Eu tinha uma gata preta

Eu tinha uma gata preta.

Amava a gata preta que eu tinha.

Alguém – não sei quem – a tirou de mim.

DSC03783

Não sei se por maldade, crueldade ou simples falta de humanidade. Acredito que quem envenena gato, cachorro ou outro animal, ou é mau ou é cruel ou tem algo de desumano. A prática é antiga, assim como é tirar os filhotes recém nascidos do ninho e abandoná-los à própria sorte, matá-los à pauladas, ensacar e jogar no lixo, no rio, no penhasco, na esquina, no matagal. Cresci vendo e ouvindo estas histórias, e quando diziam que eu tomasse cuidado com “o homem do saco preto que levava as criancinhas”, lembrava dos gatinhos de olhos arregalados, de pelo espevitado, das patinhas retesadas e unhas medrosas que sumiam do meu esconderijo improvisado entre gavetas, armários e pilhas de madeira e sucata no porão da casa velha onde eu morava. Sabia que o homem do saco preto os havia encontrado e levado. Muito choro depois, mais de vinte gatos sobreviventes perambulando famintos e briguentos pela casa, entendi que era impossível acolher todas as ninhadas que a natureza felina nos presenteava. Os gatos foram morrendo, fui crescendo e só voltei a adotar a July, o Cooki, o Logan e a Nina – já adulta – para dar aos meus próprios filhos, a alegria e a aventura  emocional de conviverem com estes seres sagrados e mágicos na arte do amor incondicional e sem medidas. De todos os animais que tivemos, apenas uma cachorra, a Dátia, morreu de velhice. Todos os outros morreram de forma trágica: quase todos, envenenados. Chorei cada um deles com sangue e dor. A perda sufoca, a saudade doi, as imagens e lembranças invadem nossos dias resgatando momentos maravilhosos, e aí, num puff, tudo acaba. Sobra a tristeza pela espécie humana, capaz de assassinar qualquer espécie, inclusive a própria. Quanto aos animais? Coitadinhos! Basta cruzarem com genocidas maníacos por limpeza e ordem, brutamontes incapazes de amar e entender que todas as espécies tem instintos e necessidades, para que  Hitleres, Sadans Husseins e Slobodans Milosevics de fundo de quintal, arregacem suas  mangas e arquitetem barbáries, usando arapucas, venenos, sacos, cordas e todo um arsenal medieval para não ver mais patinhas nos porcelanatos claros das varandas, plantas amassadas, cocozinhos e xixizinhos esparramados pela grama alheia, sinfonias noturnas … Sinceramente, não consigo imaginar o que pode estimular este lado perverso em pessoas civilizadas, trabalhadoras, pais e  mães de família, a ponto de matar de forma covarde – e infelizmente – impune,  animais domésticos, alegria de tantas crianças e famílias, que veem seus animais como filhos, companheiros, confidentes, verdadeiros amigos e legítimos membros da família.

familia feliz adesivo

Quanto às leis de proteção aos animais? Elas existem. Mas o que esperar delas, se nem as leis que deveriam proteger e punir quem pratica atrocidades contra os seres humanos são cumpridas? E aí me pergunto como posso ter um felino que vai continuar perambulando pelo bairro, respondendo a um comportamento atávico e ancestral, pra cair – de novo – nas mãos de um bárbaro cruel do século 21? De que maneira posso protegê-lo? Prendê-lo numa coleira? Trancafiá-lo em casa? Usurpar sua natureza e essência animal por que animais humanos são intolerantes e crueis e vão, irremediavelmente, envenená-lo de novo? Não, não posso. Por enquanto, não.

nina e susi

Nina estava passando uma temporada na casa de uma amiga que cuidou maravilhosamente bem dela. Obrigada, Suzana. Tenho certeza que ela viveu momentos maravilhosos contigo e com teus filhos e foi muito feliz com a própria mãe e o meio irmão Polenta (apesar das brigas, grunhidos, miados e caras feias). Nina acreditava que todos éramos bons e generosos, verdadeiros amigões. Por mais intuitiva e esperta que fosse, era alma generosa e ingênua que confiava demais. Não dizem que “a curiosidade matou o gato”? Some-se à curiosidade + veneno + crueldade. Este mix acabou com a única vida que ela tinha. Também não dizem que gato tem sete vidas? Não, não tem. Como eu queria que ela tivesse mais seis vidas para gastar!!!!

DSC05748

Nina voltou pra casa.

Voltou pra eternidade

Ela não esperou por mim.

O tempo dela era diferente do meu.

Perdi ela para sempre.

DSC04200

Habita em mim a lembrança da escuridão desfilando na noite. A patinha fofa de pelo sedoso de olhares cúmplices e companheiros. Ainda a vejo cruzando a rua, escalando o terreno baldio em frente, mascando capim, se esgueirando pelo mato ralo. Ao retornar, o olhar atento para a direita e para a esquerda. E então, a corrida apressada para casa. Vai que um carro a atropelasse!!!!! Intuía a existência de perigos. Nina era cuidadosa consigo e com os outros. Por mais que eu agisse como uma “Felícia” aloprada, nunca me aranhou ou mordeu pra valer. Brincava que mordia e aranhava, fazia festa com nossas garras, e, num piscar de olhos, saltava do colo e buscava seu próprio espaço. Era gata silenciosa e independente que sumia no dia e na noite, e quando menos eu esperava, estava a meu lado. Fiel, serena e amiga. Ela me faz muita falta.

DSC04202

Eu tinha uma gata preta

Alguém a tirou de mim.

A pergunta que mais me faço

não é

Quem?

é

Por que?

cartaz para afixar em caso ede envenenamento

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s