)

“Adultérios”

Três histórias de Woody Allen sobre adultério. Três cenas de peças de teatro com diálogos engraçados, inteligentes e leves sobre um tema complexo. Li em duas sentadas e me encantei com os personagens traídos e traidores criados de forma brilhante pelo ator, diretor e ator Woody Allen. Os diálogos impressionam pela profundidade e intensidade e por mais sarcástico ou irônico que possa soar, o adultério diverte. Não tem como não se encantar com o humor, a racionalização, as tiradas freudianas e as reações – inicialmente surreais – e o desenrolar e o final inesperado de cada trama. Um pequeno grande livro de bolso da L&PM Pocket. Pra quem gosta e quer aprender a escrever diálogos. Imperdível.